Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 436

Estabilidade Emocional: Quarentena e depois? Voltar

Passados alguns meses, COVID, pandemia, confinamento, distanciamento, continuam a ser vocábulos frequentes nas conversas do dia-a-dia. Contudo, devemos observar este contexto com uma particularidade, para além das preocupações já muitas vezes inumeradas outras se apresentam e começam a tornar-se visíveis.

Esta situação veio colocar-nos perante grandes desafios sociais que estão a ter impacto, direto ou indireto, em diversas áreas (saúde, pessoal, profissional, económica e social) e com repercussões que poderão ser graves e duradouras. A obrigação a confinamento e isolamento social provoca, inevitavelmente, inúmeros efeitos negativos. Primeiramente surge-nos a preocupação com a saúde física mas a saúde mental não pode, e não deve, ser preterida e enviada para segundo plano.

Pessoas socialmente isoladas tendem a desenvolver estados de ansiedades mais frequentes, apresentam maior dificuldade em lidar com situações de stress, podendo estes fatores motivar o aparecimento de vários problemas relacionados com o sono e com a alimentação, e facilitar o desenvolvimento de patologia depressiva.

Se por um lado a sociabilidade dos jovens com o grupo de pares, na qual ocorre uma partilha de valores e representações coletivas, constitui uma base fundamental do desenvolvimento pessoal e de bem-estar, que contribui para o equilíbrio emocional; por outro lado, a não solidão, e a necessidade de afeto sentido e transmitido pelos mais idosos são, sem dúvida, um marcador muito relevante para a manutenção da saúde mental, emocional e qualidade de vida.

Não há dúvida que relações interpessoais, resultantes da socialização, vividas de forma livre, positiva, partilhada e segura, com significado e orientação coletiva, influenciam a homeostasia e os resultados obtidos em saúde.

Foi possível perceber durante o período de confinamento que a mudança radical do estilo de vida provocou aparecimento de comportamentos positivos, tais como, o aumento da atividade física e de muitas outras formas criativas de combate ao isolamento. Por outro lado, as situações de stress e ansiedade foram demasiadas, tendo por vezes bloqueado a capacidade de resiliência.

Quem não sentiu um aperto no coração por não poder visitar os familiares mais próximos?

Quem não sentiu tristeza por não poder dar aquele beijo e abraço reconfortante aos seus entes mais queridos?

Quem não sentiu angústia por não poder sair de casa e conviver com os amigos?

Quem não sentiu ansiedade ao ver os filhos sob a pressão do ensino à distância?

Quem não se sentiu apreensivo por ter de acompanhar o trabalho letivos dos filhos tendo de deixar as suas próprias tarefas para segundo plano?

Quem não sentiu frustração por não poder fazer planos e realizar objetivos?

Quem não? Tristeza, angustia, ansiedade, apreensão, frustração e tantas outras respostas emocionais negativas passaram a ser recorrentes e a fazer parte das situações da vida diária.

Atualmente vemos as medidas de restrição atenuadas, mas será que essa alteração na rotina solucionou os problemas resultantes da vivência em confinamento?

De volta à atividade profissional e à nova realidade, ao novo normal, tenho percebido que muitos ainda mantêm o distanciamento, não o recomendado pelas autoridades de saúde, mas o imposto pela sua condição emocional. O risco e o medo de contágio do vírus está presente, mas a realidade que diz respeito à saúde mental e emocional não pode ser ignorada nem considerada menos importante do que as problemáticas derivadas da saúde física. É de senso comum que a saúde física e mental se influenciam mutuamente e portanto é necessário cuidar de ambas afincadamente.

Estamos perante um cenário sem precedentes sobre o qual é fundamental e urgente agir. É necessário perceber a dimensão e a gravidade dos problemas de saúde mental e emocional, e disponibilizar meios e recursos de apoio. Possibilitar o acesso à intervenção psicológica e apostar grandemente na prevenção, planos e estratégias de resiliência e coping, e na psicoeducação.

Agora, mais do que nunca, é tempo de reconhecer a importância dos Psicólogos nos vários contextos de atuação e de garantir o acesso aos seus serviços a toda a população. Quanto mais rapidamente se acionarem os mecanismos adequados, com a finalidade de minimizar as consequências negativas provocados pela pandemia, maior beneficio teremos na condição da saúde mental dos Portugueses.

 

Marta Duarte

Psicóloga Clínica e da Saúde

 

 

- 04 ago, 2020
- Marta Duarte