Torna-se cada vez mais urgente que a europa dê ao mundo uma visão de coesão. Qualquer sujeito sabe que os Estados Unidos e a China possuem maior poder de negociação perante cada país europeu isoladamente, do que diante de uma União Europeia coesa.
De facto, é mais fácil influenciar um mercado nacional, negociar uma concessão ou criar uma dependência estratégica quando o interlocutor tem dez milhões de habitantes, do que quando representa cerca de 450 milhões de consumidores.
Assim sendo, Portugal não tem de escolher entre a sua soberania e a integração europeia, porque, nas múltiplas áreas que o compõem, a integração europeia é precisamente aquilo que permite proteger a nossa soberania.
Contudo, perante esta panorâmica desfavorável à Europa, a História ensinou-nos que cada um deve lutar por si e, assim sendo, Portugal não deve limitar-se a esperar pelas decisões de Bruxelas. Deve consolidar a sua identidade, enriquecendo-se na diferença, construindo uma função própria dentro da estratégia europeia.
Na atual conjuntura, não é tarefa fácil. A pergunta essencial e da maior pertinência conducente a uma profunda reflexão, pode ser assim enunciada: o que pode Portugal trazer à Europa que a Europa não consiga obter da mesma forma através de outro Estado-membro?
É ponto assente que Portugal ganhará mais influência dentro da Europa, quanto maior for a sua capacidade de trazer o mundo para dentro da própria Europa.
A nossa geografia considerada de fronteira para muitos especialistas, oferece-nos uma posição privilegiada no Atlântico. Dispomos de portos, cabos submarinos, produção de energia renovável, estabilidade institucional e relações históricas com África e com a América Latina. Pertencemos simultaneamente à União Europeia, à NATO e à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Estas relações não podem continuar a ser pontos de uma cartografia, ou apenas limitadas à evocação de uma história comum, ou até à realização de cimeiras periódicas. Torna-se urgente que se passe à ação, ou seja, que funcionem eficazmente. O caminho passa por obrigatoriamente produzirem investimento, comércio, conhecimento, transformação industrial e corredores logísticos.
A título de exemplo, invocamos a Zona de Comércio Livre Continental Africana que está a promover a construção gradual de um dos maiores mercados integrados do mundo. África terá num futuro próximo, fruto de um peso crescente da população, recursos, capacidade de produção e consumo mundiais notáveis. Portugal tem possibilidades de se posicionar desde já como uma das plataformas europeias de relacionamento com esses novos mercados.
Os portos nacionais, como o de Sines ou Lisboa, as ligações ferroviárias a Espanha, os corredores ibéricos e as plataformas logísticas interiores podem transformar claramente a nossa posição atlântica numa vantagem europeia.
Mas a existência de todas estas estruturas por si só não criam uma estratégia. É necessário ligar todas as infraestruturas, como por exemplo as portuárias a áreas empresariais, à ferrovia competitiva, aos portos secos, centros de transformação, produção energética e capacidade de atração de investimento.
É aqui que o interior deve assumir uma nova centralidade, uma vez que as potencialidades aqui existentes num mundo em constante mudança são inúmeras.
E como pode este nosso interior ser parte da estratégia atlântica?
Durante demasiado tempo, o interior, ao longo da história, foi visto a partir das suas carências: menos população, menor densidade empresarial e maior distância dos grandes centros. Atualmente, precisamos de começar a analisar esta geografia, a partir daquilo que tem para oferecer.
A história de que, de Espanha, nem bom vento nem bom casamento, pertence a um passado remoto. Se invocamos o Atlântico, terá toda a pertinência, invocar o país que connosco forma a península ibérica descrita no livro de Saramago “A jangada de pedra”.
O interior possui território, recursos energéticos, proximidade à fronteira espanhola e capacidade para acolher grandes investimentos que dificilmente encontram espaço junto das áreas metropolitanas. Pode receber atividades logísticas, industriais, energéticas, agroalimentares, digitais e tecnológicas entre muitas outras.
Mas, para isso necessita de infraestruturas preparadas antecipadamente, ou seja, devidamente qualificadas. No desenvolvimento regional, a oferta também cria procura. Se não existirem terrenos infraestruturados, energia disponível, ligações ferroviárias e rodoviárias e processos de licenciamento previsíveis, os grandes projetos nunca se realizarão.
A ligação entre os portos atlânticos, o interior português, Espanha e o centro da Europa deve ser entendida como uma única estratégia. As grandes áreas empresariais associadas aos corredores da A23 e do futuro IC31, com ligação direta ao mercado espanhol, podem integrar essa visão, conducente a uma ação devidamente concertada.
Ainda assim, é urgente que se combatam alguns obstáculos fruto de mentalidades instaladas. Frequentemente os obstáculos remetem para a falta de vontade, e para a tão necessária desburocratização.
Em suma, não se trata apenas de beneficiar uma região. Trata-se de reforçar a capacidade de assim Portugal servir a Europa.
Como tenho afirmado, Portugal não controlará a competição entre os Estados Unidos e a China, nem conseguirá impedir a deslocação do dinamismo económico mundial para o Indo-Pacífico. Pode, no entanto, decidir como se posiciona graças às tomadas de decisão aqui mencionadas.
O destino existe, mas nós é que o fazemos. É para isso que deve haver vontade. Podemos permanecer na periferia económica europeia, dependentes de decisões tomadas noutros lugares; ou podemos assumir-nos como plataforma atlântica, ligando a Europa a África, à América Latina e aos grandes fluxos internacionais.
Para finalizar, a História oferece-nos relações. A geografia oferece-nos uma posição. Mas nenhuma delas garante, por si só, desenvolvimento.
É necessário acrescentar estratégia, infraestrutura, conhecimento e capacidade de execução.
Repito que, Portugal será mais relevante na Europa e consequentemente no mundo, se for capaz de tornar a Europa mais forte, mais presente, trazendo mais mundo para dentro de si mesma.
Em suma, todos lucramos.