Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 436

O TEMPO QUE AÍ VEM Voltar

O futuro é sempre um lugar de incertezas. Não o podemos adivinhar, apesar de tentarmos isso vezes sem conta ao longo do percurso da nossa vida. Porém, o tempo de excepção que estamos a viver indica-nos que o caminho próximo será muito difícil para quase todos. Ainda não saímos da crise pandémica e já está aí uma crise económica global que arrastará o mundo que conhecemos para um mar de dificuldades. As perspectivas negras que são desenhadas para o nosso futuro deixam-nos angustiados e preocupados com o que fazer nos amanhãs que virão carregados de obstáculos. Estes são tempos de um caminho de coração apertado. Olhamos para nós, para a nossas vidas suspensas, para o futuro dos nossos filhos, e não podemos deixar de soltar um suspiro de lamento pelas circunstâncias difíceis e complexas em que nos encontramos. Agora que estávamos quase a recuperar das crises anteriores acontece esta pandemia misturada com pandemónio que nos fez, de novo, andar para trás. Sentimo-nos injustiçados pelo tempo, parecendo-nos que a manta da esperança é sempre demasiado curta para os sonhos a que temos direito. Perante os cenários conhecidos e desconhecidos sabemos que o tempo que aí vem vai exigir o melhor de nós e das nossas capacidades. Não podemos ficar parados como a “nêspera” do poema de Mário Henrique Leiria “à espera do que acontece”. Se assim fizermos seremos “comidos” pelas circunstâncias. Sabemos que não podemos ficar parados à espera que as coisas aconteçam ou que alguém resolva os nossos problemas por nós. Mas, se todos aprendemos alguma coisa com esta pandemia, é da absoluta necessidade de fortalecermos mais as nossas comunidades locais, deixando menos variáveis à disposição da globalização. O tempo global é uma inevitabilidade que nos trará sempre coisas boas e más e, como tudo na vida, uma imensa aprendizagem. Por isso e tendo que conviver com esta realidade que veio há muito e para ficar, temos que nos adaptar ao tempo novo reforçando as nossas fortalezas sem deixarmos de abrir as portas ao mundo. Esta ideia é, aparentemente, contraditória mas, na verdade, ela é o caminho. Esta crise foi e é global. Porém contou com respostas diferenciadas ao nível nacional e local. E as populações sentiram essas diferenças. É talvez por aí que devemos reiniciar o nosso caminho neste tempo novo repleto de dificuldades e obstáculos que, ao mesmo tempo, representa uma boa oportunidade para nos reinventarmos e para colocarmos mais coração e inteligência nas nossas escolhas. Mais do que nunca precisamos uns dos outros. Precisamos de mais coesão nas nossas comunidades para criarmos um verdadeiro sentido de identidade, pertença e solidariedade. De um momento para o outro e apesar de todas as tecnologias ao nosso alcance, sentimo-nos como se devêssemos regressar ao lugar seguro que o grupo da caverna representava no tempo primitivo da nossa humanidade. Precisamos de nos sentir seguros, amados e com verdadeiro sentido de pertença das geografias em que vivemos. Quero, com isto, deixar-vos a ideia da absoluta necessidade de não deixarmos ninguém para trás na construção de um futuro onde todos fazem falta, os novos e os velhos e os mais e menos afortunados. Para isso temos que ser menos hipócritas e mais genuínos. Para erguermos as fortalezas que nos protegerão, precisamos de estimular uma nova mentalidade que valorize mais tudo o que está à nossa volta, as pessoas, os lugares e as coisas que fazem parte da nossa vida, e menos, muito menos, o que anda sempre longe da nossa realidade e que ainda assim veneramos para nada. O tempo que aí vem deseja-nos mais verdadeiros, mais disponíveis para a entreajuda e para a construção de cominhos comuns. Afinal, como sabemos, a nossa vida é tão frágil que pode ser levada, num ápice, por qualquer imponderável que nos roube os sonhos todos de uma só vez. Por isso, o tempo que aí vem também reclama de nós um outro caminhar, por natureza mais lento, mas também mais atento para permitir estender a mão a todos os que dela precisarem.

 

Fundão, 18 de Maio de 2020

Miguel Nascimento

- 19 mai, 2020
- Miguel Nascimento