Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 436

Resiliência em tempo de crise Voltar

Nesta data, jamais qualquer um de nós estaria preparado para esta nova realidade e desafio global da nossa sociedade. Uma guerra declarada, violenta em todos os seus sentidos, mas cujo inimigo é silencioso, invisível, transversal a todas as idades, condições económicas, educacionais; que desrespeita fronteiras, línguas, culturas e vontades. Desafia a ciência, os saberes instalados, as estruturas organizacionais e societais, os líderes poderosos e a cada um de nós, na sua individualidade. Perante este acontecimento, em que nos aponta um futuro de incertezas, ouso neste artigo partilhar uma realidade psicológica que todos necessitamos neste marco da história que estamos a viver intensamente. Refiro-me à Resiliência, cujo termo que vem da física e significa “a capacidade que os materiais têm de retornar ao seu estado original depois de serem submetidos à pressão ou deformação”, quando aplicada no âmbito pessoal, o seu significado pode ser entendido como a capacidade do individuo lidar com os obstáculos, adversidades ou resistir à pressão diante das situações problemáticas e conflituosas e rapidamente voltar-se ao estado natural diante dessas condições críticas e fora do comum, sendo no fundo a capacidade de superação e de adaptação a novas realidades. Temos consciência que as pessoas diferem bastante em relação ao seu comportamento diante das adversidades. Algumas enfrentam as situações duras e procuram adaptar-se, sobreviver, vencer, enquanto outras passam a maior parte do tempo a com espírito negativista, a reclamar e a considerem-se vítimas das circunstâncias. Segundo a literatura existente nesta matéria, pessoas que respondem à adversidade como uma oportunidade, com um senso de propósito e controlo, permanecem mais fortes diante de cenários instáveis; enquanto aquelas que têm uma mentalidade de vítima e acreditam que o “sistema” é o culpado de tudo o que decorre de errado nas suas vidas respondem mal à adversidade, tornando-se impotentes e fracos. Ora, perante a situação mundial atual temos que fazer um esforço individual para reforçar a resiliência e, assim, controlar de maneira mais eficaz as situações que estamos a vivenciar e a experimentar de forma tão intensa em todas as dimensões da nossa vida. É importante que apostemos no autoconhecimento e no autocontrolo, que mudemos comportamentos. Quando permitimos que as adversidades invadam o nosso emocional, há um comprometimento da nossa capacidade de lidar com as situações de um modo eficaz, pois atrapalha a nossa capacidade de pensar claramente e tomar decisões racionais nesses momentos. É crucial também um distanciamento do ruído informacional e da quantidade exagerada que nos entra pela casa adentro para nos centrarmos no essencial. Não se preocupe excessivamente com o futuro, que poderá alimentar a ansiedade e o medo, desperdiçando a sua energia mental. Adote perspetivas ao mesmo tempo positivas e realistas sobre os acontecimentos que o influenciam, pratique exercícios físicos e adapte-se serenamente a estes novos desafios na sua vida pessoal, social e profissional, aceitando a mudança como um estilo de vida. Mantenha uma rede social próxima e solidária, mesmo que neste momento seja através de outras formas que não as presenciais, mas não as diligencie, fortalecendo esses vínculos, pois estimulam a coragem em situações tensas. E será muito importante perguntar-se a si mesmo: “Existe algo que possa aprender com essa experiência?”. A boa notícia desta ferramenta é que a resiliência é uma competência que pode ser aprendida e desenvolvida em qualquer fase da vida. Enfim, qualquer pessoa pode se tornar mais resiliente. Temos que ser exigentes connosco próprios e atuar com competência, mesmo sob pressão, respondendo com determinação a esta crise. É crucial demonstrar criatividade, visão positiva e encontrar soluções, ainda que com poucos recursos, mas devendo manter-se o otimismo. Consciencializamo-nos que as pessoas resilientes são aquelas que não desistem apesar dos contratempos e que, perante uma crise, conseguem resolver o problema, adaptar-se à situação em causa e ainda reinventar-se nas áreas necessárias para assim poder seguir em frente. E a verdade é que todas as pessoas têm em si as caraterísticas de uma pessoa resiliente. Temos é que saber utilizar esta ferramenta psicológica e trabalhá-la permanentemente, através da estratégia de manter a calma, pois  as pessoas resilientes, normalmente, mantêm a calma em situações limite porque, na verdade, acreditam que tudo pode ser resolvido. Esta serenidade também as ajuda a pensar melhor e a conseguir chegar a uma solução para os problemas com que se defrontam. São realistas e pragmáticas, pois encaram as coisas como elas são. Fazem o exercício de  identificar as causas de um problema, de tal forma que antes de tentar resolver uma questão de uma forma impulsiva (que não é o mesmo que intuitiva), os resilientes analisam o problema, identificam as suas causas e só depois o tentam resolver. Uma das caraterísticas imprescindíveis é a capacidade de trabalhar as próprias emoções, ou seja, por um lado, controlar emoções de revolta, angústia, ou derivadas do stress e concentrar-se nos aspetos positivos de uma situação é a melhor forma de a resolver de um modo tranquilo. Por outro lado, são pessoas empáticas que conseguem analisar bem as suas emoções e ler as dos outros. Não depender da aprovação externa para construir o conceito de si mesmo (especialmente favorável) é um dos fatores mais marcantes de uma pessoa resiliente. Assim, estas pessoas estão dispostas a correr riscos por aquilo em que acreditam e a verdade é que, muitas vezes, acertam, acabando sempre por manter a autoestima e a autoconfiança. Encontrar uma justificação para os acontecimentos e conseguir integrá-los na própria história passa pelo otimismo de se saber que se há-de encontrar uma solução para cada problema. Mas quando poderemos dizer que a crise passou? Uma crise só termina quando um sistema supera a instabilidade e consegue voltar à estabilidade, parecendo que estamos ainda longe de conseguir chegar a esse ponto. Nesse contexto, temos duas variáveis importantes a levar em consideração. Uma é a instabilidade em si. Essa variável está relacionada ao alastramento do vírus e do número de contagiados e doentes. Outra variável é a capacidade de um sistema retornar ao seu ponto de equilíbrio. Essa variável é chamada de resiliência que se nos apresenta como medida de persistência de um sistema. É o quanto um sistema resiste à instabilidade, mantendo suas estruturas em funcionamento e conseguindo absorver a instabilidade. E, por isso, é fundamental limitarmos o número de contágios do coronavírus, pois assim estaremos limitando a instabilidade, ou seja, estaremos a limitar a crise. Por outro lado, é fundamental que além de sermos resilientes individualmente, também possamos preservar a resiliência do sistema de saúde, ou seja, é preciso fazer todo o possível para não deixar que o mesmo entre em colapso. Se limitarmos os contágios, limitaremos a instabilidade e, portanto, limitaremos a crise. E se preservarmos o sistema de saúde, preservaremos a sua resiliência, que é a capacidade que esse sistema tem de absorver a instabilidade – cuidar dos doentes – e continuar em funcionamento. E, em nossas casas, temos de continuar com todos os esforços necessários para não ser contagiados pelo coronavírus e, por outro lado, não contagiar novas pessoas, reestruturando-nos para esta nova forma de viver e ser agentes conscientes e corresponsáveis neste processo, ou seja, agirmos com resiliência.

 

Nuno Miguel Abreu

- 24 mar, 2020
- Nuno Miguel Abreu