Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 421

"Fico em casa" com Fernando Gil Teixeira Voltar

É verdade que às vezes acordo e me esqueço… Esqueço-me da situação em que estamos, sinto que é só mais um acordar normal e que me vou meter dentro do carro e conduzir para o trabalho como se nada fosse. Esqueço-me da responsabilidade que temos de ter individualmente e que vou parar a tomar café, cumprimentar as pessoas que passam e que conheço. Esqueço-me que não está tudo bem…

Sim, são só 5 minutos, mas são 5 minutos que sabem a vida.

A vida que abdicámos nos próximos tempos em nome de um bem maior. Em nome de uma vida que dure mais e com maior qualidade do que só estes 5 minutos ao acordar.

Como todos os outros, às vezes sinto que estamos a viver um filme de ficção científica. Ou que estamos todos a viver uma experiência social para nos testar e que um dia destes nos dizem “vá era tudo a fingir, queríamos ver quanto tempo aguentavam, podem sair de casa sem medos”. Ou que estou dentro de uma série da Netflix e que este é só o primeiro passo para um cenário completamente apocalíptico (embora com pessoas cheias de reservas de papel higiénico em casa, logo preparadas para tudo e mais alguma coisa).

Não, não vou romantizar de forma nenhuma o que estamos a viver.

Se fosse bom não lhe chamávamos vírus, chamávamos-lhe aumento salarial, francesinha ou um festejo de campeonato ganho pelo Porto nos Aliados (peço desculpa pela parcialidade, mas é mais forte que eu).

Como não é bom, chamamos-lhe vírus.

Portanto não há nada que romantizar aqui. Há pessoas a morrer, há pessoas a sofrer, há economias a desestruturarem-se a cada dia a mais que passamos nesta situação, há pessoas a passar fome, há pessoas a temer pelo seu futuro e pela forma como vão ter de superar e de se superar no dia de amanhã, há pessoas a trabalhar há dias seguidos para conter algo que pessoas com vontade de ver a praia em tempo de contenção teimam em deitar a perder…. Há pessoas… Há pessoas… E enquanto houver pessoas, temos de estar ao lado delas. E nunca dizer que este vírus é bom para abrir os olhos, quando o mesmo faz que tantas nunca mais os possam abrir.

Sim, esta situação está a tirar o melhor da maioria e o pior da minoria. Sim, esta situação está a dar-nos lições sobre como devemos proceder no futuro enquanto comunidade, sociedade, globalidade e, principalmente, enquanto indivíduos que nunca se conseguirão desassociar de uma ideia grupal. Mas todos os males têm bens associados. Mas não deixam de ser males. Todos os erros da nossa humanidade trazem lições. Mas não deixam de ser erros.

Portanto aprendamos. Mas aprendamos sem romantizar o que não tem romance e que até ergue um grande muro aos romances que o mundo tem para viver.

Sim, nós também somos uma espécie de vírus no planeta. Ninguém disse o contrário. Tudo aquilo que se hospeda em algo que não lhe pertence e o toma como seu o é. Se não também nos chamaríamos aumento salarial, francesinha ou um festejo de campeonato ganho pelo Porto nos Aliados (lá estou eu outra vez). E que eu saiba, esses nomes ainda estão por dar.

Nesta fase, pedem-nos para fazer aquilo que fazemos quando nos convidam para sair e dizemos que não podemos porque temos muito que fazer: ficar sentados no sofá. E aqueles a que se pede mais nesta fase do que era pedido antes, cabe-nos a nós ter a solidariedade de cumprir com o que nos foi pedido para que lhes venha a custar menos.

Nunca na vida da maioria as nossas ações foram tão importantes para o todo como agora.

Não desperdicem a oportunidade que têm de fazer a diferença só por vocês por mais uma necessidade de afirmação de superioridade ou invencibilidade. Nem todos somos Bolsonaros e nem todos conseguimos carregar a culpa de ter causado a morte de outra pessoa pela nossa irresponsabilidade.

Fiquem em casa.

Eu também ficarei. A cumprir a minha função profissional de fazer chegar até vocês a informação mais credível e verdadeira possível, sem enfeites, mas também sem alarmes que não se justificam. Porque é esse o papel do jornalismo nestes dias e em quaisquer outros.

Não, não está tudo bem.

Mas vai ficar tudo bem.

- 02 abr, 2020
- Fernando Gil Teixeira