Agosto já chegou ao fim. É, por tradição, o mês do emigrante, o mês em que as aldeias de todo o país, incluindo as da Beira Interior, vazias o resto do ano, voltam a encher-se de gente, de matrículas estrangeiras e de conversas que, muitas vezes, só se lhes entende metade. As Capeias Raianas enchem-se de quem só volta uma vez por ano, e por umas semanas as ruas fingem que o despovoamento não existe. Mas quando setembro chega e as malas fecham-se outra vez, fica a pergunta incómoda: quantos filhos e netos desses emigrantes nunca chegaram sequer a conhecer esta terra? Quantos são, hoje, o produto de uma diáspora que a própria construção europeia tornou possível - fronteiras que se abriram, direito de circular sem visto, uma geração que foi trabalhar lá fora e ficou - mas que, sem querer, foi deixando por explicar as raízes que ninguém mais lhes ensinou a procurar?
Para quem finalmente vem à procura dessas raízes, é muitas vezes a primeira vez que pisa a terra dos avós. E isso devia fazer-nos pensar: a história destas terras não se escreve só com quem cá fica, escreve-se também com quem sai, e com quem já nem chega a saber que tem cá raízes.
Porque a verdade conhece-se: a nossa região está a esvaziar-se, e não é só efeito de quem partiu há quarenta anos. É gente que sai agora. O Presidente da República já chamou ao despovoamento do interior um dos maiores desafios estruturais que Portugal enfrenta. Concelhos como Almeida, Figueira de Castelo Rodrigo ou Penamacor perderam entre 14% e 18% da sua população numa década. A Covilhã, uma cidade universitária, perdeu mais de 10%. Os jovens saem para estudar, para trabalhar, para ganhar um salário que aqui ainda escasseia. Isto não é novidade para quem vive na Beira Interior, nem para outras regiões do país. É o pano de fundo de todos os dias. E, se nada mudar, será também o retrato dos netos que, daqui a trinta anos, virão visitar esta terra em agosto como quem visita um museu.
E é aqui que quero ser clara: a Europa não resolve isto sozinha, e seria desonesto fingir que resolve. Os fundos comunitários que tantas vezes elogiamos (o Portugal 2030, o PRR, a PAC) chegam, financiam, requalificam. Mas um centro de saúde recuperado não substitui um médico de família fixo, e uma estrada nova não segura quem não tem onde trabalhar. Se a Europa se limitar a ser fonte de milhões contratualizados, sem que isto se traduza em emprego qualificado e bem pago aqui, o despovoamento continua, ano após ano, independentemente do que dizem os barómetros de execução.
Onde a Europa acerta, e acerta a sério, é nesta outra imagem, uma que vale a pena olhar de frente, precisamente por ser, às vezes, incómoda: a da mobilidade. O programa Erasmus completou 35 anos em 2022. Em 2026, o Erasmus+ tem um orçamento de cerca de 5,2 mil milhões de euros e prevê apoiar 1,275 milhões de jovens em mobilidades de aprendizagem por toda a Europa. Nos corredores da Universidade da Beira Interior cruzam-se hoje mais línguas do que há vinte anos. Chegam estudantes de mobilidade de meia Europa, atraídos por um programa que Portugal espera triplicar até 2027, financiando, a partir dos fundos do PRR, 15 mil novas camas para o alojamento destes estudantes. São números que, à primeira vista, falam de quem sai. Mas falam, sobretudo, de quem pode voltar transformado, e de quem, mesmo longe, continua a ter o direito de sentir esta terra como sua, e não apenas em agosto.
É esta a dupla face da mobilidade europeia que vivemos todos os dias. Por um lado, ajudamos os jovens da região a partir em Erasmus, a candidatar-se a programas de voluntariado europeu, a descobrir que a Europa lhes pertence tanto quanto pertence a quem nasceu em Bruxelas ou em Berlim. Por outro lado, recebemos os filhos daqueles que partiram há uma geração e mostramos-lhes que esta terra ainda é deles. As nossas terras perdem população, mas não têm de perder as suas ligações, e é nessa rede invisível, de quem sai, de quem fica e de quem volta, que a Beira Interior se torna, afinal, um retrato fiel da própria Europa.
Defendo a União Europeia sem reservas quando ela cumpre o que promete. Mas defendê-la a sério também é exigir-lhe mais: que os fundos deixem de ser só pedra e asfalto, e passem a ser trabalho digno que segure gente, para que a próxima geração de luso-descendentes não precise de vir conhecer as nossas terras como quem visita um país estranho, mas como quem regressa a casa.