Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 421

Dos feiticeiros da política ao Harry Potter do futebol Voltar

 

Em finais do século XIX o futebol ganhava expressão popular em solo britânico. Por esta altura, a coroa portuguesa Portugal definhava por conta das humilhações do Ultimato Inglês e modalidade era definida como o “"jogo do coice" dos ingleses.       

            Deste então o paradigma mudou. O futebol ganhou uma importância social à escala global. O jogo democratizou e transformou-se numa indústria. Assistimos à entrada da ciência para potenciar a performance desportiva e à elevação dos seus atores ao estrelato. Neste momento ninguém pode negar que um tweet do Cristiano Ronaldo tem um impacto superior ao de muitos chefes de Estado.

Este fenómeno foi cultivado pelo poder político que, desde muito cedo, soube colar-se à modalidade. Mussolini, Franco e Salazar, por exemplo, aproveitaram a sua simplicidade para veicular mensagens nacionalistas à boleia das vitórias internacionais das suas equipas.

No último quarto de século temos assistido, a um paradoxo: a diabolização do ícone desportivo. Jean Marie Le Pen, o histórico da extrema-direita francesa que defendeu uma “França para os franceses” soube cavalgar para uma surpreendente segunda volta nas presidências após o fracasso da seleção francesa no Mundial de 2002, a qual que considerou de pouco “nativa”.

Em Portugal desconhecia-se esta prática. Os jogadores eram, até há bem pouco tempo, vistos como heróis. Pouco importava se eram brancos, negros ou mestiços, se tinham nascido em solo luso ou “importados” de uma Guiné já independente. Desde que a bola entre na baliza contrária, é sempre um dos nossos…quão extraordinário foi o golo do Éder!!!!

            De facto, tirando pequenas exceções, os jogadores ligados ao futebol português têm sido exemplos. As intervenções públicas coadunam-se com a sua responsabilidade. Só este ano souberam dizem não ao racismo e sim à saúde pública. Pelo meio tiveram de enfrentar vozes que, à conta do negócio, preferiram entoar discretamente show must go on dos Queen! Apesar disso, mantiveram a sua posição contra treinadores, dirigentes e operadores publicitários e televisivos. Abandonaram os campos de futebol conscientes que não são “macacos” ou palhaços para entreter um povo que se preparava para o confinamento. Aliás foram os primeiros a suspender as atividades em Portugal, dando um exemplo ao poder político. Defendendo-se, com prejuízos pessoais financeiros que isso acarretou, defenderam a saúde de todos. Apenas adotaram um comportamento condizente com os valores e os princípios associados à Ética no Desporto, mostrando que não vale tudo.

Acontece que aqueles que outrora festejaram os seus golos e que ganharam publicidade à conta do futebol defendem, agora, que “quem nos representa deve (..) evitar rejeitar um partido ou uma pessoa”. É caso para nos questionarmos qual será conceito de liberdade para quem vive na e da democracia como é o caso do autor desta frase. Um jogador é um ser social, dotado de razão que, como defendeu Rousseau, nasceu “livre e senhor da sua própria vontade”. Ora, adaptando uma citação deste iluminista do século XVIII, decidir que por se ser atleta e representar a seleção nacional está impedido de tomar uma posição política é decidir que ele não é homem.

- 19 mai, 2020
- Sérgio Mendes