Opinião: Miguel M. Riscado | Acutis — maternidade e vontade
Por Jornal Fórum
Publicado em 08/10/2026 09:00
Opinião

No próximo dia 12 de outubro, celebramos o vigésimo aniversário da morte de Carlo Acutis, jovem anglo-italiano, falecido com quinze anos de idade e canonizado no passado ano pelo Papa Leão XIV. Apresentado como o “Santo da Internet” pela sua dedicação e evangelização online, não deixa de ser redutor olharmos para este jovem apenas com essas lentes. Ainda que tenha deixado muitos frutos na sua pegada digital, nomeadamente no registo e pesquisa de milagres eucarísticos, a sua mentalidade e postura, acentuadas pela sua tenra idade, são também elementos de santidade muito relevantes, principalmente, na sua ligação com a doença, o sofrimento, a conversão e a família.

Carlo Acutis adoeceu no início do mês de outubro de 2006, tendo falecido no dia 12 do mesmo mês. O jovem santo já havia, contudo, profetizado o seu perecimento num vídeo gravado três meses antes, encontrado postumamente no seu computador. A doença súbita e fatal de Carlo não diminuiu a sua fé, nem a sua vontade de dar cumprimento à vontade divina — referiu que o seu sofrimento era menor em comparação com o de outros e pediu à sua mãe, Antonia, que não tivesse medo. A paz da santidade de Carlo é também um exercício de profunda reflexão, de paciência e de entrega. Carlo substituiu a sua vontade, negando-a até à sua não existência, pela vontade divina, que lhe havia sido revelada desde cedo.

Ainda que não tivesse proveniência popular — as famílias dos seus pais eram abastadas —, demonstrou um desinteresse pelos prazeres da vida e pela materialidade. Colocou a sua vocação evangelizadora em primeiro lugar, quer nas suas viagens, onde documentou dezenas de milagres eucarísticos ocorridos pelo mundo, quer na sua vida particular, destacando-se a conversão ao catolicismo de Rajesh Mohur, seu empregado doméstico, oriundo do hinduísmo, que foi batizado, bem como a de amigos e familiares próximos, após longas conversas com o jovem santo. Utilizou, assim, todos os meios que não escolheu ter para a propagação da mensagem e para viver, ainda que criança e adolescente, uma vida de retidão e preocupação pelos outros.

Depois da morte do seu filho Carlo, Antonia tornou-se uma das maiores advogadas da causa do seu filho. Ainda hoje, passados vinte anos da sua morte, viaja com regularidade para palestrar e transmitir as ideias e os pensamentos que Carlo lhe deixou. Também ela, com a sua alegria e comunicação marcadamente italiana, revela uma devoção, uma vontade de percorrer o caminho da santidade. Seguramente, a morte de um filho primogénito é uma espada cravada no coração mais piedoso. Também esta mãe dolorosa não se afasta, nem se pode afastar, desse véu. Mas a rapidez entre a morte do seu filho e a sua canonização — 19 anos — demonstra o quão longe conseguimos alcançar se apontarmos os meios e o tempo que temos para os objetivos que procuramos. A própria Antonia já admitiu que, tendo os meios necessários para suportar a investigação e o processo de canonização, não necessitou de recorrer à angariação de fundos natural das causas. Mas nada disto retira uma vírgula à santidade do seu filho, cumpridor pleno da vontade de Deus, nem, eventualmente, da sua mãe, que antes, durante e depois da vida de Carlo, se demonstrou plenamente disponível para atestar, educar, praticar e continuar. E continuou, dentro do seu matrimónio, da maneira mais cabal, tendo dois filhos gémeos, Michele e Francesca, nascidos em 2010.

A lição a retirar da curta vida terrena de Carlo é evidente. Não há uma idade para a santidade. Não há uma condição financeira para a santidade. Não há uma formatação da santidade. Tanto é santo o eremita, como o viajante. Tanto é santo o clausurado, como o extrovertido. Isto é, não são as barreiras, as características, as atribuições que temos que definem a nossa santidade ou falta dela: é o que fazemos com elas que irá definir esse aspeto. Num tempo de imersão constante num mundo virtual, que Carlo Acutis seja a cabeça de uma geração de santos.

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