AUTOR
Luis Maia – Professor Universitário Doutorado na Universidade de Salamanca, Espanha – Professor da UBI
Como terapeuta e professor universitário de psicologia, por vezes os dias são muito duros. Principalmente é muito duro presenciar o aumento significativo de problemas relacionais entre pais e filhos que levam os pais a procurar ajuda para o filho / família.
É angustiante assistir por vezes ao enorme esforço financeiro, temporal, emocional, laboral, etc., que os pais têm que fazer para poder levar os seus filhos à minha consulta, e é nesse momento que me sinto abençoado!
Há milhares de variáveis a contribuírem para o facto de as práticas educativas dos pais parecerem cada vez mais estar associadas a algum processo de sofrimento atroz, pois, tal como ao longo de toda a história da humanidade, os filhos estão de facto a levar os pais a níveis exacerbados de exigências para que se possa educar bem, de forma construtiva, e por forma a que todos estejam calmos e minimamente felizes com o papel de pai e filho.
Se tal processo sempre foi assim, os tempos em que vivemos, com toda a parafernália tecnológica e ocupação dos filhos em milhares de atividades, supostamente, “de enriquecimento curricular”, a situação está como nunca vista antes.
Alguns pais sentem-se verdadeiramente reféns dos seus filhos! O contrário também ocorre, é certo, mas o que estará a acontecer?
Não tenho pretensão de apresentar respostas, apenas adoro escrever, e prefiro escrever acerca de “coisas” que me tocam profundamente como ser humano e particularmente como pai, do escrever acerca da importância da vida alheia na produtividade de notícias na urbe. Para isso não contem comigo!
Precisamos mudar imediatamente as coisas! Todavia, abjeto e rejeito completamente qualquer comentário ou crítica que me façam, se alguém utilizar o argumento que as crianças hoje são mimadas, que devem ser punidas com castigos físicos, que uma palmada certa na hora certa não faz mal a ninguém, que no seu tempo também apanharam muito e só lhes fez bem. Poupem-me por favor!
Querem ater-se a tradições? Que antes é que era? Eu apresentaria milhares de tradições que é melhor que ninguém queira voltar a existirem. A tradição representa em grande medida a estética, ética e moral de um povo, num determinado momento sócio histórico, e felizmente, temos a oportunidade de pensar de que forma conseguiremos ultrapassar este flagelo, em agosto de 2026.
Admiro uma mãe ou pai que, mesmo ofendido, perdoa o seu filho e lhe mostra uma forma alternativa de viver a sua vida. Admiro os pais que pedem ajuda, não apenas para que como psicólogo possa ajudar a que a criança passe a apresentar um comportamento considerado adequado, mas porque entendem que também eles querem aproveitar, os pais, para proceder às mudanças que se entendam necessárias e possam ser felizes. Mais ainda, ser felizes e levar os filhos a serem verdadeiros defensores de uma vida responsável, digna e demonstrando preocupação para com os pais.
Alguns poderão dizer que estou a ser ingénuo. É possível, sempre admiti que me engano, que muitas vezes tenho dúvidas e que já passei pelo meu lado negro da vida, e apesar disso, houve alguém que nunca me abandonou: a minha filha, os meus pais (paz à alma do meu pai), os meus irmãos e o nosso tio Padre (paz à sua alma), que era um dos baluartes da família.
O que mais aprendi com a minha família, foi a ideia que é com o perdão que reconquistamos a nossa paz, que nos reabilitamos como mulheres e homens em harmonia com a nossa vida, que permitimos que se interrompa o ciclo de agressões e, principalmente, que a maior dimensão de humanidade que existe em nós se expresse na sua verdadeira magnitude: o amor que temos por nós e por um filho!
Quem não perdoa fica preso a uma teia de rancor, ódio, raiva, frustração, e tudo isso cria as condições perfeitas para passar a lidar com os outros de forma agressiva, histriónica, ressabiada, recalcada. Perdoar não é sinónimo de fraqueza, mas sim de sabedoria e de uma humildade sem limites.
O que não perdoa, fica sentado eternamente no seu castelo, cheio de certezas, à espera que lhe venham pedir desculpas, para aí, e apenas aí talvez, depois de fazer todo o mundo saber que a outra pessoa se rebaixou aos seus pés, talvez pondere perdoar-lhe (para mostrar a pretensa grandiosidade e o quanto é uma pessoa especial, pois que até perdoa quem não lhe parece merecer perdão!). Que soberba! Que tonteira!
Aquele que realmente perdoa, nem precisa que o filho ou outra pessoa lhe peça perdão. O perdão não vem de fora, de quem ofende, de quem não cumpre… O perdão vem de cada um de nós, vem da MINHA ESCOLHA DELIBERADA EM SER LIVRE DE PERDOAR, E ASSIM, LIVRAR-ME DO FEL E AMARGURA QUE ESTAVAM DENTRO DE MIM!
É preciso coragem? Claro! Mas a sabedoria e a humildade são muito mais importantes neste ato de perdoar. Reparem que se eu perdoar quem me magoou, mesmo que a pessoa não queira pedir desculpas e nem considere que deve fazê-lo, eu estou a exercer um direito MEU… SOU EU QUE PERDOO O OUTRO, E NINGUÉM ME PODE TIRAR ISSO!
Quem ofende, fica perdido e mergulhado em certezas efémeras, em ressentimentos que apenas o destruirão, que o transformarão numa pessoa frustrada e adoentada, e cujo futuro se vai encarregar de lhe mostrar e devolver esse rancor.
Quem perdoa, liberta-se! É como se tivesse no peito uma enorme esponja cheia de veneno e, em vez de a manter e cultivar, optar por espremê-la. Assim, toda aquela mágoa sai naturalmente de si, e resta então um espaço, que deve ser aprendido a ser preenchido de outra forma. O que trabalho com os pais e filhos, é que aceitem preencher esse espaço com o relevar da capacidade de nem sequer se sentirem ofendidos. É curioso que depois de algum tempo, alguns pais e filhos são já muito capazes de não se sentirem minimamente ofendidos, mesmo quando um filho é inadequado. Isso ocorre porque já não são alimentados por este sentimento de amargura quase castradora e retributiva.
Quanto ao leitor, não sei, mas cada vez mais trabalho com os pais e filhos a capacidade de amar e pedir ajuda quando precisam.
Posso ser ingénuo no que defendo, mas sei que possa a minha filha fazer o que fizer, eu nunca ficarei verdadeiramente magoado com ela, e uma das coisas que mais a desarma quando é teimosa comigo, é eu dizer-lhe, “estou triste contigo, porque te amo, e não há nada que faças que me obrigue a deixar de te amar!”
Que todos os pais e filhos desenvolvam mais uma linguagem de perdão e de amor. O rancor apenas destrói a pessoa que não perdoa (e é tanto mais uma pena, pois que perdoar é uma escolha apenas sua), mas o perdão, eleva-nos a um patamar em que pode haver desavenças, isso é impossível de evitar, e até são saudáveis, mas comigo, ninguém me pode impedir de amar e perdoar os meus!
E se alguém considerar que estou a usar a linguagem de oferecer a outra face, é porque não percebeu nada do que escrevi: se a linguagem for de amor e perdão, nem sequer existe a primeira bofetada, pois quem ama, perdoa, respeita e não agride!
Um beijo a todos os pais e filhos que precisam descobrir este caminho.
Para contactar o autor desta obra, é favor consultar:
- Página web de Luis Maia: www.luismaiapsicologia.com
- Email: luismaia.gabinete@gmail.com
- Cédula Profissional da Ordem dos Psicólogos, n.º 102
- Mestre em Neurociências pela Faculdade de Medicina de Lisboa
- Professor Doutorado – Universidade da Beira Interior
- Neuropsicólogo Clínico, Doutoramento (USAL - Espanha)
- Especialista Médico Jurídico – Pós-Doutoramento (Instituto de Medicina Abel Salazar - Porto, Portugal)
- Licenciatura em Neuropsicologia Clínica (USAL - Espanha)
- Licenciatura em Proficiência Investigativa em Psicobiologia (USAL - Espanha)
- Licenciatura em Psicologia Clínica e da Saúde (Universidade de Minho - Portugal)
- Perfil completo no CV- ORCID - https://orcid.org/0009-0008-0241-799X