Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: IX
Nº: 444

«Mysteria e o Feitiço da Aldeia» aos olhos de quem o tornou real Voltar

“Mysteria e o Feitiço da Aldeia” aos olhos de quem o tornou real

REPORTAGEM. O Jornal Fórum Covilhã foi falar com quatro dos rostos responsável pelo novo filme, rodado na Vila do Carvalho, na Covilhã. O realizador (João Morais Inácio) e três atores (João Morgado, Leonor Mendes e Adriana Pais) falaram sobre a experiência, o processo e o produto final numa entrevista muito especial.

 

 

João Morais Inácio, realizador

JFC: Como é desenvolver cinema num meio tão isolado como o nosso em termos culturais e num país também ele muito pouco dado à produção de cinema nacional? Quais os desafios?

JMI: Desenvolver cinema no meio onde estou é difícil. Existem poucos apoios para o audiovisual e é difícil conseguir apoios de fora. Talvez ainda não tenha encontrado a porta certa para produzir cinema com mais financiamento, pois cinema faz-se com orçamentos muito elevados e eu fiz este filme apenas com 2.000 euros, para os atores que vinham de fora, para que o filme ganhasse outro nível e outra projeção. É muito complicado entrar no mercado de festivais de cinema, pois estão canalizados para filmes de autor e não comerciais, sendo que o meu filme é muito comercial. Inscrevi o meu filme em vários festivais, uns dez, e acabei por não ser escolhido para nenhum por isso mesmo. Tivemos mais de 17.000 visualizações no lançamento online do filme e boa aceitação do público e custa-me entender o porquê dessa não chamada. No filme que produzi anteriormente senti facilidade em encontrar locais e a boa vontade de muita gente para ajudar. Neste filme tive muita gente envolvida e reparei que algumas pessoas acabaram por não ajudar tanto como disseram que fariam. Foi um desafio ter de lidar com esse elemento surpresa e tive de contornar com diversas opções alternativas (efeitos especiais, música, dobragem etc.).

JFC: Conte-nos mais sobre esta história, os locais onde se passa e como a concretizaste no filme.

JMI: O filme centra-se em diversas lendas e expressões da nossa região e em específico em Cantar-Galo e Vila do Carvalho. Remeti ao passado e às conquistas que Portugal conseguiu durante as conquistas aos mouros e tentei ligar todos esses elementos para que fizessem sentido. Peguei em vários contos dessa época e usei-os para criar uma só história, nomeadamente a da Princesa Moura, que faz um acordo com a Bruxa Otília para poder andar entre os demais sem ser notada, tendo resultado e tendo até conseguido casar com Franklin. A união destes dois fez com que toda a energia da região acabasse, tanto a magia como a imaginação da região acabaram. As duas freguesias foram utilizadas, principalmente a Vila do Carvalho, por ter os elementos naturais ideais para a história, nomeadamente a ribeira.

 

João Morgado, ator

JFC: Como foi a experiência de participar num filme tão importante para a região e recriar histórias míticas e tradicionais num ambiente tão familiar?

JM: Foi de facto difícil fazer a realização deste filme, porque temos uma equipa de atores enorme, e “a man with a cam”, a fazer tudo acontecer. Penso que contar mitos e lendas é também importante nesta atual sociedade, para podermos fantasiar e lembrar menos a cruel realidade. Por outro lado, até parece que o filme conjetura o futuro, um feitiço que vai contaminar uma aldeia toda, que no mundo atual tem outra designação apenas. No fundo este filme foi importante, pois permitiu desenvolver talentos e mostrar alguns que já existiam embora um pouco escondidos, por falta de oportunidade de os mostrar na região, onde há pouca procura na área da cultura.

JFC: Imaginas-te no futuro a trabalhar em representação? Porquê?

JM: Consigo apenas integrar a representação como um hobby na minha vida, pois a fraca procura não sustenta a vida artística no interior. De qualquer modo, a minha reflexão é positiva. É um trabalho conjunto, com atores profissionais e amadores, além do mais realizado na Covilhã, cidade querida da maioria dos participantes, e visto que até agora só foi disponibilizada em meios digitais, leva o nome da cidade montanha um tanto mais longe.

 

Leonor Mendes, atriz

JFC: Como foi ser personagem principal de um filme que tem ganho muita dimensão na região?

LM: Ser a personagem principal de um filme com uma grande dimensão na região, foi incrível. Confesso que no princípio eu nem estava a acreditar que ia passar a ser uma personagem principal de um filme, saber que ia ter que passar de uma Leonor para uma Mel, ambas muito diferentes, mas que se construíram uma à outra. E algo que me deixou bastante feliz e emotiva foi trabalhar com atores profissionais, que me ajudaram bastante. Foi um grande passo na minha vida, que me fez crescer interiormente.

JFC: Gostarias de continuar a fazer representação mais profissional no futuro? Porquê?

LM: Gostaria de continuar a representar de modo profissional no futuro, porque é um dos meus maiores sonhos. A representação tornou-se parte de mim, sempre foi algo que eu gostei, e ter sido esta personagem no filme fez-me acreditar que estou mais perto de alcançar este sonho.

 

Adriana Pais, atriz

JFC: Como descreves a experiência que foi participar neste filme?

AP: Foi uma experiência bastante diferente das anteriores, uma vez que era menos dentro do realista e mais para o fantástico, fantasia ou como quisermos interpretar/descrever este Mysteria. Apesar de tudo foi um grande desafio, pois tive de procurar dentro de mim referências que não tinha.

JFC: Imaginas-te a fazer este no futuro a nível profissional?

AP: Sim, sem dúvida. Apesar de ser atriz profissional, a minha experiência no cinema é recente e muito pouca ainda, mas tem sido uma descoberta incrível e tem-se revelado uma grande paixão, portanto, espero vir a continuar a fazer cinema daqui para a frente.

- 18 nov, 2020
- Fernando Gil Teixeira