Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 436

A retoma Voltar

O Covid foi anunciado como um vírus democrático que ataca sem olhar a raças, credos, nacionalidades ou estrato social. Isto parece-me idêntico a todas as outras maleitas e, portanto, não entendo porque só este tem direito a essa adjetivação.  Agora o que eu sei é que as condições de enfrentar o dito é que são diferentes nos vários países musicalmente falando. A semana passada fui convidado pelo Director da Wiener Singakademie, em conjunto com mais quatro dezenas de maestros de todo o mundo, a participar num estudo de como deveria ser o retomar das atividades corais e a respetivas perspetivas nos seus países. Ontem chegou-me o relatório com as conclusões finais e mais uma vez as diferenças são abismais comparativamente ao nosso país. Não pelo facto de serem mais inteligentes, mas sim por terem possibilidades que os façam parecer isso mesmo. Vou citar só alguns exemplos das disparidades que existem e foco-me só nos coros amadores. É aconselhado nos ensaios um distanciamento de 1 a 2 metros entre elementos. Ora com coros de 70 e 80 elementos dá para perceber o tipo de salas de ensaios que devem ter. Aqui em Portugal, um coro com este número de elementos, para fazer o distanciamento os Baixos já deveriam ensaiar na casa dos vizinhos. Depois aconselham que o intervalo do ensaio seja passado no jardim. A título de exemplo, no Coro Misto da Beira Interior o mais parecido que temos é um vaso à entrada e que me parece manifestamente pequeno para cabermos todos até pelo distanciamento obrigatório. Diz também a missiva que as partituras devem ser desinfetadas à entrada do ensaio em equipamento próprio para o efeito. Eu nem sabia que havia tal aparelho quanto mais possuí-lo. Referem que a equipe de produção também não deve estar nos ensaios. Aqui estamos em igualdade pelo facto de nenhum coro amador ter uma equipe de produção e, portanto, a não presença deles está garantida.  O governo austríaco contratou imensos profissionais para que online possam fazer ensaios individuais com os elementos dos vários coros. Isto reflete a importância que é dada à atividade coral amadora mas também a mentalidade dos coralistas. Em relação aos coros infantis, por lá, irão recomeçar também esta semana e só crianças doentes, infecciosamente falando, estão impedidas de participar nos ensaios. Uma das questões foi o que acontece no caso de os pais não autorizarem o regresso e nesse capítulo as directivas também são claras: os pais têm o poder de decidir assim como os maestros o têm em relação a quem continua ou não nos seus coros porque este Covid também serve de desculpa para muita coisa. Em outra situação, e falo mais uma vez de coros amadores, aconselham a enviar as partituras por mail para que estes estudem em casa e os ensaios servem para juntar os vários naipes. Isto já não tem a ver com o Covid mas sim com a preparação que o sistema educativo lhes deu no âmbito da música e que lhes permite esta possibilidade. Por cá, e neste tema, o vírus “já tem barbas”. Claro que agora para eles é mais fácil pois não perderam tempo a fingir que davam importância à educação musical das crianças e jovens.  Mas mesmo com estas diferenças cá estaremos todos para retomar a nossa vida coral até porque quando se chora sobre um problema adia-se a solução.

- 19 mai, 2020
- Luis Cipriano