Entrevista: D. José Miguel Pereira | “Temos de envolver mais os Leigos na vida da Igreja”
D. José Miguel Barata Pereira deu uma entrevista ao Grupo Fórum, onde falou da Diocese da Guarda, das reformas Pastorais e ainda dos projetos futuros
Por Jornal Fórum
Publicado em 02/10/2026 13:02
Sociedade

Na sua tomada de posse, disse e passo a citar, «querida Diocese, chegou a hora, todos juntos vamos colocar mãos à obra». Quais são hoje as suas prioridades para esta diocese da Guarda?

Uma saudação a todos os que nos ouvem e nos vão ler. Este sábado dia 26, temos a terceira assembleia diocesana sinodal que culmina o percurso que fizemos ao longo deste ano que agora acabou. Começou por ter entre dezembro e fevereiro assembleias nas paróquias, para aqueles que se juntaram e quiseram responder e puderam.

Depois teve duas assembleias em abril e maio, tivemos ainda uma - ADRO - assembleia diocesana para reunir e ouvir, onde juntamos algumas instituições que não são da igreja para também partilharem connosco aquilo que sentem que são os desafios que a igreja pode ter, para bem do território nestes tempos e agora vamos ter então essa assembleia, onde vai concluir este percurso para eleger as tais prioridades. Mas daquilo que já foi sendo o caminho feito, algumas vão sendo identificadas.

Há um pedido muito grande do envolvimento dos jovens e dos leigos na vida da igreja e, portanto, nas responsabilidades da mesma. Um pedido grande também no retomar alguns alguma formação mais continuada, que algumas paróquias pontualmente ainda vão tendo, mas que a covid acabou por suspender.

 

De que modo a sua experiência como formador de seminaristas pode ser uma ajuda para acompanhar e animar as paróquias da Diocese da Guarda?

Como bem citou logo nestas primeiras afirmações, eu não trago nenhuma solução mágica, nem nenhuma solução minha. E, portanto, vamos fazer o caminho da igreja universal e da igreja neste território.

E por isso, eu posso trazer algum apontamento, alguma experiência que depois tem de se unir ao viver local. O que é que me parece daquilo que vou vendo, daquilo que vou escutando? Uma das coisas que não vai surgindo como prioritário na verbalização, mas que vai aparecendo como prioritário também na falta de verbalização. É que um dos traços essenciais da fé cristã é a dimensão vocacional da existência. E a vocação não é só arranjar recursos humanos. A vocação é passar de uma fé religiosa, devocional, que mexe com os sentimentos mais profundos da insegurança de lidar com a impotência, de lidar com o isolamento e solidão que são normais do coração humano e que procura respostas religiosas, depois com Deus ou sem Deus, mas que são de respostas de tipo religioso, passar desta fé a uma fé vocacional, uma fé de resposta a Deus, uma fé de relação.

 

Pode falar-nos um pouco mais deste trabalho, desta ação reformadora, o que são na prática estas unidades pastorais, que objetivos têm e como é que as pessoas nas paróquias vão sentir esta mudança no seu dia-a-dia?

Em primeiro lugar, gostava de dizer que isto não é uma realidade, uma ideia que eu trago de Lisboa, que vem com o bispo. Há noutras partes do país e noutras dioceses.

E desde cerca de 2010 que a nossa diocese andou a refletir sobre isto. Fez uma assembleia diocesana em 2017, elaborou, escreveu um documento em 2019 a pedir esta realidade. O que aconteceu é que depois veio o covid e depois o processo de substituição do bispo e as coisas ficaram um bocadinho à espera.

Fez-se uma reforma dos arciprestados, ficou por fazer depois a seguir a reforma pastoral da vivência e da comunhão entre paróquias. E é isto que a Unidade Pastoral quer dizer. Quer dizer, uma comunhão entre paróquias com uma similitude ou porque pertence a um perímetro urbano comum, onde a vida é um bocadinho mais homogénea, mais circular ou porque pertencem a uma configuração geográfica mais dispersa. E é preciso recuperar isso como centralidade da do rosto da igreja. Eu o ano passado, já falei aqui da ADRO, o ano passado foi para mim particularmente significativo escutar isto da parte das instituições seculares que não são da igreja. Quando o banco, quando a mercearia, o centro de saúde, a farmácia, a escola primária, saíram das aldeias, a igreja permanece quase como a última e única instituição nestas aldeias junto das pessoas que lá estão, mais idosas, mais isoladas. Ora bem, as Unidades Pastorais não podem retirar a igreja das aldeias.

Não pode ser dizer assim: Vamos agregar agora as aldeias, as missas passam a ser aqui, aqui e aqui e nos outros lados, pronto, rezem só. Não. Tem de se capacitar outros rostos da igreja para estarem ali em nome autorizado e reconhecidos como tal, catequistas instituídos, formados e instituídos para serem responsáveis do cuidado da comunidade.

Mas por isso é preciso formar as mentalidades para que as pessoas aceitem e acolhem que um dos seus tenha responsabilidades de acompanhamento pastoral daquela comunidade em nome da igreja.

E se a aldeia não tem capacidade de ter um dos seus que possa acolher, um dos que venha de outra comunidade mais próxima, mas que assuma isso depois, o ministro ordenado, o diácono, o sacerdote, passam tempo de vez em quando, renovam o Santíssimo Sacramento, celebram a Eucaristia, atendem a confissão, ouvem. Mas não é exclusiva. O rosto da igreja não é exclusivo dessa ida lá.

Então, nós precisamos que os leigos, os consagrados, os diáconos e os padres sejam cada um do seu modo cuidadores da igreja da comunidade, construtores da igreja e da comunidade e gesto da presença da igreja e da comunidade, junto das pessoas mais abandonadas, mais frágeis, mais pobres, mais sozinhas, tenham ou não tenham fé.

 

Como é que o património cultural e religioso também pode ser potenciado?

Às vezes parece que se não houver celebração, a igreja fica fechada. Não, que esteja aberta, que haja cuidado uma música de fundo, momentos de oração com qualidade. E depois também algumas celebrações. A Unidade Pastoral creio que vai permitir isto. Em vez de serem as paróquias isoladas por si e, portanto, os padres não podem estar a ir a três ou quatro igrejas e consideram tudo numa. Não, é neste perímetro urbano, porventura, agora vou inventar, sim não vou antecipar o que os padres da equipa pastoral vão fazer, mas imaginem, à segunda-feira pode ser em Santa Maria a missa, à terça-feira em São Pedro, à quarta-feira em São em São Francisco, e depois ao domingo poderá haver mais que um horário de celebrações que permita a vários a vários horários em diferentes lugares na cidade, porque a cidade tem a zona baixa, a zona alta, etc. O que permite é esta articulação, esta visão de conjunto e esta articulação. Agora, o património, em primeiro lugar, a utilização. Em segundo lugar, a pastoral do turismo. Nós não podemos ter as igrejas apenas como cenário para de vez em quando alguém se lembra para lá fazer um concerto ou vai lá fazer um evento.

As igrejas são lugares de visita, seja de gente crente, seja até de pessoas não crentes, mas que as igrejas carregam um património que é o génio artístico e espiritual, mesmo para quem não tenha fé, mas do espírito humano, que está ali carregado naquelas pedras, naquelas naqueles quadros, naquelas das pinturas, naquelas obras de arte, e até naquele espaço.

Então, que haja uma pastoral do turismo, que haja uma oferta de qualidade do ponto de vista cultural e proposta espiritual para um turista que entre possa ser interpelado.

 

A Covilhã é uma cidade universitária, com muitos jovens deslocados. Que estratégias considera importantes para que os jovens participem mais na vida da igreja?

Primeiro gostava que tirássemos aqui esta ideia de que o ser deslocado é uma realidade para onde não vale a pena investir. Porque os estudantes estão cá algum tempo e depois vão-se embora. Ainda que seja, mas eu venho de um lugar onde a maioria dos jovens também estão deslocados, não é?

A maioria dos jovens das universidades em Lisboa também são deslocados. E alguns, porque encontraram ali um ambiente que os marcou, ficaram. E até questões vocacionais. Gente onde depois a inquietação vocacional surgiu no ambiente universitário e por isso bateu à porta da diocese que os acolheu

A igreja não faz para tirar proveito para si própria, faz para fazer bem a quem vai. E, portanto, também sermos capazes de pensar numa pastoral universitária como o cuidado daqueles que Deus nos confia durante 3 anos, 4 anos, 5 anos, 6 anos, 7 anos. Três a licenciatura, os mestrados, depois mais alguma investigação, sei lá. Temos que semear.

Já existe na nossa cidade, o CEFAS, o Centro de Espiritualidade Francisco Álvares, que deu os seus passos há três anos, mas portanto, está a tentar ganhar alguma consistência e agora, vai ter continuidade, foram nomeados dois sacerdotes para continuar a acompanhar e potenciar e uma coisa boa que o CEFAS tem é na sua direção jovens universitários, portanto, não está dependente exclusivamente do padre assistente.

Isso é importante, mas implica haver um espaço que eles se identifiquem, onde possam estar, passar o dia a estudar, conviver e depois fazer alguns momentos de oração, de tertúlia.

 

 

Continuando na Covilhã, descendo em concreto a nossa cidade, que tem, neste momento, ainda as cinco paróquias que integrarão a Unidade Pastoral, mas ainda mais duas, que na prática também são cidade, a Covilhã e a Vila do Carvalho. Que pretende para esta Unidade Pastoral no contexto da Diocese?

Se estamos à espera que seja o bispo a dizer como é que se faz, para depois nós estarmos a avaliar se o bispo está a pensar bem ou está a pensar mal, não vai correr bem. Agora, se nós nos desenvolvermos, se tomarmos consciência de que ser igreja é ser comunhão e ser comunhão não é pensarmos todos da mesma maneira, ser comunhão e sermos capazes de fazer unidade na diferença, aí sim correrá bem.

Respeitar as diferenças, perceber, se há diferenças que dividem, então, temos de nos afinar. Se há diferenças que não dividem, então, são uma riqueza. E fazer comunhão é isso e, portanto, se for como eu acho, eu adiro. Se não for como eu acho, não quero saber, ou até boicote.

Agora, se nos envolvermos, se o sinal de que é do espírito é a unidade e o sinal do que não é do espírito é a divisão, então, se provocar unidade, vai correr bem.

 

A Covilhã, nestes últimos anos, a par de outras cidades e vilas do nosso país, tem vindo a transformar-se bastante. O tecido social das suas populações, há mais diversidade cultural, novas comunidades, mudanças no mundo do trabalho, no envelhecimento, na forma como as pessoas vivem em bairro e em família. Como olha para esta nova realidade, que sente que a igreja pode e deve fazer neste âmbito, tanto no apoio concreto às pessoas como na promoção do bem comum?

Queremos estar presentes em prol do bem comum. Em primeiro lugar, valorizando aquilo que é o património que eles trazem. Mas depois também, não esquecer da nossa identidade, não ter vergonha de propor aquilo que é o património que eles encontram. Espiritual, cultural, social. E depois encontrar aqui com todo o respeito pela liberdade das opções de cada um, encontrar aqui formas de convivência, formas de comunhão.

Um dos sacerdotes que vem para aqui agora para Covilhã é de origem brasileira. É um jovem e vem para um sítio onde é preciso dar continuidade ao que tinha nascido no CEFAS, mas também e no Magis, mas potenciar ainda mais o acompanhamento juvenil.

 

 

Que relação quer construir com as instituições locais, autarquias, junta de freguesia, escolas e IPSS e outras entidades em prol do bem comum?

Estou disponível, ainda hoje quando sair daqui vou visitar ali o Bolinha de Neve e, portanto, também estou disponível para acompanhar o trabalho das instituições, na terça-feira estive a visitar uma escola na Cerdeira, já fui visitar aqui a Alpedrinha, estou disponível para visitar as escolas, os colégios, etc., que me queiram lá. E outras instituições, quero uma igreja de mãos dadas com as comunidades locais, aberta e dialogante.

 

Pedia-lhe uma mensagem para os jovens e depois para os fiéis da nova Unidade Pastoral em geral?

Uma vez ouvi um professor universitário refletir que uma das dificuldades do tempo universitário hoje, ele está demasiado afunilado na resposta na aplicação profissional de emprego. A universidade devia ser a experiência para os jovens universitários de abrir-se a um conjunto diversificado de saberes.

Depois numa segunda fase podia ter uma um uma concretização e uma aplicação mais para um bocado de trabalho e para o futuro do emprego. Mas a primeira coisa que eu gostava de dizer que os universitários façam vivem uma experiência universitária como uma experiência de descoberta. E se possível até com créditos em áreas do saber que não sejam exclusivamente do seu curso, digamos assim, a sua aplicação profissional futura.

E depois o que se implica na descoberta do mundo dos saberes, o que implica a descoberta da alma humana, nas relações, nas propostas universitárias que o mundo universitário tem de relações sociais, de experiências de convivência e de alargar horizontes da sua terra para outras terras, etc.

Numa mensagem mais geral, peço que cuidem da Covilhã urbana e não apenas da sua paróquia à moda antiga. Que se abram a este chamamento e que esta Unidade Pastoral seja uma comunhão de todos e para todos.

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