Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 421

De Erasmus na Covilhã em tempo de pandemia, com o coração em casa Voltar

HISTÓRIAS: Júlia tem 20 anos e estava na Covilhã de Erasmus quando a pandemia e o confinamento irromperam por todo o mundo. Acabou por ficar cá, “de coração apertadinho” e contou ao Jornal Fórum Covilhã a experiência

A Covilhã é como sabemos boa anfitriã para quem vem de fora, principalmente para estudar. O Brasil é um dos países de que mais a Universidade da Beira Interior recebe estudantes e a cidade tem já uma grande comunidade de cidadãos brasileiros que ficam mesmo depois de concluídos os estudos. Com a pandemia, muitas histórias se adiaram e muitas se complicaram. No final de Março, a vida como a conhecíamos mudou e de que maneira numa questão de dias. Portugal entrou em estado de calamidade, e depois de emergência, e o confinamento e fecho de fronteiras tornou-se uma realidade.

Júlia Carvalho, de 20 anos, estava de Erasmus na UBI, em Ciências da Comunicação. Ficaria até Julho mas no entanto, vai mesmo regressar mais cedo a casa. “É muito complicado ficar em isolamento, acredito que eu estar longe de casa potencia ainda mais esse desafio” confessa Júlia. Além disso, a jovem admite ainda que o objetivo de qualquer Erasmus é socializar e aprender com os outros, algo que impediu parte dessa experiência. “É como um plano que saiu furado” … No entanto, por outro lado acredita que este tempo serviu para se dedicar ao seu desenvolvimento pessoal, tentando olhar para a situação de forma positiva.

Em relação à situação atual no Brasil, Júlia não tem rodeios em falar sobre o que sente vendo a situação de fora. Como sabemos, Bolsonaro tem sido muito crítico com o confinamento e a situação epidemiológica no país tem atingido números e dimensões catastróficas, num país em que o seu presidente continua a afirmar que o Covid-19 “não é mais que um resfriado”. Além disso, Bolsonaro defende ainda que o povo brasileiro nada tem a temer porque é um povo forte e resistente que não adoece com qualquer coisa. Júlia não é tão otimista… “Não tenho boas expetativas da situação no Brasil. Assusta-me muito a forma como o vírus se tem expandido e a forma como os brasileiros têm lidado com isso”, referindo que lhe custa entender “a forma como o Presidente da República tem lidado com a não adoção de medidas preventivas”. O facto de estar longe ainda lhe custa mais, já que sente que não consegue ajudar os seus conterrâneos. É aqui que a distância mais pesa…

Júlia sente-se de mãos atadas enquanto não pode voltar. Se já seria difícil em condições normais estar longe da família e de casa do outro lado do continente, ainda se tornou mais difícil, o estar “enclausurada noutro lugar que não o seu quarto confortável rodeada de familiares que me protejam”. Optou por não ir logo por uma questão de segurança e permaneceu até agora a muito custo. Embora a experiência esteja a ser diferente do que imaginou não se arrepende de ter vindo e diz que aprendeu imenso com esta experiência, onde “saltei para fora da minha zona de conforto, um desafio que se tornou maior quando precisei de me isolar e percebi que a minha família também passaria por estes problemas sem eu estar lá”. Júlia voltará em breve a casa, para uma casa onde ainda não está tudo bem e que está a ter mais dificuldades em controlar a pandemia em relação a Portugal. Mas voltará a casa… E não há nada como voltar a casa… Esta é história da Júlia, mas conta a história de muitos mais alunos que estão na Covilhã longe de tudo o que lhes é próximo e sem a normalidade de outros tempos.

 

- 19 mai, 2020
- Fernando Gil Teixeira