Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 404

História com Sentido(s): Dies Natalis Solis Invicti Voltar

O solstício de Inverno tem sido celebrado pelas mais diferentes culturas desde tempos ancestrais dando origem a muitas das tradições que hoje fazem parte da forma como comemoramos o Natal. Este ano ocorrerá no dia 22 de dezembro às 04:19 marcando o pico máximo da declinação solar, ou seja, o sol atinge o seu ponto mais baixo no céu do hemisfério norte. Durante alguns dias estaciona, trava o seu movimento, nascendo exatamente no mesmo local no céu. No entanto, na manhã do dia 25 de dezembro irá finalmente ascender marcando o inicio do fim da escuridão.

Os nossos antepassados observaram este fenómeno ano após ano, século após século, durante milhares de anos. O solstício do Inverno é a demonstração da repetição do ciclo eterno da vida através de um evento diretamente observável nos céus.  É o ponto de viragem da roda infindável da natureza. Da luz à escuridão, do sol minguante ao sol crescente, da morte ao renascimento.

É por isso certo que as origens de algumas das tradições mais significativas desta época do ano remontam aos tempos pré-cristãos. Embora seja difícil identificar as suas fontes todas são bastante familiares na cultura ocidental atual.

Podemos referir antes de mais a importância das sempre-verdes. Estas espécies têm sido símbolo sagrado da imortalidade nas mais diversas culturas. Por exemplo na cultura nórdica e celta o pinheiro assumiu especial importância. No meio da estação escura quando a maior parte da vegetação fenece e as árvores perdem as suas folhas parecendo ter perdido a vida, espécies como o pinheiro mantêm-se sempre verdes. A sobrevivência e o seu vigor misterioso tornaram-se um símbolo da força da vida carregando em si a esperança da renovação constante. Assim terá surgido o costume de decorar a casa com sempre-verdes e também a tradição da “Arvore de Natal” ou Tannenbaum, que em alemão significa “Arvore Sagrada”.

Da mesma forma espécies como o azevinho ou o teixo que, não só se mantêm sempre-verdes, como também produzem belíssimas bagas vermelhas no meio do Inverno, eram consideradas sagradas, pois continham a força sagrada da vida. As coroas de Natal tradicionalmente feitas destas espécies são símbolo da roda do ano e do completar de mais um ciclo.

Desde sempre, nas mais diversas culturas, esta fase do ano tem sido marcada pelos mais distintos rituais e celebrações tendo em comum o tema da luz e do renascimento do sol. Já na antiga Mesopotâmia, os persas marcaram o dia 25 de dezembro como a data de nascimento de Mithras, deus do sol e símbolo da luz.

Os romanos também celebravam nos dias antes do solstício de Inverno a Saturnalia, festival em honra do deus Saturno, que marcava o fim de mais um ano de colheitas. Este era marcado, entre outros rituais, pela realização de banquetes e pela troca de presentes – as sigillaria – figuras de cera ou de barro. Mais tarde, no final do Império, o Imperador Aurélio, desenvolveu o culto ao deus do Sol, ou Sol Invictus, tornando-o oficial entre 270-275 da nossa era e instituindo o dia 25 de dezembro como o Dies Natalis Solis Invicti. Este festival, veio combinar cultos a antigas divindades solares com o culto ao novo deus do sol, símbolo da vitória e patrono dos soldados romanos.

Mais tarde, no século IV, o cristianismo veio também escolher esta data para marcar o nascimento de Jesus Cristo.

Não poderia ainda deixar de se referir os rituais associados ao fogo enquanto fator fundamental e transversal às mais diversas culturas que celebram esta fase do ano. O fogo, fonte de luz e calor, essencial à sobrevivência durante a estação fria, mas também o fogo espiritual, símbolo do renascimento do sol.

Ainda hoje é possível observar por toda a Europa rituais relacionados com o costume de queimar o “Tronco de Natal”, sendo utilizados tradicionalmente diversos tipos de madeira consoante cada país. Em Portugal, sobretudo no interior, continua ainda a fazer-se o Madeiro, ou seja, uma grande fogueira que é ateada num local central na noite de 24 de dezembro dando origem a um importante momento ritual de encontro e de convívio comunitário. Normalmente arde durante essa noite, mas outros locais há, como o caso de Penamacor, onde o Madeiro arde durante vários dias, sendo considerado o maior do país.

O solstício do Inverno representa o inicio da vitória da luz sobre a escuridão. O tempo de honrar o retorno da luz depois da noite mais longa do ano. Uma celebração de renascimento e novos começos. Representa o momento para afirmarmos os nossos laços espirituais com a natureza através de rituais e tradições com milhares de anos. Seja qual for a crença que celebramos este é um tempo de renovar laços familiares, de refletir sobre o fim de um ciclo e de encarar um novo com a esperança renovada e a certeza que todo o final tem em si um novo recomeço.

 

 

- 10 Dez, 2019
- Carina Abreu