Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: VII
Nº: 387

História com Sentido (s); Todos os caminhos vão dar a Roma... Voltar

Os romanos chegaram à Península Ibérica em 218 a.C. no contexto da guerra que travavam com os cartagineses pelo domínio do Mar Mediterrâneo. Com a derrota de Cartago começa o processo de conquista e domínio do território que ocorre do sul para o interior e para a costa. Tal processo não foi pacífico uma vez que os romanos se depararam com a resistência dos povos da região, arrastando-se os conflitos durante quase dois séculos. A Pax Romana é decretada no tempo de Augusto que governou a partir de 27 a.C. e que haveria de dar origem a um longo período de pacificação dos territórios dominados pelos romanos.

No que diz respeito à Península Ibérica, Augusto divide-a em três províncias. A Lusitânia corresponde mais ou menos ao território atual de Portugal entre os rios Douro e Guadiana e estendia-se até à Extremadura espanhola. A sua capital era Emerita Augusta (Mérida). A província é por sua vez dividida em três conventus jurídicos às quais se deveriam subordinar as civitates da área que corresponderiam a cidades capitais dominantes e às quais, por sua vez, se deveriam submeter outros núcleos populacionais mais pequenos. Esta nova forma de organização numa estrutura de poder em níveis sucessivamente inferiores tinha como objetivo a união politica e administrativa do vasto território e a ideia de submissão de toda a população. Os romanos fomentam a transformação de núcleos tribais em núcleos urbanos de diversos níveis e estimulam as elites locais a inserir-se no novo quadro social, politico e administrativo do Império. Com vista à unidade do território imperial procede-se à demarcação jurisdicional dos territórios, criam-se várias civitates e constrói-se uma rede viária que permita a comunicação entre os vários centros de poder garantindo o funcionamento eficaz do sistema.

A influência romana fez-se sentir nos mais variados aspetos desde a arquitetura e organização do espaço à arte, decoração e religião e à difusão do latim. A economia de subsistência das populações é substituída por grandes unidades de produção agrícola e pecuária que abastecem os centros urbanos. O artesanato primitivo é substituído pela industria (cerâmica, mineração, tecelagem, atividade pesqueira, extração do sal) e dá-se o incremento do comercio sustentado por uma rede viária que liga os principais centros e pela grande quantidade de moeda que passa a circular. Todo este processo decorre a par com a miscigenação com as populações nativas.

Contudo, foi nas regiões do sul e litoral que este processo foi mais eficaz pois no interior, as características particulares do território colocam em questão a base da ocupação romana. As terras do interior eram pobres e encontravam-se longe de centros urbanos pelo que tudo indica que nesta área os habitantes estariam organizados em pequenas comunidades rurais cuja economia se manteve de subsistência. Aqui as terras estariam estruturadas em torno das suas quintas/casas rurais que por sua vez se encontravam sob a influência dos vicus - aglomerados urbanos de pequenas dimensões. Assim, não é fácil identificar capitais regionais do período romano na Beira Interior uma vez que esta região seria sobretudo constituída por pequenas quintas e por pequenos aglomerados urbanos numa zona de população dispersa com recursos escassos. Os lideres destas pequenas comunidades autóctones terão sido estimulados a integrarem a rede de poder do sistema romano assumindo papeis no governo local e enquanto representantes políticos e intermediários entre a população rural e a administração romana.

Na Cova da Beira existem cerca de 300 sítios identificados como sendo da época romana.

Um dos locais arqueológicos que se reveste de particular importância é o sítio do Templo Romano de Orjais, junto à Capela de N. S. das Cabeças. A ocupação do local é pré-romana, relacionando-se com o Castro de Orjais que se encontra muito perto. Podemos estar perante uma apropriação romana de um espaço já consagrado a divindades locais e onde foi construído um templo a Júpiter. Os cultos terão aqui coexistido dado terem sido também encontradas inscrições pertencentes a divindades indígenas.

Outro local incontornável do período romano é Centum Cellae em Belmonte, que deu azo às mais variadas teorias acerca da sua utilização. Atualmente, é consensual que este edifício faria parte de um conjunto mais complexo de estruturas edificadas em meados do século I, para residência (villa) de um abastado negociante de estanho.

O local da Quinta Romana de Terlamonte permite lançar luzes sobre o modo de vida dominante dos habitantes da região. Construída em meados do sec. I, esta exploração agropecuária, de carater familiar estaria inserida numa área rural onde existiriam outros núcleos rurais autónomos de pequenas dimensões que seriam em grande medida autossuficientes. Terá pertencido a uma família que a explorava junto com alguns servos com vista ao consumo próprio. Foi possível verificar a existência da prática de fiação e tecelagem, transformação e produção agrícola, fundição, lagar e manufatura de pequenos utensílios. O número elevado de pesos de tear encontrados sugerem, contudo, não só a produção artesanal de fios e tecidos para consumo familiar, mas também, possivelmente, o escoamento de excedentes para os mercados locais e a importância da criação de gado ovino e da tecelagem no quadro das atividades domésticas da quinta. De referir ainda os vestígios de elementos de moagem utilizados na produção de farinha para consumo domestico que indicam o cultivo de cereais e apanha de bolota. Curiosamente não foram encontradas quaisquer moedas no local o que coloca a questão da possível troca direta de produtos.

Finalmente não poderá deixar de se referir a importante rede viária romana na região da qual ainda existem diversos vestígios, nomeadamente na Covilhã onde se encontra um troço de calçada de cerca de 50m sob o asfalto junto à Estação da C.P.,

As escavações demonstraram que a generalidade dos sítios romanos da Cova da Beira foi abandonada entre os séculos IV/V d.C.

                                                                                                         Carina Borges Abreu

 

- 03 Set, 2019
- Carina Borges Abreu