Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 409

O Arquivo do Tribunal da Covilhã: O Don Juan do Tortosendo – 2.ª parte. Voltar

Amam-se. Com promessa de casamento.

Durante dois longos e saborosos anos. Ao tempo menor de 18 anos e mulher virgem. A paisagem rural è “magnifique”. A quinta da Serraboula explode de flores. A primavera está no seu auge. A Maria da Purificação engravida.

A família da amada é poderosa. Gente com dinheiro. Nas barracas da feira de S. Miguel foi ameaçado. Por um grupo de arruaceiros. A mando do pai. Mostram-lhe um revolver.

A última carta. Seis folhas, escritas no Fundão. Letra bonita, “petite”, do tamanho do coração, sofrido.

“Tornado um paria da vida, sem luz que me ilumine, sem esperança, sem alegrias que me confortem!  Perdi-me Flávia! Perdi-me para o mundo, do qual vivo completamente alhiado! Mas não te imputo a menor culpa, nem te recrimino”.

A paixão dava um romance. Falam em dar alguns apontamentos  a um escritor do Porto. “Não! O que eu pensei, e consultei sobre o caso alguns amigos, foi escrever a António de Campos Junior, auctor do Luiz de Camões, para ir passar 3 ou 4 dias à nossa pátria, onde eu lhe forneceria elementos para um romance superior ao Paulo e Virginia e outros (…).

Toma a resolução. De encerrar “…toda a nossa correspondência, flores e recordações, n´uma pequena mala, onde ninguém agora pode fixar a vista”.

Pensa seguir para a América do Sul. Um amigo arranja-lhe colocação em Montevideu ou Buenos Aires.

Os jornais “O Tortosendo” e a “Industria” escrevem. A Justiça persegue-o. A paixão vai-se, como o nevoeiro, numa manhã quente e fofa de primavera.

Defende-se. Trocara correspondência meramente literária, de fantasia. Para realização de vinganças mesquinhas atiram com a honra de uma filha para o público e para os tribunais. A ofendida é uma mulher inteligente. Exprime-se com uma correcção literária nada vulgar. Conhecedora de todos os segredos da vida sexual. Muito voluntariosa sabendo atrair com a sua palavra quente.

Querem fazê-lo entrar numa cadeia. Contra ele começaram a arquitetar um processo de volumoso e recheado ventre. Mas sem pés nem cabeça. Os advogados pedem escusa. Não aturam as manias do Mineiro.

Os adiamentos sucedem-se. O amigo, bacharel formado em Medicina e Cirurgia pela Universidade de Coimbra, atesta. “Sendo agora oito da noite, fui chamado com urgência para tratarmos o senhor Pereira Mineiro. Não pode ser perseguido pela Justiça”.

Tenta ser julgado pelo júri misto. Não pode. Só ocorrendo circunstâncias tão graves que persuadam a conveniência de se formar a pauta do júri de jurados da comarca e dos das duas vizinhas. O presidente do Supremo Tribunal de Justiça manda-o dar uma volta.

Levanta a falsidade dos autos. O José Martinho, carroceiro, não assistiu ao exame da Maria da Purificação. Almeida Eusébio ironiza. È pela quarta vez que o célebre Mineiro, muito conhecido já no cartório, explora nestes autos o incidente de artigos de falsidade. Zombando das Justiças da comarca. Ainda bem que os tribunais superiores não são constituídos por mulheres menores de 18 anos. Que possam ser seduzidas. O advogado Eusébio tem esperança de vir a ser Ministro da Justiça. Acabava com a festança e o arraial nos processos.

O Mineiro lança o seu charme para os autos. Pede ao juiz que a Maria da Purificação, agora maior mas solteira, seja intimada. Para declarar se é da sua vontade casar com o suplicante. De uma penada, terminava a perseguição judicial. A intimada recusa tal oferta. José Almeida Eusébio, seu advogado, protesta contra a injúria. Não há texto de lei que arvore os tribunais em casamenteiros e o magistrado em padrinho de casamento.

O juiz Martins Pamplona Côrte Real suspira. Razão tinha seu pai quando o aconselhou a seguir a carreira diplomática. Que maçada!...

A Justiça condena o Mineiro. Acaba mal a aventura amorosa do músico e escrivão de paz. As mulheres arruínam-no. Perde o lugar de regente da música. Despedem-no do julgado de paz. Pobre, abandonado, envelhecido.

 

- 21 Jan, 2020
- José Avelino