Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 421

Estórias de um Arquivo Judicial: Francisco Pote, o moinante das éguas. Voltar

Um dia mataram um homem na serra da Rocha, e o Juiz de Fajão, que andava por ali à caça, viu quem o matou. Mas como esse homem andava de mal com certo indivíduo, puseram as culpas a esse com quem ele andava mal. No tribunal, as testemunhas juraram que tinha sido esse fulano o assassino. O Juiz de Fajão tinha visto, mas não podia ser ao mesmo tempo testemunha e juiz. Tinha de julgar conforme a prova testemunhal, mas também não queria condenar um inocente e deixar em liberdade o assassino. Então lavrou a seguinte sentença: Julgo que bem julgo, posto que bem mal julgado está! /Vi que não vi, morra que não morra!/dêem o nó na corda que não corra /Chés-bés; Maria põe palha” - Contos de Fajão - Recolha de Monsenhor Nunes Pereira - Edição do Museu Antropológico de Coimbra.

 

Fajão, Agosto 1866.

Serrana e fragosa aldeia, situada na província das Beiras. Já foi vila e sede de concelho, até 1855. Com foral dado, pelo Prior do Mosteiro de Folques. Aqui vivem cerca de mil almas. Os rochedos de Penalva e o cabeço da Mata impõem-se, o xisto domina. Nas noites nevadas os lobos uivam, no Picoto de Cebola. Lugar de passagem dos almocreves, que vindos da Beira Baixa, se dirigem ao litoral.

A estalagem do Manuel Francisco Adela, situada à saída do lugar, está bem afreguesada. A chuva que caiu de noite, engrossada pela trovoada, traz uma frescura pela encosta abaixo. Um cheiro lavado a carqueja e giesta. O José Fernandes Pote, o “Custodiozinho”, é hóspede vai para três dias. Rapaz bem encarado, folgazão. O negro langor dos seus olhos húmidos, amolece-lhes o coração. Pede para que se guarde a cavalgadura, uma bonita égua com cinco anos. De um castanho que reluz, com cabos pretos e uns pelos brancos na testa que seduzem. O Pote, desde que viu a consorte do estalajadeiro, deixou-se avassalar pela paixão. O Adela casara tarde com fêmea forte e dada. A Maria do Patrocínio, esbelta e farta moçoila, brilha na cozinha. Os candeeiros iluminam o jantar. Forte cheiro a azeite de Proença – a -Nova. O José Fernandes saboreia, regalado, uma galinha assada com umas lascas de presunto da salgadeira. Pitéu conhecido e elogiado, por tudo que é almocreve e viajante. Chasqueia a figura do Juiz do Fajão. Balelas!  Contos de serrano. 

O Regedor da freguesia, José d´Almeida, trazia-o debaixo de olho. Um homem desconhecido, sem ter nada que fazer! Suspeita dele. O José Pote andava a ser perseguido pela Justiça de Belmonte. Por roubos de cavalgaduras. Escolhe sempre as melhores. De grandes formas, cabelo bem aparado, de cor castanha. Tem-lhes um gosto especial. No coberto da noite e quando o galo se retira, mete-lhes a mão. As gentes da Capinha e arredores, conhecem-lhe a fama. Quando o vêm por ali, acautelam os seus gados. Recolhem-nos.

O regedor ordena aos cabos, que o levassem o preso. Marcham para a Vila da Pampilhosa. A égua fica à ordem do Norberto Jozé das Neves. O senhor administrador, Francisco Caetano das Neves, aperta com o réu. Um ratoneiro, já marcado, com o estigma da sentença do juiz da Lousã. Gemeu em ferro três anos, cumprindo a comutação de uma pena, que o condenara ao degredo para Moçambique. Safou-se pelo régio indulto.

O Pote cria a sua história. Defende-se. A culpa é do Zé Vicente do Tortosendo, homem que não conhecia. Picado de bexigas, trajava calça e jaqueta de saragoça e colete de pano fino azul. Montava um cavalo preto, alto e aparelhado de albardão. Oferece-lhe duzentos reis diários, para levar a égua até à ex-vila do Fajão.

O juiz ordinário das terras de Cabral, José Alves Baltasar, oficia ao administrador da Pampilhosa. Solicita o réu, para o levar a julgamento. A Justiça de Belmonte não o sabe arrecadar. Arromba as portas da enxovia e põe-se a milhas. É preso na Covilhã, na taberna do Viriato. A égua, de valor superior a vinte mil réis, pertence ao Lourenço Esteves Pinheiro, do Monte do Bispo. Calcorreou por diferentes povoações, indo à da Pampilhosa. Ali encontrou a sua égua, posta em depósito judicial, e o ladrão grades adentro. Um homem de “má nota” e costumes. O Reverendo Domingos António d´Oliveira, pároco no Escarigo, confirma. Por momentos, esquece os mandamentos da Santa Igreja. – “Qual Justiça, qual carapuça! Só a pau de marmeleiro, ferrado!”

O José Fernandes Pote, filho “doutro trabalhador”, nascido nos Quadrazais, acha-se incurso nas penas do artigo 191.º. Agravado pela fuga da cadeia. Apanha cinco anos de degredo, para as costas da África Ocidental. Para longe das suas adoradas éguas!

 

- 22 mai, 2020
- José Avelino Gonçalves