Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: VII
Nº: 396

História com Sentido (s); Honrar os Ancestrais…. Voltar

Os dias entre finais de Outubro e inícios de Novembro são marcados por diversas comemorações e rituais cujas origens se perdem na história da consciência e da identidade dos povos. Vive-se o momento do ano de lembrar e honrar os nossos ancestrais, de contemplar os mistérios da vida, da morte e da regeneração. São inúmeras as culturas que têm tradições e celebrações durante estes dias, sendo que todas têm como foco comum a reunião da família com o intuito de lembrar e celebrar a vida de entes queridos que faleceram. As origens destas celebrações perdem-se na historia ancestral das culturas europeias pré-cristãs.

Sabe-se que o ano estaria dividido em duas partes -  a fase escura e a fase luminosa, sendo que estes dias marcam o inicio da fase escura do ano. A morte da natureza surge como essencial à continuidade e à regeneração da vida uma vez que a decomposição será a base para a fertilidade do solo que irá nutrir a vida no próximo ciclo de luz. Podemos assim encontrar diversos ritos e manifestações sagradas que fazem parte da cultura europeia que celebram a morte da natureza como parte essencial do renascimento que ocorrerá cerca de seis meses depois. Estas manifestações reportam para o ciclo eterno de morte e renascimento da natureza, sendo que esta fase do ano está associada à morte, o tempo das ultimas colheitas, quando os campos ficam vazios e a natureza começa a morrer e, provavelmente, a época em que se matavam alguns animais de forma a preservar a sua carne para os dias do Inverno.

O antecedente europeu do Halloween/Dia das Bruxas é o Samhain, palavra de origem gaélica que significa “fim do Verão”. Na tradição galaico-portuguesa é designado por Samonios e refere-se às celebrações dos tempos pré-cristãos que entre finais de Outubro e inícios de Novembro, marcavam uma viragem na roda do ano para a fase da escuridão.

Mais tarde o Cristianismo veio marcar para esta altura o Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados para lembrar os santos, mártires e cristãos, que morreram ao longo do tempo.

 

O Halloween/Dia das Bruxas está assim longe de ser uma tradição americana ou exclusivamente anglo-saxónica. A palavra resulta, provavelmente da contração do inglês “All-Hallows-Eve” que quer dizer “Véspera do Dia de Todos-os-Santos”. Apesar de nos Estados Unidos estas tradições terem sido levadas essencialmente pelos imigrantes irlandeses, as suas origens são transversais a diversas culturas da Europa desde tempos ancestrais. Na cultura galego-portuguesa é possível encontrar ainda registos e vestígios de diversos rituais que reportam para celebrações ancestrais, pelo que o Samonios e as suas tradições fazem parte do património imaterial galego-português.

Uma dessas tradição é a de escavar uma abóbora ou cabaça e de recortar nela olhos nariz e boca. O “Jack o’Lantern” anglo-saxónico assume por aqui a denominação frequente de “Côca”. Esta figura do folclore galego-português corresponde a um ser sobrenatural, uma espécie de bicho papão com o qual se assustam as crianças e que não tendo uma aparência definida, é representado com uma cabaça onde se faziam olhos, nariz e boca e que se iluminava com uma vela.

Ainda no século XX, o/a “Côca” era parte integrante dos festejos dos Dias de Finados. São referidas tradições que reportam para as chamadas procissões de finados nas quais jovens passeavam com abóboras ou cabaças esculpidas e iluminadas com uma vela no interior. São ainda mencionados os pedidos do Pão por Deus ou Pão das Almas feito por grupos de crianças que também carregavam “Côcas” enquanto pediam pão e bolos numa alusão ao “doce ou travessura” americanos.

Ainda de referir o tradicional Magusto, celebração comunitária que junta amigos e família à volta da fogueira para assar castanhas e beber jeropiga e vinho novo, assim como a matança do porco que terão na sua origem antigos ritos pagãos em que se faziam oferendas às almas dos finados. Este seria também um tempo de gratidão pela colheita anual e de convívio comunitário.

Samhain, Samhuinn, Samonios, Dia de Finados, Dia de Todos os Santos, Dia das Bruxas, Halloween…. Seja qual for a designação, os costumes e tradições desta época estão longe de ser pertença da tradição anglo-saxónica e muito menos uma importação comercial americana estando inscritas nas raízes mais profundas da nossa identidade.  Com a escuridão vem o tempo de nos lembrarmos dos que vieram antes de nós, honrando o seu espirito e a sua sabedoria. Com a morte da natureza celebra-se a vida nova que dela renasce, lembrando-nos que a morte é apenas mais um passo da jornada da existência.

- 05 Nov, 2019
- Carina Borges Abreu