Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 421

"Fico em casa" com Tiago Soares Monteiro Voltar

Estamos todos a aprender.

Nenhum de nós previa que durante o nosso tempo de vida, depois de um século XX particularmente complexo e dotado de acontecimentos bélicos, revolucionários e até sanitários, iriamos ver-nos defronte uma doença que colocasse meio planeta profilaticamente isolado.

E expressões como essa são também uma novidade: Tivemos novamente de recorrer ao dicionário (que foi evoluindo, lentamente, para acessório de estante), com o intuito descobrir o significado de coisas como “pandemia”, “mitigação” ou “açambarcamento”, dado o volume de notificações no smartphone com tais vocábulos.

Este surto convoca-nos a isto mesmo: Ter a humildade de regressar a um lugar comum que não podemos desdenhar: A aprendizagem. E pela primeira vez, não estamos em graus de ensino distintos ou nos distinguimos pelas faixas etárias d’onde nos gráficos televisivos nos colocam diariamente. Estamos mesmo todos juntos, enquanto coletivo social, a tentar perceber como aqui chegámos e a maneira mais eficaz daqui sairmos.

São particularmente comoventes os relatos que nos dão conta de como os mais novos e os mais velhos se estão a aperceber da situação que enfrentamos, tal como incentivador é, uma vez aprendida a lição, vê-los passar a palavra dos atos socialmente responsáveis que devem ser adotados. A simples perceção de que a comunidade sénior – logo esta tão ávida de afeto e afetos – se tenta adaptar sem questionamentos a uma realidade nova, ficando refém de contacto e atenção, deve fazer-nos refletir.

Tal como a população ativa, que não faz parte da franja dos profissionais de saúde ou das forças de segurança, que viu a sua profissão ir sofrendo leves mutações até que os meios pelos quais a executava serem totalmente supridos. Ao professor universitário que agora dá a cadeira por videoconferência, sujeito a miudezas como a falha de internet ou a impercetibilidade do som, sem ter a receção de que a mensagem está efetivamente a passar, à dona de mercearia que teve de adaptar o seu já pequeno espaço a um lugar de janela ainda mais pequeno, quase militarmente fortificado, para que todos lhe possam aceder com a maior segurança, ou ao jovem estafeta citadino, de mochila às costas, que para além de continuar a usar toda a força para pedalar mais rapidamente, não pode sequer absorver o sorriso de quem vê chegar o jantar, entregando a encomenda à porta, vendo-a depois ser exaustivamente desinfetada como se lá dentro viesse tanta outra coisa que não um bem essencial.

E aglutinarmos pessoas que, à partida, podem parecer tão diferentes, não é lapso. Serve mesmo para exemplificar que, embora sejamos frequentemente confrontados com a importância dos cidadãos da linha da frente, esta linha – que é cientificamente de retaguarda – continua na linha da frente do seu ofício: A formação, o comércio de bens essenciais, a cómoda entrega de artigos que, de outra maneira, não conseguiríamos obter. Tal como o canalizador que continua a desenrascar já depois das 7 da tarde, o operário fabril que continua a cumprir o mesmo horário e a executar a mesma tarefa, mas que agora já não pode aproveitar a hora de almoço para receber um solidário abraço para as horas de trabalho que ainda lhe sobram, ou o camionista que mantém a rota diária para que tudo alcance a prateleira, agora ainda mais sozinho e com um robusto escrutínio sanitário.

A sociedade civil continua com as mesmas necessidades, as pessoas prosseguem a ter os mesmos hábitos. Assim, não devemos cair no erro crasso de dizermos que para estas e para tantas outras, que até podem estar em casa, estes tempos são mais fáceis, que tudo é fazível, que os riscos suportados em nada se assemelham. Ora, para estas pessoas, que toda uma vida aprenderam a fazer de uma determinada maneira, a saber estar de um modo, a contribuir de forma própria, estes tempos não podiam ser mais duros. Se a doença pode matar, a cura, arrastando-se, pode dizimar tudo aquilo que tínhamos como garantido na cidadania ativa.

E é por isto, e não por uma qualquer metáfora tribal, que estamos, efetivamente, todos na mesma situação – Porque independentemente da idade, do género ou da condição social, estamos a reaprender a nossa própria maneira de ser.

E seremos todos diferentes, quando tudo isto terminar. Talvez durante semanas, quiçá durantes anos. Mas que essa diferença, enfim, nos traga a positividade que esta malograda doença nos foi retirando.

Estamos todos a aprender.

- 03 abr, 2020
- Tiago Soares Monteiro