Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: VII
Nº: 373

De Portugal para um futuro em Londres Voltar

SUCESSO. Esta semana trazemos-lhe um pouco de Londres, Ana Pio é natural do Fundão e licenciou-se em Cinema na Universidade da Beira Interior, atualmente vive em Londres onde exerce a sua profissão no Mundo do cinema

Desde pequena que tem contacto com o mundo das artes, aos cinco anos de idade Ana estudou piano e confessa que sempre teve um gosto especial pelo desenho e pintura. A cineasta é uma pessoa determinada e sabe bem aquilo que quer, tem três irmãos, e sendo a irmã do meio a mesma explica que, “definiu muito quem sou hoje, não tenho medo da maior parte das circunstâncias da vida que, ao olhar à minha volta, reparo que afeta muito outras pessoas”. O seu crescimento na região do Interior do país fez com que Ana se apercebesse da sua naturalidade, e rotulando o seu crescimento mesmo como “agridoce”, a que mesma refere que, “existia a liberdade, o ritmo de vida de que tenho imensa saudade, mas no entanto no Interior existem sérios problemas sociais, o facto das pessoas se focarem tanto em criticar o que o vizinho faz em vez de olharem para os seus próprio comportamentos”,  foi algo que incomodou a cineasta no seu crescimento e ainda o sente quando volta a Portugal.

Ana Pio é licenciada em Cinema pela Universidade da Beira Interior, que complementou com um semestre em Erasmus na Universidade de Lincoln, no Reino Unido. Mais tarde foi para Londres tirar um mestrado em Realização, na Met Film School. A fundanense retira da sua experiência académica algo positivo. “Acho que o meu percurso académico me deu as bases perfeitas para agora trabalhar na indústria do cinema”. Licenciada em Portugal e mestre em Londres, Ana Pio mostra-nos a diferença entre as duas culturas, bem como as bases de ensino, “o curso em Portugal é generalista, oferecendo oportunidades para experimentar de tudo um pouco para que se possa descobrir a área que se quer seguir”. No último ano a cineasta contou ainda com o apoio do Instituto do Cinema Português sendo financiada para realizar o seu filme de licenciatura, referindo ainda que o mestrado em Londres, “ofereceu-me uma especialização com influências Britânicas e Americanas”.

A opção de escolher a área do cinema surgiu a Ana da vontade a que mesma desde pequena tinha de seguir artes, “no entanto quando se fala em artes em Portugal, as opções sugeridas são bastantes limitadas”, explica ainda. Possuindo o gosto pelas artes, a jovem cineasta não tinha o desejo de ser pintora, arquiteta ou escultora, e confessa que com a ajuda da sua mãe descobriu que a sua paixão viria a ser o cinema, “é uma área que celebra todas as artes, hoje posso juntar o meu passado musical, com o meu amor pela fotografia e pela pintura, com emoções humanas e com o meu sentido político de justiça”.  

Antes de ter ingressado no ensino da cinematografia, Ana Pio estudou ainda Direito, na Universidade de Coimbra, depois do ensino secundário decidiu colocar o curso das leis como sua opção. Mas decisão que não teve muito fundamento algum tempo depois a que a própria explica que, “não me identifiquei com as pessoas, não acreditei na importância do curso e recusei-me a viver uma vida infeliz”.

Quando finalmente percebeu aquilo que a fazia feliz candidatou-se à Universidade da Beira Interior, e que nos revelou ter sido a sua única opção. Quando se candidatou a primeira vez à universidade, em Coimbra colocou também apenas uma opção, “existe algo libertário em ser eu a decidir o meu futuro e não uma nota ou alguém do outro lado do sistema”. Após alguma pesquisa, com o desejo de voltar a uma cidade mais pequena e de frequentar um curso público, Ana apercebeu-se de que “na área do Cinema, a Covilhã tinha o melhor curso”.

Enquanto ainda prosseguia os seus estudos, a cineasta tinha o desejo de estudar no estrangeiro, tendo um semestre em Londres onde agora reside, depois mais tarde decidiu tirar uma especialização e foi aí que regressou novamente ao Reino Unido, “não senti que Portugal oferecesse uma especialização decente em lado nenhum”. Apesar de estar longe do seu país de origem, Ana sente que tem consigo sempre um pouco de Portugal, “tenho imenso amor e amigos, alguns deles portugueses o que me mantém o contacto com os nossos valores”. Viver em Londres tem sido uma experiência agradável segundo o que a fundanense nos transmitiu, “sinto que o número de oportunidades é infinito, o que me expande como pessoa”. Mas apesar de ser feliz na cidade londrina, a jovem tenta manter sempre o contacto com a sua família em Portugal, visita o seu país de origem duas vezes por ano mas confessa que, “custa sempre voltar para Londres, estar fora significa que tenho duas casas para onde tenho que voltar constantemente”.

Em Londres Ana trabalha como Script Supervisor, na Indústria da Televisão e Cinema, “o Script Supervisor é a pessoa que se senta ao lado do realizador durante as rodagens e o relembra do que falta”, explica a jovem. Durante quatro meses esteve a trabalhar numa séria da BBC/Amazon intitulada de «Good Omens», “espero que chegue a Portugal” confessa. Em realização a cineasta do Fundão andou durante dois anos a distribuir a sua curta-metragem do final de mestrado intitulada de «Eden», por mais de 20 festivais, de onde resultou a venda do seu trabalho para a televisão com a Shorts International, durante três anos. No momento atual Ana desenvolve a sua primeira longa-metragem intitulada «Mother Nature», que confessa, “ter financiamento no próximo ano”, e terminou recentemente as rodagens da sua nova curta-metragem “Wordless”. Para além de todos os trabalhos da jovem cineasta, a mesma integra a equipa dos prémios BAFTA, candidatou-se este ano tendo sido selecionada, fazendo parte da BAFTA Crew.

Perguntámos a Ana qual a diferença do cinema português para o do  Reino Unido, sendo que a mesma responde que, “em Portugal e embora certas coisas sejam mais fáceis que no Reino Unido, outras não resultam de todo”, acrescentando ainda que, “o financiamento em Portugal é muito fechado, e o círculo de apoios acabou por ser de amigos, família e das instituições do Fundão, que foram fantásticos”. Comparando com o cinema londrino Ana acrescenta ainda que, “em Londres existe respeito de responder, mesmo que a resposta seja negativa, tudo é organizado e definido, o financiamento é mais simples mas existem também imensas restrições, leis e regras”.

Com as malas feitas para outro país de modo a procurar algo que lhe assentasse melhor no currículo a cineasta não vê grande futuro na área do cinema em Portugal, “não existem os fundos ou infraestruturas para uma indústria de cinema”. Um dos fatores que a levou a procurar Londres como sítio para expandir o seu currículo foi por parte de que, “como mulher e beirã, não posso contar com Portugal para fazer cinema, pelo menos ainda não, talvez no futuro”.

Ana Pio confessa ainda que nos seus planos futuros voltar a viver na região não faz parte da sua lista, tem o desejo de ir viajar, sair da Europa, “ver um pouco do Mundo”. Quer continuar a viver no Reino Unido para realizar a sua longa-metragem, mas deixa ainda um pequeno desejo de pretende continuar a voltar ao Fundão de férias, “talvez mais prolongadas, adoraria voltar a filmar no Interior, quiçá um dia”.

- 05 Mar, 2019
- Rita Mateus
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