Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 431

Vasco Guerra e Vasco Roseiro, os dois homens fortes do futebol do Idanhense em entrevista Voltar

FUTEBOL. Vasco Guerra, treinador do Idanhense, e Vasco Roseiro, diretor desportivo da equipa, anteveem próxima temporada e abordam construção da equipa para corresponder aos objetivos, não fugindo às recentes polémicas que envolvem o clube

 

VASCO GUERRA

“Um clube como o Idanhense é sempre candidato nesta competição”

Jornal Fórum Covilhã (JFC) - Deixou de ser jogador e passou diretamente (e até chegou a realizar ambas em simultâneo) para fora das quadras enquanto treinador. Podemos dizer que o “bichinho” do futebol falou mais alto?

Vasco Guerra (VG) - Comecei a jogar futebol federado com nove anos e deixei de competir aos 33. Foi um percurso desafiante e transformador a todos os níveis. Devo muito ao futebol e o gosto pelo jogo levou-me a tirar o primeiro curso de treinador em 2005 quando tinha 22 anos e enquanto me licenciava em Ciências do Desporto na bonita cidade da Covilhã. Esta acumulação de funções fez-me acima de tudo refletir sobre o planeamento e operacionalização do treino e também perceber os meus limites enquanto ser humano. Quando deixei de jogar continuaram a surgir oportunidades para treinar e mais recentemente fui convidado para o Clube União Idanhense, clube com o qual vou continuar a trabalhar.

JFC - O Idanhense reforçou-se e tem muitos jogadores novos para esta temporada. Quais são os objetivos delineados para o que aí vem?

VG - Em primeiro lugar temos de saber quando começamos e se há condições para salvaguardar a saúde de todos porque há ainda muita incerteza em relação aos campeonatos não profissionais. Depois disso, o primeiro objetivo é fazer com que um conjunto de jogadores que chega a um clube que desconhece se consiga unir e cooperar para um objetivo comum que deve respeitar a história e dimensão do clube. Um clube como o Idanhense, atendendo ao seu historial é sempre candidato nesta competição. Como tal pretendemos ser melhores que as outras equipas dentro de campo, não olhando a orçamentos, equipas adversárias ou questões extrafutebol. Estes são temas que não interessam e embora saiba que há outras equipas com a mesma ambição o nosso foco será melhorarmos semana após semana.

JFC - Num campeonato distrital em que o jogo é ainda mais físico do que técnico, é possível colocar as equipas a jogarem de forma apoiada com qualidade ou é mais proveitoso apostar num futebol mais vertical?

VG - A questão está intimamente ligada a um conceito: rendimento. É discutível se é mais físico ou técnico, mas aquilo que pretendo enquanto treinador é rentabilizar os recursos que tenho porque assim estou mais perto de ganhar. No jogo jogado deves olhar da mesma forma, isto é, tu até podes querer que a equipa jogue “de forma mais apoiada” ou “vertical”, mas se não tens jogadores que rentabilizem esse padrão de comportamentos tens duas opções: ou ajustas ou vais ter quebras no rendimento. Portanto, as equipas podem tentar privilegiar a posse de bola ou o jogo direto, mas se os jogadores não forem competentes em tudo o que envolve esses comportamentos vai ter custos muito grandes e vai influenciar negativamente o rendimento. Coloco uma questão para quem defende o modelo de jogo do treinador: a operacionalização desse modelo é igual quando trabalha em equipas para subir e para não descer? Eu acredito mais no modelo de jogo dos jogadores, uma operacionalização diferente, mas que acredito ser mais rentável.

JFC - A equipa foi convidada para participar na Taça de Portugal, algo que é sempre um sonho cumprido para qualquer equipa dos campeonatos distritais. Qual é a sensação de participar nesta prova como treinador? Até onde pode ir este Idanhense?

VG - Creio que a principal sensação será de sentimento de responsabilidade por representar o Clube União Idanhense na prova rainha. Depois, independentemente do adversário vamos procurar ir até onde for possível sabendo que à medida que avançamos vamos defrontar adversários com outros recursos e qualidade. Se chegarmos a essa fase vamos desfrutar e aproveitar para evoluir com as dificuldades que essas equipas nos criarem.

JFC - As equipas do distrito têm tido cada vez melhores resultados nas competições nacionais. Isso é reflexo de trabalho bem desenvolvido na nossa região?

VG - Acredito que há muita dedicação e ambição no nosso distrito e os resultados nas competições nacionais são o reflexo disso mesmo. Com menos recursos conseguimos muitas vezes fazer igual ou melhor que clubes de outras zonas do país. Isto é sinónimo de competência. Considero que o passo seguinte para nos diferenciarmos será planear a médio/longo prazo, algo que na maioria dos clubes arrisco a dizer que não acontece. Para que isto aconteça é preciso um projeto sustentado e reunir pessoas competentes nas diversas áreas de intervenção.

 

VASCO ROSEIRO

“Sempre quis ficar ligado ao futebol assim que deixasse de jogar”

Jornal Fórum Covilhã (JFC) - Deixou de ser jogador e passou diretamente para os quadros do Idanhense. A ligação ao clube e ao futebol distrital falaram tão alto que não queria deixar este mundo para trás?

Vasco Roseiro (VR) - Sim, estive quatro anos no Idanhense e fui quatro anos capitão, tive sempre um grande compromisso e uma grande abertura para com os membros da direção e esse convite foi-me feito e eu aceitei porque achava que devia fazê-lo, independentemente de deixar jogar (o que me custou bastante, mas tinha chegado a hora). O gosto pelo futebol falou mais alto e sempre quis ficar ligado ao futebol assim que deixasse de jogar e neste caso do Idanhense, fazia todo o sentido continuar. É um clube que represento com muito orgulho e que tem confiança em mim e no meu trabalho. Esta época vou dar seguimento a essa confiança e tentar fazer o meu melhor em termos de futebol sénior, com o objetivo de subirmos ao Campeonato de Portugal.

JFC - A ida do Nalerio para o Moradal depois de ter sido anunciada a sua renovação com o Idanhense gerou muita polémica nas últimas semanas. Como explica toda esta situação?

VR - Este jogador tinha um acordo comigo e com o clube, assim como o seu representante, tanto que foi apresentado por nós e foi-lhe dito que se viesse a aparecer um clube de um escalão superior eu dava a minha palavra de que ele sairia sem qualquer entrave, mas não foi isso que se passou. O que mais me custa é ele ter sido apresentado, porque tinha uma ficha assinada connosco, e depois no Águias do Moradal não terem tido a capacidade e o respeito de me ligar, sabendo que ele tinha assinado connosco, para me dizer que iriam levar o Nalerio para lá. Eles nem nunca sequer o viram jogar, isto foi um ato de maldade e foram guiados por lhes terem dito que o miúdo era bom para o influenciarem para ir. Houve cobardia ao fazerem-no nas nossas costas, se um jogador é apresentado num clube é porque há um compromisso e porque há algo combinado. Vamos seguir o nosso caminho e os outros que sigam o deles. Eu não passo por cima dos outros para ter sucesso, há que ter respeito por este clube centenário como o Idanhense nestas situações, porque somos um distrital com cada vez menos equipas e não há necessidades de haver quezílias e mal-entendidos como tem havido. Posso enviar a ficha de inscrição assinada pelo jogador já com a concordância do seu agente para quem diz não acreditar.

JFC - Muitas têm sido as críticas ao Idanhense por apostar em demasiados jogadores internacionais e não dar oportunidade aos jogadores da região e locais. Como reage o Idanhense a essas críticas?

VR - Em relação às críticas que nos fizeram de termos jogadores de nove nacionalidades, isso não é verdade. Temos um jogador do Benim, um costa-marfinense, um espanhol, um cabo-verdiano e dois brasileiros, portanto temos 6 jogadores que poderiam ser considerados estrangeiros no nosso plantel, mas sendo que um é formado localmente e que está há muitos anos em Portugal, até esse já é considerado nacional e, portanto, sobram apenas 5 jogadores estrangeiros. Toda a gente sabe que o clube teve encerrado muitos anos e não tendo formação, sobram poucos jovens disponíveis para o nível que pretendemos e mesmo assim já fomos tendo alguns nestes últimos quatro anos, por isso não acho válidas as críticas, além de que não fechamos as portas a ninguém e todos os miúdos que quiserem têm essa abertura para poderem tentar fazer parte do clube. Estão a tentar denegrir a imagem do clube porque na realidade não é nada disso que dizem que se passa.

JFC - O Idanhense tenciona a longo prazo investir em escalões de formação para disputar as provas distritais? Ou o foco vai continuar a ser os seniores e a sua evolução para lutar por escalões mais elevados?

VR - O clube está seriamente preocupado com a formação e este ano quase de certeza já teremos o escalão de iniciados, porque este ano já temos uma pessoa responsável por coordenar a formação, para a podermos finalmente certificar. O clube está nesta nova direção de Joaquim Chambino que entrou, não descurando o muito que fez pelo clube o antigo presidente João Almeida, decidido em apostar seriamente na formação. Vamos manter os escalões existentes e tentar então fazer essa equipa de iniciados, o que prova que o clube está a crescer ano após ano. Há sintonia entre o meu trabalho e o trabalho da formação, porque o futebol passa por isso, mesmo sabendo que estamos no Interior e que os jovens não abundam. Queremos trazer para o clube cada vez mais jovens para que possam prosseguir a vida futebolística em conjunto com os estudos. Temos cerca de 200 atletas no clube já em várias modalidades, o que demonstra essa nossa vontade crescente.

- 28 jul, 2020
- Fernando Gil Teixeira