Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 426

Covid em tempos de desconfinamento Voltar

A incerteza relativa ao novo coronavírus, desde a sua origem até à sua vacinação ou ao seu tratamento ainda não encontrados, passando pelas caraterísticas ainda algo indefinidas com que ataca a saúde humana, lançou uma enorme onda de incerteza, que predomina.

O confinamento com aulas e ensino à distância, os pais em teletrabalho, muitas limitações ao convívio familiar alargado nomeadamente com avós e primos, embora por razões diferentes, trouxeram alterações da dinâmica familiar antes impensáveis.

O convívio com os pares reduziu-se drasticamente, nomeadamente em crianças mais pequenas, que deixaram de ir à escola ou Jardins de Infância. Ficaram também reduzidas as atividades de grupo e as atividades ao ar livre, o exercício físico e a socialização tão importantes para o desenvolvimento psicossocial.

O período de confinamento aumentou o convívio intrafamiliar e descobriram-se novas formas de comunicação, usou-se a imaginação para encontrar soluções e atividades para reduzir os efeitos nefastos do distanciamento físico.

Se as novas tecnologias ajudaram imenso e continuam a ajudar a contornar as barreiras físicas imprescindíveis, trouxeram também alguns efeitos nefastos.

A redução das atividades fora de casa e em grupo aumentaram o tempo de inactividade física, as crianças ficaram mais tempo sentadas e com mais tempo disponível para as novas tecnologias nomeadamente uso lúdico de écrans.

Após este período de confinamento e mudança radical de hábitos e rotinas, do modo de estar, de pensar e atuar, voltamos progressiva e cautelosamente a alguma normalidade.

Surgem naturalmente dúvidas e preocupações neste regresso à “normalidade”.

Chega o Verão e as férias tão ambicionadas por todos em especial pelas crianças e jovens, mas haverá algumas restrições e precauções de modo a reduzir o risco de contágio. Temos agora novos desafios e o aumento da responsabilidade individual e coletiva, tendo em conta que o risco de transmissão aumenta com a exposição a um número acrescido de pessoas, especialmente em ambientes fechados.

De um modo geral continua a ser crucial a rigorosa e frequente higiene das mãos, várias medidas de redução dos riscos de contágio como o uso de máscara em ambientes fechados, distanciamento físico, e outras mais específicas que têm sido amplamente divulgadas pela Direção Geral da Saúde (DGS). Devemos claramente evitar partilhar artigos pessoais e frequentar lugares movimentados.

Atualmente sabe-se que as crianças são raramente infetadas, quando adoecem apresentam habitualmente doença ligeira e que, raramente, são a fonte do contágio.

Devemos, pois, ser criativos, tendo em conta a segurança por um lado, mas também a necessidade de promover um desenvolvimento psicomotor adequado e um bem-estar biopsicossocial. Se a maneira mais fácil de parecer amigável é estampar um sorriso no rosto, o uso de máscaras torna mais difícil a comunicação não-verbal - daremos então mais atenção ao contacto ocular e postura corporal.

As crianças precisam jogar futebol, basquete, patinar, fazer skate, natação, karaté, dançar, saltar, subir às árvores, correr nos campos…

A abertura das creches veio de algum modo colmatar as necessidades da sociedade mas também promover as atividades lúdicas. As regras implementadas visam reduzir o risco de contágio nomeadamente: a redução do número de crianças por sala de modo a que, na maior parte das atividades, seja maximizado o distanciamento entre as mesmas, sem comprometer o normal funcionamento das atividades lúdico-pedagógicas ; a promoção da ventilação e arejamento das salas e corredores dos estabelecimentos; o controlo dos brinquedos e a sua frequente e correta higienização; o treino e supervisão da correta lavagem das mãos; a melhor definição de circuitos.

A reabertura dos Ateliers de Tempos Livres (ATL) terá duas datas diferentes, com alguns a reabrirem dia 15 de junho e os ligados às escolas a 26 de junho, de acordo com a diretora-geral da Saúde, com regras ainda em elaboração.

As praias são um dos locais públicos mais frequentados durante o Verão, e embora seja ambiente ao ar livre, a grande concentração de pessoas poderá aumentar o risco de transmissão. Assim de acordo com a DGS devem cumprir-se as regras de prevenção nomeadamente: distanciamento físico, limpeza frequente das mãos, etiqueta respiratória, limpeza e higienização dos espaços, utilização de equipamento de proteção nos locais de uso obrigatório.

Relativamente à vigilância de saúde Infantil existe uma preocupação generalizada e a Sociedade Portuguesa de Pediatria fez recomendações para a retoma de atividade assistencial, com enfase especial nas consultas presenciais de Saúde Infantil (em especial até aos 2 anos de vida) e no acesso atempado à vacinação de modo a diagnosticar patologias próprias desta idade e a evitar surgimento de infeções evitáveis. Também no acesso aos cuidados de saúde importa destacar a necessária higienização dos espaços, o uso de máscara de proteção e o distanciamento. Para evitar aglomerados na sala de espera e tempo de permanência desnecessários deve ser privilegiado o agendamento prévio e o cumprimento dos horários, de modo a tornar seguro o acesso aos cuidados de saúde.

De salientar que o maior tempo de permanência em casa, por vezes em espaços exíguos associado ao cansaço dos pais pode propiciar a ocorrência de acidentes domésticos das crianças. No contexto actual vale a pena lembrar que os desinfetantes de uso geral como a lixivia podem provocar lesões graves se ingeridos, inalados ou em contacto com os olhos, pelo que devem estar bem identificados e fora do alcance das crianças!

 

De modo geral podemos afirmar que as atividades ao ar livre, em família ou pequenos grupos, expõem a menor risco que as atividades em ambientes fechados. Depois de um período em que a atividade física para a grande maioria das crianças foi reduzida torna-se importante voltar a adquirir hábitos de vida saudável reduzindo o sedentarismo e a obesidade infantil. Também surge uma boa oportunidade para incentivar a leitura em alternância com a atividade física.

Esta pandemia, pode e deve ser aproveitada para uma reflexão profunda, que nos permita sair dela mais fortes, quer em termos individuais, quer em termos coletivos. As crianças têm uma grande facilidade de adaptação a novas realidades e, embora questionem os motivos, frequentemente nos surpreendem pela sua capacidade de superação. É da responsabilidade dos pais, professores e sociedade em geral transmitir a realidade com confiança, esperança e serenidade, promovendo o crescimento das nossas crianças em ambiente saudável.

 

Arminda Jorge, Pediatra

 

Leitura suplementar

Orientação nº 025/2020 de 13/05/2020, DGS

Saúde e atividades diárias, Medidas Gerais de Prevenção e Controlo da COVID-19, 14/05/2020, DGS

- 29 jun, 2020
- Arminda Jorge, Pediatra