Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 431

Diagnósticos que não são sentenças, mas sim desafios Voltar

CORAGEM. O fundanense Alexandre Pissarra, de 22 anos, é um exemplo de força e superação. Diagnosticado com um linfoma, o jovem não virou a cara à luta e recusa-se a desistir. E ainda tenta ajudar pessoas que estejam a passar pelo mesmo

Alexandre Pissarra, jovem fundanense de 22 anos, não tem tido dias simples ou fáceis. Diagnosticado com um linfoma há poucos anos, e poucos meses depois de outra familiar ter recebido o mesmo diagnóstico (embora como o próprio diz este “não ser hereditário”), muitos eram os motivos para olhar a vida com raiva e frustração. Mas Alexandre recusou-se a olhar para este diagnóstico como uma sentença. “Quando me disseram que tinha linfoma, senti logo desde o início que tinha de resolver o problema e tentar ter o máximo de positivismo”. É assim que Alexandre descreve a forma como lidou com a notícia, sendo que a descoberta foi motivada por diversos sintomas (gânglios linfáticos aumentados, perda de peso, cansaço etc.) que o levaram a fazer um diagnóstico.

Nunca ninguém está preparado para receber uma notícia destas, mesmo quando já a espera. Principalmente para um jovem com uma vida desportiva bastante ativa como Alexandre. “Jogava futebol, treinava várias vezes por semana e jogava todos os fins-de-semana”, algo que teve de deixar quando colocou um implantofix, “um cateter que me permite fazer quimioterapia e não podia existir contacto”. Foi um dos momentos mais complicados para Alexandre, o assumir de que a sua vida teria de mudar e adaptar-se à nova realidade. “Perdi bastante músculo nos primeiros meses de quimioterapia e perdi algum peso, cheguei até a perder 1dez quilos, numa semana apenas”.

Ainda assim, o jovem sempre batalhou muito para poder responder na altura ao linfoma. Foi-lhe permitido praticar crossfit, com várias precauções, e foi assim que recuperou peso e massa muscular, embora sempre que regresse à quimioterapia tenha de parar e a verdade é que o desporto acabou por ser um ajuda e não um entrave. “Nos tratamentos em que podia praticar exercício lidava melhor com os tratamentos, tinha menos efeitos secundários e sentia-me melhor comigo mesmo”, afirma.

O apoio da família, namorada e amigos tem sido a sua âncora e o «ombro amigo» onde arranja forças para continuar a travar esta batalha. Outra mensagem de força surgiu entretanto, quando o familiar também afetado por linfoma venceu essa batalha. “É uma motivação para eu continuar a lutar”. O jovem não esquece ainda o apoio fundamental de “médicos, enfermeiros, técnicos auxiliares de saúde e todos os envolvidos no meu processo, porque passam sempre o lado mais positivo para nós e ajudaram sempre que precisei”. Outro dos seus abrigos é a música. “Gosto também de ouvir música, ajuda-me muito a esquecer por momentos a doença”.

Nunca quis ser tratado de forma diferente. “Ajudam-me muito mais tratando-me de forma igual, porque faz-me pensar que não estou doente e que posso viver de forma normal, não gosto que demonstrem pena de mim”. É por isso que evita o tema em conversas com as pessoas mais próximas, porque há vida para além do diagnóstico que lhe foi dado. E as mudanças que esta fase tiveram no jovem são mais que muitas, passou a dar muito mais valor à vida e no aproveitar de tudo o que tem. “Antes de estar doente, era muito desligado de certas coisas e agora aproveito ao máximo cada momento, estou muito mais com as pessoas que gosto e que me apoiam”. Sente-se mais maduro e sente-se realizado por ver essa mudança e por sentir que “estar doente não traz só coisas más como as pessoas pensam, aliás traz coisas bastante positivas”.

Alexandre é ainda uma verdadeira fonte de inspiração. Criou uma página no Instagram (@hodgkinemportugues), onde “relato e partilho a minha história e conheço também histórias de outras pessoas que conseguiram superar a doença e que me fazem continuar, sendo esses os motivos que me levaram a criar a página, a partilha de experiências com o objetivo de nos ajudarmos mutuamente”. Na página, o jovem explica o que tem passado para ajudar outras pessoas que estejam na mesma situação. Além disso, a possibilidade desabafar com quem o entenda é um ânimo muito grande que retira desta experiência. “Recebo muitas dúvidas sobre a doença que as pessoas têm e também muitas mensagens de apoio”. O jovem não se coíbe de partilhar também os dias de tratamento sem filtros, tentando trazer realidade e porque isso também o ajuda a passar o tempo durante os tratamentos.

Há um ano, o jovem soube que entrara num ensaio clínico, mais uma esperança de cura que surge assim, porque tem acesso a fármacos de ponta dessa forma. Embora considere que as melhorias até agora são poucas, mesmo estando a correr bem, Alexandre não atira a toalha ao chão.

“Nunca fui de desistir e gostava sempre de aceitar desafios, claro que diferentes deste, mas este é mais um que vou superar”, diz.

Alexandre é uma verdadeira inspiração e uma lição de vida. E esta partilha não deixará ninguém indiferente. Ter esperança é acreditar que existe sempre uma saída, até mesmo para os problemas mais difíceis.

Esta não é uma história de pena, mas sim de coragem e exemplo.

 

- 05 mai, 2020
- Fernando Gil Teixeira