Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 421

"Fico em casa" com Ânia Pais Voltar

São tempos difíceis e complexos. Assim como eu, muitos jovens artistas deram por si obrigados a abandonar o seu local de trabalho na Faculdade.

Foi-nos possível ainda recolher algum material dos ateliês antes do fecho das universidades, contudo tanto eu como outros colegas não trouxemos muitos materiais para trabalhar em casa, pois tínhamos ainda naquela altura esperança de voltar à Faculdade em breve. Neste momento muitos de nós veem-se sem espaço de trabalho, sem materiais e sem possibilidades de continuar os trabalhos que antes estavam em desenvolvimento, com condições precárias. Talvez agora, dando conta da dimensão real da situação todos nós desejávamos voltar atrás no tempo para trazer mais materiais de trabalho connosco.

No meu caso, tomei a decisão de voltar para a minha casa por me possibilitar mais materiais e espaço para continuar o desenvolvimento do meu trabalho e projeto pessoal, não podemos parar. Mas muitos colegas meus estão confinados ao seu quarto num apartamento em Lisboa, trata-se de um momento de adaptação que nos limita artisticamente e enquanto artistas só podemos tentar lutar contra esses limites que nos são agora impostos.

Vendo-me limitada dentro de casa, não tendo liberdade suficiente pelas condições que o espaço em si proporciona, decidi aproveitar a sorte de ter uma garagem. Na impossibilidade de ter um ateliê e um espaço de trabalho pessoal, decidi criar as minhas próprias condições de trabalho. Durante praticamente uma semana, limpei, arrumei e pintei as paredes da garagem de forma a criar uma pequena área que me possibilitasse continuar a desenvolver e a fazer registos fotográficos do meu trabalho.

Agora este espaço ganhou um novo propósito, uma nova vida.  Sei que muitos artistas não têm a sorte de viver no campo ou de ter uma garagem que possam utilizar como espaço de trabalho. Mas vamos olhar para cada canto da casa e ver as possibilidades que esses espaços têm para nos oferecer e tentar fazer o melhor que conseguimos com aquilo que temos. Sei que é isto que muitos de nós tem feito, reinventar espaços e redescobrir métodos de trabalho.

Há duas semanas que tenho trabalhado com materiais e recursos que tenho cá em casa e que a natureza me proporciona. Apesar de todas as dificuldades é um ótimo momento de reflexão e de encontro interior, um momento de redescoberta e reinvenção de nós mesmos enquanto artistas. Também é um ótimo momento para investir numa boa leitura e filmes, no sentido de melhorar o conhecimento e a cultura artística, descobrindo novas referências e artistas, acompanhada de estudo para enriquecer também o desenvolvimento do projeto artístico.

Pode nesta altura, também existir uma maior exploração de meios de trabalho como o vídeo e a fotografia para a realização do projeto, devido à escassez de material, podendo esses meios surpreender-nos bastante, mostrando-nos outros caminhos para a realização do nosso trabalho de acordo com os nossos interesses e motivações.

Foi um acontecimento inesperado que nos fez alterar completamente os nossos hábitos de trabalho, e os nossos projetos. Um dos meus projetos que acabou por ficar mesmo suspenso foram as minhas peças de vidro, que não são de todo possíveis de realizar devido à falta de um forno para a manufactura das mesmas. Cerâmica ao nível da cozedura encontro-me com o mesmo problema, mas ao contrário do vidro posso avançar no trabalho trabalhando com as pastas para a realização das peças. Trata-se também de um momento de adaptação e de realizar o que nos é possível com aquilo que temos.

O nosso trabalho vive do público e apesar de ser sempre possível mostrar o trabalho através de plataformas online, nada se compara à visualização de um trabalho no espaço em que está inserido, não se vive uma obra da mesma maneira, a internet é uma boa ferramenta como recurso neste tempo para se continuar a acompanhar trabalhos de artistas, mas a realidade é que as exposições, que neste momento não podem acontecer, são essenciais para dar a conhecer e a experienciar o nosso trabalho.

Felizmente as conversas com colegas e professores continuam, dando continuidade a troca e discussão de conhecimentos, ideias e reflexões. Estando sempre a recolher e obter informação de diversas fontes, contribuindo bastante para o desenvolvimento artístico.

É preciso continuar e ter força para trabalhar em casa com quaisquer que sejam as condições que temos, é preciso não pararmos dando assim um pouco de sentido e esperança a este momento que enfrentamos.

 

 

 

- 06 abr, 2020
- Ânia Pais