Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 431

À espera de 45 mil milhões ligados à «maquina» Voltar

Vem aí a «grande oportunidade» dos 45 mil milhões para a economia nacional, como anunciado pelo Primeiro-Ministro António Costa e aplaudido pelo Presidente da Républica, Marcelo Rebelo de Sousa. Concordo que será uma excelente oportunidade para refundarmos a nossa economia. Porém, não acredito que essa refundação possa passar só pela visão de uma única pessoa e nem estar assente numa visão estratégica genérica como nos foi apresentada há alguns dias, deixando de fora alguns setores, como foi por exemplo de grande evidência o comércio e os serviços. Todos os agentes –  sejam eles públicos, privados ou sociais – terão de trabalhar no planeamento, na conceção de uma visão estratégica e na criação de novos processos mais modernizados.

No entanto, até chegar essa aclamada «grande oportunidade», até ao final do primeiro trimestre de 2021, o grande desafio nacional residirá na sobrevivência de toda uma economia fragilizada, que não poderá parar caso tenhamos que enfrentar uma segunda vaga da pandemia, das empresas e de manutenção dos postos de trabalho.

Avizinha-se uma crise pior que a de 2008. A grande diferença é que esta crise foi anunciada por uma pandemia e não chegou de rompante, sem avisar. Quero, por isso, acreditar no Governo quando nos diz que a austeridade não será o caminho para a crise que aí vem. Sendo eu um pouco menos otimista que o Sr. Primeiro-Ministro, creio que possa ser uma evidência antes do final do último trimestre deste ano. O Estado terá de ter a capacidade de injetar dinheiro nas empresas, muito mais celeremente do que o tem feito até aqui. Terá de ser rápido neste processo porque a cada dia que passa aumenta o seu custo e porque ficará mais barata a manutenção de postos de trabalho, em vez de injetar o dinheiro no nosso sistema de Segurança Social.

Como nos dizem os manuais, a economia sobrevive da confiança, algo que neste momento escasseia. Se não a há, não há retoma. Os portugueses já perceberam o que estamos a viver. Hoje temos já dados que indicam que os consumidores não têm confiança, assistimos à retração do consumo e, por outro lado, ao aumento das poupanças, por causa das perspetivas de despedimentos, dos próprios ou dos filhos ou familiares, que poderá ser necessário ajudar.

No contexto da nossa região, agrava-se a situação económica das nossas empresas, nomeadamente no comércio e nos serviços, num território que é afetado pelo despovoamento todos os anos. Estamos a perder os nosso consumidores internos, os que existem não têm confiança para consumir e, a ajuntar-se a isto, faltam-nos os consumidores externos, nomeadamente aqueles que poderíamos estar a receber por via do turismo e que não chegam, devido ao atual contexto económico-financeiro e, numa visão mais alargada, por exemplo também às restrições de outros países nas aberturas de linhas aéreas e da implementação de quarentena para quem visita Portugal.

Concordo com a quase totalidade do documento, com a visão estratégica global do plano de recuperação económica apresentada por António Costa e Silva, e com esta radiografia do consumo interno, mas entendo que está incompleto, dado que ficou aquém das expetativas no que respeita ao comércio e aos serviços. Defendo, também, que será crucial haver apostar fortemente numa estratégia para o conhecimento, aproximando de uma vez por todas as universidades e os politécnicos aos meios empresariais, não só pelos resultados que representa para a inovação e conhecimento das empresas, mas também porque será uma forma eficiente de fixação de pessoas nas regiões onde estão esses centros de conhecimentos.

Voltando aos 45 mil milhões de euros, existe um grande desafio para Portugal. Como nos demostram os números, o nosso país tem sempre uma enorme dificuldade com a taxa de execução de projetos e de fundos. Com esta operação, a exigência será ainda maior e uma das formas de sermos bem-sucedidos no âmbito desta «grande oportunidade» será o Governo identificar onde estão os parceiros com capacidade de execução e com a eficiência que será exigida.

Não tenho dúvidas de quem serão os parceiros. Serão com certeza as associações empresariais, com o seu know how de longa data e enquanto agentes que todos os dias estão no terreno ao lado das suas empresas. As associações empresariais são as entidades certas para auxiliar no aparecimento de projetos de grande qualidade, na boa utilização dos fundos e serão os grandes elos de ligação entre o conhecimento e as empresas. Mas, para que esta tal possa resultar, também as associações empresariais terão de se reajustar e encontrar novos e inovadores modelos de atuação e de aproximação junto dos empresários. Terão igualmente de se organizarem e cooperarem entre si, sem se olharem como entidades concorrenciais e sem realizarem intervenções com sobreposições de respostas territoriais. Ao serem capazes desta transformação, até normativa, acredito que estas entidades, muitas delas seculares, conseguirão voltar ao lugar que foram perdendo, aumentando assim o peso institucional e melhorando-se como interlocutores ideais das empresas que representam, dos empresários locais, regionais e nacionais.

- 01 ago, 2020
- Henrique Gigante