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Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: VII
Nº: 352

Jornalismo Regional: um projeto para o futuro Voltar

16 anos ininterruptos de práticas de jornalismo, 20 de reflexão e investigação sobre media permitem-me concluir, de consciência tranquila, que o jornalismo em geral passa por uma das maiores crises de crescimento de que há memória.

Quando me refiro a crise, refiro-me não apenas ao lado destrutivo e aos sinais de degradação. Refiro-me também às novas oportunidades e desafios e à mudança que se instalou no meio desta profissão.

O o modelo industrial de jornalismo, tal como o conhecemos até ao final do século XX e vai resistindo até ao final da segunda década do século XXI, começou ao redor de  1820 com o modelo da publicidade assente em pequenos anúncios.  Foi isso que permitiu fazer chegar às novas classes populares urbanas um produto escrito a preços acessíveis. O jornal era vendido duas vezes: uma vez, ao anunciante; a segunda, ao comprador ou assinante quando parte do seu preço de custo já tinha sido amortecido.

A Rádio e a Televisão no campo do Jornalismo ou seguiram o campo do patrocínio e da publicidade ou o modelo de serviço público de rádio e de televisão assente no pagamento de uma taxa.   Por sua vez, alguns deste modelos incluíram a simultaneidade entre as taxas de radiodifusão e a receita publicitária (uma espécie de parceria público-privada avant la lettre que já prenunciava alguns dos defeitos deste modelo de gestão).

Finalmente, a Imprensa Regional variou muito no seu destino: basta ver que em Espanha, Estados Unidos, França, Itália e Reino Unido dispõe de jornais regionais ou publicidade fora da capital administrativa que dispõe de forte circulação nacional ou de dimensão nacional: Baltimore Sun , La Vanguardia, Ouest-France, La Stampa, etc.

O único jornal de forte enraizamento regional em Portugal que circula em todo o país é o JN. Todos os restantes são de Lisboa. Na realidade, a Imprensa Regional em Portugal serviu muito mais para classificar empresas de pequena e média dimensão que mais facilmente caberiam na classificação de jornais locais. Muitos destes jornais continuaram a exibir um fraco nível de profissionalização ao nível dos conteúdos e do modelo de negócio...

Não cabe aqui falar dos esforços políticos para mudar esta situação.   Vale apenas salientar que nos últimos anos, as profundas transformações económicas tecnológicas trouxeram muitas novidades: a) multiplicação de plataformas de exibição de conteúdos noticiosos, graças ao online; novos hábitos produtivos resultantes da chegada do computador e, finalmente, da distribuição por Internet; novos modelos de negócio, resultante de confluência destes e de ouros motivos.

Uma imprensa forte, a meu ver, é sinal de uma sociedade civil forte. Implica empresários empreendedores, capital, independência editorial e profissionais bem formados e remunerados. Portugal, no jornalismo, não é , frequentemente um exemplo disso.

Adicionalmente, a estrutura da imprensa regional portuguesa, nomeadamente da imprensa beirã reflecte o modelo de desenvolvimento assimétrico que é uma das pechas deste país: um pais de risco ao meio (Fernando Paulouro dixit) onde as realidades regionais mais competitivas coincidem com a a existência de órgãos de comunicação regionais mais fortes (Leiria , Coimbra e Minho, por exemplo).   Apesar desta divisão, a imprensa da Beira vai mostrando uma interessante resiliência gerando títulos relativamente novos (O Interior, ou este jovem Fórum)  ou mantendo alguma Imprensa mais antiga com novos proprietários (JF, ou Notícias da Covilhã).

A Beira é dos sítios do País onde este modelo de Imprensa maior resistência e hábitos mais enraizados suscita. Todavia, não sejamos cegos: ou os desafios acima descritos vão ser enfrentados, ou iremos assistir a encerramentos e fusões. 

Foi nesse sentido, que apresentamos enquanto investigadores da UBI e do Labcom.IFP um projecto ao Programa Operacional Centro e à Fundação para Ciência e Tecnologia, constituído por vinte pessoas, com recursos humanos, financeiros e materiais próprios para realizarem experiências de relacionamento entre os media tradicionais e os novos meios digitais. Os meios tradicionais podem encontrar formas de complementar as suas edições com edições parciais ou totais online, disponíveis na NET, nos computadores e telemóveis.   Os novos meios podem encontrar apoio para o seu lançamento e incubação.  O Remedia. Lab – Laboratório e Incubadora de Meda Regionais -não pretende nem pode fundar jornais nem formar empresas.

 Pretende ajudar colocando os seus recursos humanos, materiais e financeiros na análise de modelos de negócio, na produção de novas formas de escrita e na introdução de novas ferramentas tecnológicas. Sendo um dos projectos melhor classificados na Região Centro pretende ser um pequeno contributo para juntar Universidade e empresas. Seja bem-vindo quem vier por bem, quem não tema o risco e quem não se julgue dono de toda a sabedoria.  Coincidiram os primeiros passos deste projecto com o aniversário deste Fórum. É bom augúrio. Mas isto não pende de adivinhações: antes de trabalho e de planificação.

 

João Carlos Correia

- 27 Nov, 2018