Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 421

"Fico em casa" com Conceição Martins Voltar

Os tempos que vivemos são um teste ao nosso tipo de vida.

Esta pandemia por coronavírus, denominado COVID19, veio abalar todas as nossas certezas, de segurança e de saúde, de estabilidade. As incertezas económicas e de emprego são uma realidade.

Este é um vírus altamente contagioso, que é assintomático em muitas situações e noutras apresenta sintomas ligeiros como tosse e febre, com o surgimento da dificuldade respiratória, instalam-se os sinais de alarme.

A melhor forma para lutar contra esta agressão virica, é o isolamento, isto é, as comunidades devem confinar-se a casa, evitar contactos sociais, cortar a progressão do vírus entre as pessoas.

Em Portugal logo que surgiram os primeiros casos, houve uma preocupação para evitar a propagação:

Fecharam-se escolas universidades, cancelaram-se eventos culturais e desportivos, colocaram-se muitos trabalhadores em teletrabalho, confinaram-se as pessoas às suas casas.

Os serviços de saúde revelaram ponderação, calma e energia, no estabelecimento de medidas eficazes e prudentes, é a D-G de Saúde que lidera todo o processo, tem sido alvo de algumas críticas, o processo é novo para todos, perante uma elevada virulência, com contágios rápidos e desconhecimento do comportamento deste novo agressor, a DGS tem sabido gerir a situação, o balanço final é até agora muito positivo.

O governo de forma segura, eficaz e de muita ponderação tem decretado medidas para superação dos momentos dramáticos. Emergem medidas para que o SNS dê uma resposta de firmeza e resistência, para poder chegar a todos os que dele necessitam.

Emergem medidas nos domínios; da segurança social, da economia, do emprego, de suporte aos mais frágeis, de suporte aos que produzem riqueza e emprego…

Ao, ser decretado estado de emergência, pelo Presidente da Republica, veio reforçar a confinação das pessoas em sua casa, esta é a medida que claramente dá resultado ao coortar a progressão do vírus.

Outros países decretaram o estado de emergência, com objetivo de conter a progressão do vírus. É uma luta planetária, com uns governos a serem muito responsáveis e a tomarem medidas atempadas e preventivas, mas infelizmente outros ainda estimulam a mobilidade das pessoas e não decretaram qualquer medida preventiva,

Portugal tem tomado medidas credoras do respeito. São muito difíceis, alteram a vida de todos nós, não nos podemos visitar, muitos não podem trabalhar, com risco até de perder o emprego, a economia definha, o turismo está a zero, não há idas á escola, á faculdade, os pais não têm creche ou jardim-de-infância para os filhos…não há visitas nos hospitais, nos lares, nas prisões, as fronteiras estão fechadas e só circulam os estritamente necessários, os aviões estão em terra, ninguém viaja…

Não seremos os mesmos depois desta crise ameaçadora, do confinamento á lavagem das mãos com sabão em todas as situações, a limpeza constante das superfícies porque a camada proteica do vírus é destruída pelo sabão. Estas medidas são poderosas para evitar a propagação.

Esta pandemia é o maior desafio das nossas vidas e que exige o empenho e envolvimento de todos.

Os profissionais de saúde têm estado presentes desde o primeiro momento, estão na linha da frente, até são chamados a joia da coroa, sabem que esta pandemia é o maior desafio das nossas vidas, todos vivem com o medo, sentem na alma a dureza da tarefa que têm em mãos, podem ficar infetados, não podem abraçar os seus, os filhos pequenos não entendem o que se passa.

Ir trabalhar todos os dias é uma incógnita, pode ditar uma quarentena, ficar dias, sem fim  longe de casa, suportar os equipamentos de proteção individual, que são para proteção, mas não são fáceis de suportar horas a fio… já para não falar do sofrimento daqueles que cuidam, onde os gestos de conforto que são parte do cuidar não podem ser feitos, só o olhar poderá dar ânimo.

Sim porque todos precisam de ânimo de esperança.

Como dizia um amigo os verdadeiros transformadores do mundo são os “invisíveis”

Esses são os que tudo fazem, dão o melhor de si, sabendo que no limite, ninguém se recordará do que fizeram. Estarão ao serviço de quem precisa, faltando aos seus no seio da sua família, deixam os seus para que todos tenham o que precisam.

Não podem ficar em casa, porque do seu trabalho depende a saúde a segurança, a alimentação o fornecimento de tudo o que faz funcionar a nossa sociedade, correndo o risco de ficarem doentes.

Por todos eles, todos os outros têm o dever de ficar em casa, de fazer a sua parte, ir correr no parque com mais uns quantos que farão o mesmo estão a potenciar o aparecimento de mais uma cadeia de infeção, agora, que o risco é ainda maior, porque o vírus já está disseminado na comunidade. Fiquem em casa pela vida de todos.

Se, a disciplina de confinamento e do distanciamento social continuar, a pressão de doentes nos serviços de saúde, sobretudo nas unidades de cuidados intensivos, será menor e dará tempo de recuperar uns e libertar ventiladores para os seguintes. Sejamos com a nossa disciplina, solidários enquanto humanos.

A pressão hospital em quantidade e gravidade de doentes está a aumentar, a curva ascendente não é diferente dos outros países, a sua progressão é um pouco mais lenta, mas igualmente preocupante.

Os serviços precisam de equipamentos de proteção individual para os seus profissionais, precisam em quantidades astronómicas para que não faltem, o que numa primeira fase foram de uma escassez alarmante. Porém, o que existe hoje, rapidamente se esgota, dai a necessidade de adquirir constantemente.

Se estas proteções falharem aos profissionais de saúde, a queles que são hoje a “joia da coroa” começarão a cair em combate, desnecessariamente.

Reforço que estes equipamentos têm que ser para todos, não só para os que estão nos serviços de maior pressão de doentes infetados, porque a realidade tem-nos ensinado que toca a todos.

Como defensora de um SNS forte, bem preparado, bem financiado, para assegurar a saúde de todos, suportar a investigação, a inovação, não podemos voltar ao que se vivia antes da pandemia, onde o desinvestimento de anos no SNS nos levou a estarmos menos preparados na resposta que se impõe.

Mais uma vez não são visíveis as fragilidades do sistema porque os seus profissionais mais uma vez, demonstraram a sua fibra, o seu sentido ético e a sua responsabilidade, perante todos os que, de si dependem para recuperar a saúde e evitar a doença.

 

O comportamento humano perante o desconhecido, reage das mais variadas formas:

  1. Reação de Pânico, irritação fácil, compras em pânico acumula papel higiénico, comida e medicamentos que não precisa…
  2. Reação de Aprendizagem, começa a ganhar alguma liberdade, deixa de consumir o que lhe faz mal, alimentos e noticias negativas, surge o reconhecimento que todos estamos a dar o nosso melhor perante uma situação muito complicada…
  3. Reação de crescimento, encontra-se um propósito, pensa-se nos outros e procura ajudar outros, agradece-se e vive-se o presente.

Analisando os momentos que vivemos por estes dias a primeira fase já foi ultrapassada, estamos, em minha opinião no final da segunda fase, em que, a consciência de que estamos todos a dar o nosso melhor, tem até sido reconhecido internacionalmente.

A terceira fase, está em crescimento, por todo o Pais os atos de solidariedade são uma constante e aumenta a cada dia, cada um dentro daquilo que pode quer ajudar.

Precisamos, deste espirito para o depois da pandemia, para agarrar a vida, com a energia necessária a fazer arrancar a economia a criação de riqueza e o emprego.

Precisamos de o fazer com resiliência, solidariedade e humanidade. Se houver uma aprendizagem de que o capitalismo selvagem onde cada um vale por si, e tudo o que não é lucrativo é para fechar, e que o estado deve ser reduzido ao mínimo, não nos serve como humanos, somos seres gregários que só valem enquanto comunidade, então esta crise duríssima serviu para inverter o caminho (espero eu).

Desde há vários dias ouvimos os arautos do capitalismo a clamar por mais estado. Para ajudar as empresas, a economia, para que as empresas não se afundem – então o estado não pode ser mínimo, tem que ser o necessário para servir os cidadãos. Conto, com mais esta aprendizagem, que a pandemia nos demonstra como uma evidência.

Por último quero abordar os benefícios ambientais que decorrem da redução da atividade humana no planeta.

Houve tsunamis, cheias, incêndios, ondas de calor mortíferas, mas os humanos continuaram a sua atividade poluidora desenfreadamente.

Os acordos do clima das diversas cimeiras, de pouco serviu, países altamente poluidores nem o ratificaram, outros tentaram fazer crer, que eram ideias delirantes que não correspondiam a realidade.

A realidade na sua dureza de uma pandemia planetária, que obrigou ao confinamento de milhões de pessoas, como dizia atras, os aviões estão no chão, são milhões, os automóveis saíram das estradas, cidades com milhões de habitantes conseguiram voltar a ver as estrelas, em Veneza é possível ver os peixes a regressar aos canais…então não é mais possível que alguns duvidem que é o nosso estilo de vida que está a matar o planeta.

Acredito que esta pandemia obrigará a humanidade a refletir sobre o que pode e deve mudar…

Tem que haver uma mudança no nosso estilo de vida, tem que se viver mais em harmonia com a natureza, muito do que produzimos e depois consumimos, não nos é necessário - basta ver que neste mês não nos foi necessário.

Em todas as situações dramáticas há sempre uma lição de vida.

Agora, é preciso salvar os doentes, evitar que outros adoeçam, robustecer os nossos serviços de saúde no SNS.

É preciso apoiar todos os que estão a trabalhar para que o essencial seja assegurado aos cidadãos.

É preciso que todos os mecanismos criados pelo governo e anunciado pelo primeiro-ministro Dr. António Costa, sejam bem utilizados, não pode haver abusos como despedimentos, coação sobre os trabalhadores, utilizar somente o que é estritamente necessário a cada empresa e a cada um de nós.

É preciso, reforçar os apoios às pequenas empresas que por vezes, é composta, pelo dono e mais um empregado. São milhares por esse Pais fora e, estes são pessoas que têm que ser ajudados para que, após o prolongamento do estado de emergência decretado ontem, possam retomar atividade com criação de riqueza e manutenção de empregos.

Abordar aqui o prolongamento do estado de emergência, é vital para que esta pandemia passe rapidamente. Para acontecer não pode haver aparecimento de novas cadeias de transmissão.

A época da Pascoa vai ser diferente, mas terá que ser assim por todos nós.

Quero deixar uma mensagem de reconhecimento ao governo na pessoa do Dr. António Costa, que com segurança e muita sageza tem sabido gerir um dos piores períodos da nossa história recente.

Felicitá-lo também pela sabedoria de nos momentos muito duros de negociação no seio da União Europeia, soube defender a elaboração de um plano vital para a recuperação da Europa apos a pandemia, não tendo medo de condenar palavras de falta de solidariedade do ministro das finanças holandês.

Por fim o meu desafio é o de sermos corajosos, fortes e muito solidários para fazer face a tudo o que ainda vamos ter que viver em tempo de pandemia.

 

Maria Conceição Jorge Martins

Enfermeira Gestora

 

 

 

- 04 abr, 2020
- Conceição Martins