Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 427

“Claro que o valor da dívida do CHUCB é grave” Voltar

SAÚDE. O Centro Hospitalar Universitário da Cova da Beira celebrou na sexta-feira, dia 17, o 20º aniversário. Em entrevista ao Jornal Fórum Covilhã, o presidente do Conselho de Administração desta unidade de saúde, abordou os projetos em curso, nomeadamente a Medicina Nuclear, no hospital Fundão, e a Unidade de Cardiologia de Intervenção, no hospital Pêro da Covilhã. João Casteleiro falou ainda sobre as listas de espera existentes em consultas e cirurgias, da dificuldade em contratar médicos especialistas, criticou o “centralismo de Coimbra” e defendeu a correção do orçamento para o CHUCB pela vertente formativa que tem associada

Jornal Fórum Covilhã (JFC) – O Centro Hospitalar Universitário da Cova da Beira (CHUCB) celebrou na sexta-feira, dia 17, o 20º aniversário. Esta é uma data propícia para fazer um balanço do trabalho desenvolvido e projetar o futuro. Que projetos pretende o CHUCB concretizar a curto-prazo?

João Casteleiro (JC) – Pelo trabalho desenvolvido ao longo dos anos podemos ter orgulho nesta instituição. Retrospetivamente, sinto que há uma diferença enorme. Nos serviços de saúde, o interior do país pode ombrear em muitos aspetos com o litoral, principalmente na qualidade dos serviços que são prestados. Já em relação ao futuro encaro-o com otimismo, acredito que podemos prestar melhores cuidados de saúde à população, mas depende dos condicionalismos que viermos ou não a ter.

JFC – Mas como está a execução de projetos como a Unidade de Cardiologia de Intervenção, no Hospital Pêro da Covilhã, e a Medicina Nuclear, no Hospital do Fundão? De assinalar que o ex-ministro da Saúde anunciou que o projeto da cardiologia de intervenção deveria estar concluído no verão de 2018, mas daqui a pouco passaram dois anos.

JC – O projeto da Medicina Nuclear começou a ser desenvolvido há 20 anos. Apresentei o primeiro projeto na Administração Regional de Saúde (ARS) e ao secretário de Estado, no ano de 2000, para ficar sediado na Covilhã. Mais tarde foi retomado, e agora, com a ajuda da Câmara Municipal do Fundão, que vai fazer obras e comprar equipamento, podemos pensar neste projeto como uma realidade. Os concursos estão a ser realizados, mas demoram muito tempo. Há prazos e legislação a cumprir. Não posso dizer que será daqui a um mês, mas posso apontar uma delimitação de tempo de um ano, em que acredito que o projeto possa estar concluído e a funcionar. Também já existe uma afiliação entre nós e o Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC) para que o pessoal médico, de enfermagem e técnicos possa ser o do CHUC, no início do projeto e também para que seja ministrada formação a profissionais para ficarem cá. Quanto à cardiologia de intervenção, o prazo inicilamente avançado, era inviável. Este projeto implica a realização de obras, compra de equipamentos e formação de profissionais, nomeadamente cardiologistas e enfermeiros para essa área. Estão a ser percorridos todos estes passos. Temos de ir buscar profissionais a vários lados do país e com acompanhamento da ARS e do ministério e com o parecer do Tribunal de Contas. São processos morosos. Não esperava que fosse tão moroso, nem o ministro pensou que a concretização do projeto pudesse demorar tanto tempo.

JFC – Mas quando pode estar concluído o projeto da Unidade de Cardiologia de Intervenção?

JC – Não posso avançar uma data, não estaria a ser honesto. Posso garantir a vontade que temos de concretizar o projeto. No entanto, este não é um projeto só nosso. O projeto da cardiologia de intervenção é para cumprir as determinações em termos de saúde. Tem de haver nesta zona uma unidade destas, sendo que esta é uma «zona sombra» que existe no país e onde ficamos mais longe de uma intervenção direta sobre uma determinada doença ou patologia. Uma pessoa que tenha um enfarte nesta região não tem as mesmas possibilidades de ser socorrida, comparativamente a uma pessoa que está em Lisboa, em Coimbra ou até em Viseu. O projeto está a ser concretizado e será uma realidade.

JFC – Temos conhecimento de tempos de espera em consultas superiores a dois anos, nomeadamente oftalmologia e otorrinolaringologia. Quais os motivos que estão a causar este problema?

JC – Tínhamos dois oftalmologistas. Um aposentou-se e, neste momento, temos apenas um profissional dessa área na nossa instituição. Esse oftalmologista faz mais de 3000 consultas por ano. É um profissional que trabalha desunhadamente, que faz muito mais do que aquilo que era possível exigir, mas que tem uma generosidade incrível para trabalhar muito.

JFC – Mas cabe ao CHUCB resolver este problema, com a contratação de mais profissionais para essa área?

JC – Claro que temos obrigação de resolver este problema e sinto-me mal quando sou confrontado com ele. Não posso ficar insensível, quando uma pessoa tem uma catarata, não consegue ver e tenha que esperar pela operação. Há duas ou três áreas em que as consultas têm tempos de espera muito elevados em todo o país, nomeadamente oftalmologia, otorrinolaringologia e dermatologia. No entanto, somos dos hospitais onde mais facilmente conseguimos sensibilizar os profissionais para a resolução das listas de espera, e dificilmente, há listas de espera mais pequenas do que as do CHUCB nestas áreas. Nesta semana já falei com um oftalmologista que virá cá fazer algumas consultas para aumentar o número de consultas realizadas. Tudo o que são situações de urgência ou prioritárias têm atenção especial e esses casos são resolvidos em primeiro lugar.

JFC – E quanto à lista de espera nas cirurgias?

JC – Também somos um dos hospitais que resolvemos melhor a lista de espera nas cirurgias. Hoje fala-se muito nos vales cirúrgicos e há até responsáveis na área da saúde a falar nesses vales, sendo essa uma forma de incentivar a medicina privada. Somos uma medicina pública e ao não nos darem tempo para operarmos um doente que pode esperar, em que não está em causa a sua vida, obrigam-nos a enviá-lo para o privado. Discordo como diretor do hospital, como médico e como pessoa. A instituição que presido vai ter que pagar essa intervenção, quando não nos deram tempo para a realizar.

JFC – Esse problema está associado com a falta de médicos especialistas, que é um problema transversal a todas as instituições hospitalares localizadas no interior do país. Há vários anos que se discute o problema da falta de médicos  nesta região e começaram-se a criar incentivos, mas a verdade é que sem grandes resultados. O que está a inviabilizar a resolução do problema?

JC – Há diversos pontos que é preciso esclarecer nesta questão. Quando se diz que os apoios para a contratação de médicos começaram há vários anos, é preciso recordar que houve um ministro afirmar que havia médicos a mais em Portugal. Um médico quando acaba o curso, entra na sua especialidade e vai demorar entre quatro a seis anos a concluí-la, sendo que todas as especialidades cirúrgicas demoram seis anos. A pessoa quando acaba essa especialidade tem entre 26 e 30 anos e nessa idade pode já ter constituído família, já tem uma fixação e não está propícia à mudança. Têm que ser convencidos a mudar, porque o mais lógico é a pessoa ficar no hospital onde fez a especialidade.

JFC – Mas também há médicos que se formam e fazem aqui a especialidade?

JC – Uma das perspetivas da Faculdade de Ciências da Saúde era a de conseguir fixar mais médicos na região. Dessa forma, podíamos dar a conhecer antecipadamente a zona. Já conseguimos resultados e muitos médicos ficam na região por aqui terem estudado. Até cá temos médicos madrilenos que vieram fazer os seus estágios no CHUCB. Se vêm de Madrid para aqui é porque alguém lhes disse que este hospital tinha qualidade.

JFC – Mas será preciso criar uma normativa que «obrigue» os médicos recém-formados a exercer no Serviço Nacional de Saúde durante os primeiros anos e a serem colocados nas instituições por concurso?

JC – Poderia ser uma solução e com a qual estaria de acordo, mas essa hipótese não é um dogma, nem se quer seria inédita. Macau já pagou a médicos para fazerem a especialidade, mas depois tinham que voltar para Macau. Faziam a formação e a especialização em Portugal e depois eram obrigados a voltar para Macau, durante vários anos. Se quisessem sair, tinham de pagar uma soma que era desincentivadora. Atualmente, acontece que muitas pessoas a quem demos a possibilidade de fazerem a especialidade em Lisboa, Porto e Coimbra, dizem que não querem vir para o CHUCB e pagam um valor irrisório. Não são obrigados a vir, o que está incorreto. Há quem conteste isto, argumentando que a especialidade é paga pelo público, mas que os médicos também trabalham. É verdade, mas quem está aproveitar é o privado. Desta forma, considero que o privado devia pagar ao público pela transferência daquele médico.

JFC – A reorganização de serviços nas unidades hospitalares foi há alguns anos por diversas vezes equacionada. Hoje, esse tema está fora da agenda?

JC – Se na causa da reorganização de serviços estiver apenas um desígnio economicista, para mim, não faz qualquer sentido que seja concretizada. Também não considero que haja qualquer sentido em notícias de jornais, como «IPO de Lisboa tem um prejuízo de determinado valor». O que é isso? Mas querem que tratemos os doentes ou não?

JFC – Mas teme que essa questão da agregação de valências possa voltar a ser colocada na agenda, quando, por exemplo, as três maternidades da Beira Interior registaram apenas 1350 nascimentos, no último ano?

JC – Em todos os distritos do interior, à exceção de Bragança, a natalidade diminuiu. Havia estudos que apontavam para o crescimento da natalidade, no período a seguir à troika. Houve um aumento da capacidade financeira das famílias e uma diminuição do desemprego, fator considerado com mais influência para a baixa taxa de natalidade. No entanto, na zona interior do país, este ano houve um decréscimo da natalidade. Acredito que a redução do número de nascimentos seja temporária e possa ainda ser um reflexo dos anos da crise económica. Há também um fator que é difícil de reverter: Hoje a população é mais idosa, logo a natalidade também diminui. Sou um defensor do acolhimento de migrantes e que nos podem vir ajudar muito na reversão da baixa taxa de natalidade. É também necessário criarmos condições para as pessoas se fixarem na região. Ter boas estruturas de ensino, serviços de saúde de excelência, atividade cultural e espaços de lazer. Não é com menos investimento e com agregação de valências que vamos resolver os problemas. Tem de se investir mais no interior. Temos de ser todos mais reivindicativos nos direitos.

JFC – Falta esse peso político à região?

JC – É importante que exista, mas não é só o peso político que importa. Sabemos que há zonas com maior poder, seja pelo número de pessoas que nelas habitam, seja pela sua dimensão, outras vezes, até pela proximidade pessoal que possa existir. Jamais deixarei de reivindicar e de me calar para com os direitos que tem esta população.

JFC – Como se encontra o CHUCB a nível financeiro?

JC – Como a maioria dos hospitais. Todos nos queixamos de subfinanciamento.

JFC – Está subfinanciado o CHUCB?

JC – O orçamento que nos é atribuído não chega para o valor que gastamos, por isso, é que há dívidas. Sabemos que um grande hospital em Lisboa tem mais facilidade em comprar equipamentos a um custo mais reduzido, do que nós que estamos a 300 quilómetros da capital. Se um TAC avariar no CHUCB, a sua reparação terá um custo necessariamente superior à requalificação do mesmo equipamento num hospital da capital. Não estou a criticar o centralismo de Lisboa, mas deve haver maior equilíbrio. Além de Lisboa, há mais duas ou três cidades que capitalizam o facto de serem contra Lisboa. O Porto está sempre a criticar o centralismo de Lisboa, mas depois, o Porto faz centralismo, comparativamente a outras cidades. O que me importa é que as pessoas que tenham capacidade de decisão, sejam honestas.

JFC – E na Região Centro há centralismo de Coimbra?

JC – Sim, na Região Centro há centralismo de Coimbra, obviamente. Há uma cultura que motiva esse centralismo. Repare-se nas publicações que saem das estruturas da Zona Centro. Vou dar um exemplo flagrante: Tivemos um concurso, onde duas irmãs gémeas naturais da Covilhã, médicas especialistas de uma área e que só ficariam no CHUCB, se abrissem duas vagas. O que é que aconteceu? Abriram duas vagas em Coimbra, uma na Covilhã e outra em Castelo Branco. Coerência era terem a coragem de abrir duas vagas no CHUCB, sabendo que estas eram as condições das duas especialistas.

JFC – Esse centralismo tem atrasado a concretização dos projetos, como a Medicina Nuclear e a Unidade de Cardiologia de Intervenção?

JC – Não. Em relação aos projetos não houve qualquer impedimento de Coimbra, pelo contrário. Neste caso, tem de se fazer justiça. Coimbra tem-nos acompanhado e dado a sua colaboração. A rede local de cuidados continuados, com os projetos da Santa Casa da Misericórdia do Fundão e da Santa Casa da Misericórdia da Covilhã, também tem contado com a colaboração de Coimbra.

JFC – Qual o valor da dívida do CHUCB?

JC – Não lhe sei dizer em concreto.

JFC – Então é grave?

JC – É, claro que é. As nossas necessidades são sempre maiores que o orçamento que temos. O nosso orçamento é atribuído em função do trabalho realizado, enquanto, por exemplo, a ULS da Guarda e de Castelo Branco recebem em função da população. Há algumas componentes que temos, comparativamente a outros hospitais, que são de diferenciação, nomeadamente a área do ensino. Temos 500 alunos de medicina, 400 alunos de enfermagem e 150 alunos de outras técnicas de saúde que todos os anos aqui fazem formação. Isto implica investimento e tempo dos profissionais que os estão a ensinar. Há um conjunto de componentes que não estão contemplados no nosso orçamento. Mas podemos dizer com orgulho que este é um hospital diferenciador nesse aspeto. Temos aqui a área de quimioterapia em que gastamos mesmo muito dinheiro - se por uma questão de poupança estes doentes fossem tratados em Coimbra - gastaríamos muito menos dinheiro. Tratamos aqui de doenças que implicam muito gasto, mas não podemos abdicar de tratar esses doentes, pois não temos proximidade face a outros hospitais.

JFC – Espera que o Governo corrija essa situação do subfinanciamento do CHUCB?

JC – Espero que sim. De salientar a intervenção do deputado, Nuno Fazenda, que inquiriu a ministra da Saúde sobre o investimento na área da saúde e, em particular, do CHUCB. A responsável da tutela avançou que neste mandato iria ser realizado mais investimento na saúde e espero que a vertente do ensino que desenvolvemos seja compensada, por isso, é que somos um hospital universitário.

- 21 jan, 2020
- Ricardo Tavares