Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 431

A Cultura resiste no Interior Voltar

CULTURA. Devido à pandemia de Covid-19 a cultura foi um dos setores mais atingidos. As instituições culturais da região lutam para continuar a oferecer conteúdos artísticos ao público

Passaram meses desde que a pandemia mudou a vida de todos de forma drástica. No início de março, começaram a ser adiados ou cancelados espetáculos na sequência de medidas de contingência impostas pela Direção Geral de Saúde, com o objetivo de tentar travar a propagação do vírus. 

O Sindicado dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE) promoveu, no início do mês de junho, a manifestação nacional «Parados. Nunca calados», como forma de protesto para a luta pela valorização e maior financiamento para a cultura.

Segundo um inquérito promovido pela CENA-STE no início de abril, 98% dos trabalhadores de espetáculos viram trabalhos cancelados, dos quais um terço por mais de 30 dias. Através do inquérito, o CENA-STE conclui que existe “um setor precário, empobrecido e indefeso, um setor que carece há muito tempo de um enquadramento legislativo adequado, que tenha em conta as suas características”.

“Um país sem cultura é um país sem educação, sem identidade, sem expressão”

Eduardo Cavaco, presidente da direção da Banda da Covilhã, considera que “o setor cultural atravessa uma grave crise, como toda a economia portuguesa, e que exige um plano de medidas robusto a todos os níveis”. 

“A Cultura na região é resiliente, lutadora e não desiste”, explica Eduardo Cavaco, já que mesmo em fase de confinamento houve por parte da Banda da Covilhã, atuações nas janelas e varandas, concertos e gravações online, participação em fóruns e oficinas online, sardinhas take-away para celebrar os Santos onde “foi preciso haver uma boa dose de criatividade e inovação para que a atividade dentro das normas de segurança nunca parasse”.

Sílvia Pinto Ferreira, membro da equipa artística da Quarta Parede – Associação de Artes Performativas da Covilhã, explica que para o grupo, a fase de desconfinamento está a ser um período de particular reforço e atenção já que o estado de emergência foi dedicado “a tarefas internas onde procurámos traçar um plano para o reinício da atividade, sempre em consonância com os pareceres das autoridades de saúde e do governo. Tal obrigou-nos a pensar a atividade sob outros prismas, como por exemplo, a possibilidade de realizar ações na rua que até então só nos pareciam possíveis de acontecer em espaços de interior”.
A fase de desconfinamento para a Quarta Parede foi marcada pelo recomeço do Veleda, no início de junho, um projeto artístico-social de envolvência comunitária promovido pela Beira Serra.

As sessões do Veleda estão a ser realizadas em espaços verdes do concelho da Covilhã e do Fundão que permitem distanciamento físico entre participantes.

“O contexto de pandemia que nos assola deixou a descoberto e agudizou situações de precaridade laboral que já existiam antes, tanto na cultura como nas artes”, explica Sílvia Pinto Ferreira, “a vulnerabilidade dos trabalhadores da Cultura deve-se em grande medida à suborçamentação do Ministério da Cultura, mas também à ausência de uma política cultural concertada, dirigida às diversas áreas do sector e às disparidades territoriais”.

Rui Pires, membro da ASTA – Associação de Teatro e Outras Artes, considera que é inconcebível que a classe cultural esteja a passar fome, sem ajudas porque “os profissionais da cultura ficaram impossibilitados de trabalhar, e não houve até agora, qualquer tipo de apoio. À parte disso, o apoio às companhias e artistas contemplado pelo Orçamento de Estado é diminuto, sendo assim urgente aumentar as verbas para a cultura”.

“A Cultura na região é resiliente, lutadora e não desiste”

Para estas associações culturais a fase de desconfinamento está a ser retomada de forma vagarosa mas com empenho e dedicação, pois “tudo o que se faça em termos culturais no interior, é sempre pouco, quando comparado com os grandes centros urbanos, sobretudo dos localizados junto ao litoral”, afirma Rui Pires, “estamos numa das regiões mais envelhecidas do país, a desertificação do interior é alarmante, é preciso apostar nas estruturas e nos jovens que resistem e trabalham a cultura no interior”.

Eduardo Cavaco declara que na Covilhã não existe uma sala de espetáculos para “fazer e dar o melhor às nossas gentes porque o ambiente e os espaços também podem ser inspiradores”.

Já Silvia Pinto Ferreira considera que há na Beira Interior um esforço de valorização e disponibilização de recursos, nos diversos equipamentos culturais já existentes e em construção, contudo, “existirem espaços com condições para a atividade artística reflete reconhecimento da sua importância e favorece a formação de públicos e a fixação de trabalhadores desta área”. 

Há um longo caminho a percorrer, a valorização e aposta na cultura sobrevive da existência de recursos humanos com formação especifica e experiência nas diversas áreas culturais, “as várias estruturas artísticas independentes com atividade sustentada e regular na região contribuem grandemente para o necessário desenvolvimento e reconhecimento do papel da Cultura e das Artes em territórios de baixa densidade como o nosso”, explica Sílvia.

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, comprometeu-se a ter o estatuto de intermitência para o setor cultura, até ao final do ano. Em declarações recorda que “ainda em fevereiro o Governo já estava a trabalhar para a questão das condições laborais – estatuto de intermitência – e das carreiras contributivas dos profissionais das artes e do espetáculo”.

Num comunicado divulgado, o CENA-STE desenvolveu e apresentou ao Ministério da Cultura “um caderno de medidas que procuram responder aos problemas urgentes, mas também a problemas antigos, que tardam em ser resolvidos”.

 

- 30 jun, 2020
- Helena Esteves