Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 441

Webinar em nota a meio-tom: Sociedade, Escola e Consciliência Voltar

«Os homens nasceram uns dos outros; educai-os ou suportai-os.»

 

Afirmação de Marco Aurélio, imperador romano, séc. II d.C., sussurrada e pensada por muitos cidadãos, hoje, em voz baixa. A diferença é só: o contexto histórico. A intenção que o preocupa: a educação do ser humano e não a sua suportação. Nesta convivência “educai-os / suportai-os”, aponta a diferença: um poder invisível que não permite ao ser humano viver segundo os princípios que regem uma boa educação. Só renunciando, a algumas solicitações desviantes, é que poderá aproximar-se de um desenvolvimento educativo mais pleno. Isto é, uma cidadania mais autónoma e cívica.

Vive-se num estado de empanturramento mental. Ora, no contexto enviesado em que vivemos este olhar tem razão de ser. Dado ter-se a impressão, de que a relação Sociedade/Escola, no que concerne à cidadania, já teve melhores dias. É como se existisse um sintoma anómalo que vigia o agir e insiste em contraditar todo um processo de aquisição de conhecimentos, habilidades, competências, valores, crenças, bons hábitos e civismo pelo facto do seu domínio ser de uma outra dimensão. Há como que uma subversão, silenciosa, da autonomia que a Escola, com maior ou menor dificuldade, ainda procura incutir.

A luta é titânica. A importância do supérfluo, dos gadgets, do Kitsch, do imediato e de outras autoilusões, têm momentos que parecem estar a ganhar terreno ao subtrair do cidadão o melhor que possui: autonomia e capacidade de pensar. Isto é, desassombra-o, cria-lhe um mundo sem miolo, coloca-o em guerra interior, na obtenção do vazio, e, em simultâneo, dá-lhe de bandeja uma paz efémera, uma canga plena de servidão, um incentivo a reger-se pela primazia dos bens sem utilidade, constrangendo-o a não pensar. Isto é, desabita-lhe a alma, vigia-o e pune-o sob a ditadura da imagem alimentada pelo observatório de uma certa desmioleira social.

A Escola não suporta isto. Porque não deve ter medo de pensar. Ela forma, em primeiro lugar, para um desenvolvimento pessoal e social, cidadãos para exercerem uma plena autonomia e dar um elevado contributo para a melhoria do que é ser-se mais humano: “ que homem é o homem que não torna o mundo melhor?” Onde quer que seja a comunidade em que se encontre inserido, o cidadão deve ter a capacidade de se relacionar, indignar, questionar, protestar, aprovar, aplaudir, construir/ aperfeiçoar, ter um comportamento cívico e melhorar o mundo. Ao criar, esta consciência, para ação de valores positivos, ela desenvolve nos alunos um desassombramento mais autêntico e responsável.

Este paradoxo (Sociedade/Escola) terá que ser ultrapassado. Para isso, os progenitores terão que assumir a sua quota-parte no processo educativo. Como diz o mandamento: “ quem dá o pão tem que dar educação”. Às vezes é esquecido, por alguns progenitores, dando a impressão que projetam os filhos para a Escola segundo o: “tomai, suportai-os e educai-os”. Numa atitude de irresponsável consciência formativa. Muitas vezes tudo é permitido, a troco de uns cobres, desde que as notas sejam excelentes. Degradando-se, assim, em alguns casos, no silencioso estado de inveja e de menoridade mental onde “o meu é melhor do que o teu/outro”. Esquecendo que uma boa formação deve ser feita com regras e valores extremamente positivos e não de bacoquices que não acrescentam nada de positivo à inteligência humana. Logo, uma boa educação pessoal transporta uma atitude para a vida mais confiante, conscienciosa, cívica e humanizadora.

Ora, para sobrevivermos ao paradoxo, Escola/Sociedade, o evolucionista E. O. Wilson remete-nos para o conceito de consciliência[1]. Quer dizer que as ideias, imagens, esperanças, suplicas, aprendizagens (in)diretas, devaneios, saberes acerca do nosso universo que se apresentam à mente humana se venham a encaixar não só no nosso universo pessoal como também num horizonte englobante que ouse abarcar todos os nossos olhares/pensares, ao longo do eterno tempo histórico, todas as nossas artes e ciências, todas as nossas experiências, todos os nossos sentimentos mais íntimos, incluindo a esperança, terror, curiosidade, pragmatismo e puro sentido lúdico que nos leve a dirigir o olhar para um horizonte em que possamos ser mais humanizadores.

Posto isto, em apontamento de meio-tom, a Educação/Escola, por conseguinte, é um motor de transformação positiva, um pólo dinamizador para com os seus frequentadores. Em relação ao futuro, ela, persiste, eternamente, na formação de uma consciência crítica que respeite a diferença; cultural, social e política. Assim como numa formação mais humana, onde o livre-arbítrio, de cada cidadão, ouse ser mais nobre, fascinante e conforme as regras da boa conduta humanizadora e não num “vazio da alma” onde o princípio é suportarmo-nos, horrorosa e sorridentemente, uns aos outros.

“ Que homem é o homem que não torna o mundo melhor?”

 

Carlos M. B. Geraldes (Ph. Dr.)

 

 

 

 

[1] Edward O. Wilson, A Unidade do Conhecimento Consciliência, Editora Campus, 1999

- 22 set, 2020
- Carlos M. B. Geraldes