Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 436

"Os Nossos Heróis": Francisco Esteves Florido de Mendonça Voltar

As memórias paroquiais entre outros aspectos dignos de relevo tiveram o mérito de constituir uma base de conhecimento sobre a história dos territórios dos quais até então pouco se dissera. Tiveram génese em 5 de Janeiro de 1721, quando a Academia Real da História, enviava para as autoridades eclesiásticas do reino um detalhado questionário que pretendia ser a base para a criação de uma “História Eclesiástica e Secular de Portugal e suas Conquistas”.

Mas como de boas intensões….a referida obra nunca foi dada à estampa. Felizmente Luís Cardoso, padre pertencente aos oratorianos, ordem religiosa protegida do Marquês de Pombal como forma de substituir os Jesuítas, começa a compor a partir dos relatórios enviados, o “Diccionário Geographico”, o primeiro volume foi lançado em 1747 e o segundo em 1752.

Estavam então apenas contemplados os locais iniciados pelas letras A, B e C entre os quais a Covilhã. Mas o terramoto de 1755 veio destruir o material para os seguintes volumes. O Padre Luís Cardoso consegue então que o Marquês de Pombal ordene um novo interrogatório aos párocos do reino, nasceram assim as Memórias paroquiais de 1758.

Através da pergunta nº18 “Se há memória que floresceram ou dela saíram homens insignes por virtudes de letras ou armas?” ficámos a conhecer os nossos “heróis” locais.

Oliveira Durão, o pároco do meu Teixoso afirmava então: ”Há memória de que na guerra passada floresceram com armas os naturais deste povo, coronel brigadeiro Manuel Esteves Feio, Francisco Esteves Florido e o Coronel António da Costa. Mas quem eram estes Teixosenses?

Comecemos por falar hoje de Francisco Esteves Florido de quem Oliveira Durão esqueceu o Mendonça, seu último nome. Francisco Esteves Florido de Mendonça era um experimentado coronel de Infantaria que servira a Coroa Portuguesa em África em várias armadas. Em 1706 após a morte de Baltazar da Fonseca, governador da Praça de Alfaiates, é convidado a ocupar o lugar deixado vago. Alfaiates, por ser terra de fronteira, revestia-se na época de grande importância geo-estratégica. Tivera um papel crucial na guerra da Restauração (1640-1668). Nessa altura foi palco de sangrentas batalhas, sendo muitas das povoações vizinhas incendiadas e arrasadas. Entretanto a partir de 1701 e até 1714 aquela praça voltou a estar no centro de conflitos originados pela Guerra da Sucessão Espanhola em que Portugal, ao lado da Inglaterra, se digladiava com as tropas franco espanholas. É neste contexto que ocorre o fato, senão o mais heróico, o mais conhecido da carreira de Francisco Florido de Mendonça. Em 1709 estava grande parte das tropas de Alfaiates em Miranda, quando um contingente de 500 cavaleiros castelhanos cercou o alto de Sacaparte junto ao Convento Hospital da ordem dos Clérigos Agonizantes. O nosso governador não se intimidou, mandou formar batalhões com uma só linha, da tropa de éguas que estava de guarnição, pedindo ainda a todos os paisanos que tivessem cavalos para os montarem. Pelos baluartes e praça de Armas ecoou o som compassado das caixas de guerra. Também as mulheres quais animosas belonas (deusas da guerra), no dizer de Carvalho Baptista, reitor de Alfaiates, pegaram nas armas e “correndo valerosas, estavam prontas a dar a vida pela liberdade da pátria”. O inimigo retirou em direcção a Cidade Rodrigo. Mas dias depois voltaria com reforços de vistosa cavalaria que fazia parecer mais cinzentos os líquenes sobre os carrasqueiros da Rebolosa. Aí a artilharia, já regressada de Miranda e devidamente disposta por Francisco Florido de Mendonça impôs uma vergonhosa retirada aos invasores. Juntam-se a Alfaiates as tropas do Souto, Quadrazais, Malcata e Sabugal. O inimigo é perseguido desde a Aldeia da Ponte pela Mofeda, até junto de Fitouro de Castela, fazendo muitos prisioneiros. Nestes conflitos sobressaiu o Capitão de Couraças, João Rodrigues de Lima.

Francisco Florido de Mendonça ocupou a seu cargo com empenho e dedicação até 1721, data da sua morte. O rei compensou-o com cento e quarenta mil réis e com a atribuição do hábito de Cristo que viria a recair sobre seu filho, o Doutor Padre Francisco Esteves Amaral e Mendonça, morador em Penamacor.

 

Carlos Madaleno

- 24 mar, 2020
- Carlos Madaleno