Fundadores: Vitor Aleixo e Ricardo Tavares
Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: VII
Nº: 400

Conservação e restauro de património, pelos olhos de uma covilhanense apaixonada Voltar

ARTE: Beatriz Antunes, jovem covilhanense, desenvlveu esta paixão pelo património e pela possibilidade de o conservar e restaurar há muitos anos e teve a oportunidade de ir para Lisboa estudar exatamente esta área. Encontra-se a tirar o mestrado e dá-nos agora a conhecer um pouco mais deste mundo que embora milenar é ainda uma incógnita para muitos!

 

JFC – Uma jovem covilhanense que sai da sua cidade para estudar em Lisboa é sempre um grande desafio e uma grande mudança. Como foi esse primeiro impacto?

BA – Em primeiro lugar eu não estou a estudar em lisboa, embora a universidade faça parte da rede da Universidade Nova de Lisboa, geograficamente esta está no monte da Caparica. Que em relação com o centro de Lisboa é bem mais calmo e o nível de stress não se sente tanto. Pode-se dizer que o impacto foi positivo. Não tive problemas em me adaptar ao novo meio onde estava inserida. Não quer dizer que tenha sido fácil, mas como tudo na vida há sempre altos e baixos! Tive a sorte de ter o apoio da minha família e de estarem sempre dispostos a me ajudar-me em qualquer situação! Não me posso esquecer também dos meus amigos que vieram estudar para Lisboa e que eram sempre um refúgio onde podia ir matar saudades. 

JFC – O que tinha cá e mais sentiu falta em Lisboa?

BA – Sem duvida a minha família! Todos aqueles que me eram mais chegados!

JFC – Facilmente entendemos que a sua ligação ao mundo da arte, nas suas várias formas, é algo muito presente. É de facto a arte a melhor forma dos indivíduos e de uma sociedade se expressar e cristalizar?

BA – Sim, a minha ligação ao mundo da arte é bastante forte. Posso até dizer que é um privilégio para mim trabalhar neste meio, apesar de ser ainda estudante e já tive a sorte de trabalhar com várias entidades que me permitiram entrar em contacto com belíssimas obras! É importante frisar que enquanto Conservadora Restauradora eu não crio arte e, tanto eu como qualquer pessoa que trabalhe com estas obras de arte (curador, arquiteto, a própria empregada de limpeza que vai limpar a sala onde estas estão expostas etc.) temos uma enorme responsabilidade nas mãos.

JFC – Encontra-se neste momento a tirar mestrado em Conservação e Restauro. Explique-nos melhor a nós e aos leitores em que consiste a arte de restaurar e conservar o património?

BA – Acabei a Licenciatura em Conservação e Restauro (CR) na Faculdade Ciências e Tecnologias Universidade Nova de Lisboa e neste momento encontro-me a tirar o mestrado em CR na mesma faculdade. Posso dizer que tenho um enorme amor pelo que estou a estudar e a desenvolver. Ainda não tenho muita experiência no mundo da CR, mas procuro ser bastante ativa na minha área, estando constantemente a mandar o meu currículo para museus e empresas de CR para que nas alturas em que estou mais disponível possa estar em contacto com o mundo do trabalho. Mas posso dizer que pela minha experiência, o trabalho de Conservador Restaurador não é apenas intervir numa peça, mas sim perceber o que é, o porquê de estarmos a intervencionar e como o vamos fazer. Há muitas éticas envolvidas que o Conservador tem que ter bem claras! E obviamente tem que ter o mesmo cuidado seja o trabalho realizado para uma entidade privada ou para o sector público. Estas intervenções têm que conter sempre relatórios de intervenção, que explicam quais os procedimentos e sempre que possível documentados com fotografias e mapeamentos das patologias, tal como os materiais utilizados que devem ser sempre removíveis. Mas o nosso emprego não é restrito a atelier. Trabalhamos em museus, nos quais temos que saber gerir todo o espólio que se encontra nas reservas. Muitas vezes somos até o ponto de ligação entre várias áreas bastante distintas, como por exemplo trabalhar com o engenheiro/técnico que vai montar o ar condicionado, ao qual temos que saber explicar quais as suas condições  de humidade e temperatura ideais para conservar as peças, assim como explicar à empregada de limpeza que se limpar a sala com água e detergentes perfumados estes vão afectar as peças e o ambiente em que estão envolvidas! Qualquer ato deve ser bem pensado antes de efetuado, já que o que muitas vezes se pensa que não vai ser prejudicial acaba por ser bastante notório e até mesmo destrutivo para a peça a longo prazo! O trabalho é garantir a preservação do património cultural para as gerações futuras!

JFC – É sempre curioso e distinto ver jovens já destas novas gerações terem a preocupação de preservar o que o passado nos deixou. De onde veio essa paixão?

BA – A paixão pela minha profissão veio com o tempo! Sempre soube que o mundo da arte era algo que mexia muito comigo positivamente, assim como mundo das ciências! Quando encontrei este curso tão multidisciplinar que cruza a ciência com a arte, acabei por perceber que era exatamente isto que eu queria para mim! Para além disso ajudo na preservação do património cultural para as novas gerações! 

JFC – Quais são os objectivos no futuro? O que pretende fazer a nível profissional? Voltar ao Interior é uma oportunidade descartada por enquanto? E se fosse convidada a participar em alguns projectos de restauro de património na sua cidade, na Covilhã, seria um convite que veria com bons olhos?

BA – Nunca se sabe o dia de amanhã, eu nunca descarto nenhuma possibilidade e desde que haja trabalho nunca vou descartar a possibilidade de voltar! Em relação a um possível convite, certamente que seria com bons olhos que aceitaria a oportunidade de estar na minha terra e ainda por cima a cuidar do património que esta contém!

 

- 12 Nov, 2019
- Fernando Gil Teixeira