Opinião: Miguel M. Riscado | A formatação de uma geração
Por Jornal Fórum
Publicado em 15/10/2026 09:00
Opinião

Em maio de 1991, os R.E.M. lançavam Shiny Happy People, com a vocalista dos B-52’s, Kate Pierson. É uma canção utópica, ao estilo hippie, que descreve uma realidade em que as pessoas sorriem, dançam, cantam e espalham amor. O próprio videoclipe transmite essa ideia: pessoas contentes, a sorrir e a acenar; música upbeat, sem preocupações. Transmite também uma ideia mais profunda: a de que há sentimentos individuais que, se expandidos à comunidade, valem mais do que isoladamente. O contágio da alegria e do amor em Shiny Happy People é a descrição de uma realidade humana ancestral: olhamos e tendemos a sentir e a fazer o que sentem, fazem, cantam ou vestem aqueles que nos rodeiam.

Esta premissa é interessante. O ser humano não existe como animal isolado. Todas as suas decisões e comportamentos têm por base um ambiente. E, se esse ambiente for formatado, as ideias que venha a criar ou que nele nasçam seguirão, ainda que dentro de um espaço ou intervalo de escolha, essa formatação.

Nenhuma geração teve a oportunidade de não ser formatada como a nossa. A quantidade de acesso informativo e de referências culturais de que dispomos é inigualável na história da humanidade. Além disso, a facilidade de acesso a qualquer tópico, a qualquer momento anterior, diminuiu as fronteiras e as barreiras de quem nasceu de determinada maneira, num certo local, num certo tempo.

Ainda assim, escolhemos (será que escolhemos?) ser a geração mais formatada de sempre: na maneira como nos vestimos, como nos tratamos, no que vemos e ouvimos. O que há 20 ou 30 anos seria considerado “quadrado”, formatado, é hoje a pessoa mais fora da caixa que existe. Isto porque a normalidade se tornou contagiosa. A expectativa diminui assim: esperamos o normal, o natural, o banal. Não saímos da nossa bolha de probabilidade e possibilidade, quer em ação, quer em pensamento.

Isto, suponho, porque perdemos a capacidade de cruzar referências e de interpretar o que nos é dito. O próprio ensino guia-nos dessa forma, quer na interpretação, quer na postura a adotar perante a vida. É extremamente difícil, numa sociedade neotecnocrata, globalizada e formatada, sair da batuta ou da linha invisível a seguir.

Mas os conselhos chovem de quem não conseguiu executar o seu plano de vida, de quem até ousou pensar diferente, sonhar, mas acabou, não por desistir, mas por ficar, por viver a vida possível, por abraçar a normalidade, por muito entediante ou banal que seja ou lhe pareça.

A tentativa de formatação de uma geração não é inocente. A tentativa de ensinar um certo modo de estar, de pensar, de ver e de aprender o dinheiro não é mais do que a tentativa de apresentar um jogo, uma hipótese, como uma verdade absoluta. Jogar um jogo viciado só é bom e possível quando estamos do lado do vício. Quando somos abusados e assediados, deixa de ter interesse ou qualquer tipo de piada.

Como se desformata, então, uma geração? Apostando em formas de pensamento, criativo ou crítico, diferentes. Apostando, não financeiramente, mas com um incentivo quase pré-natal, em maneiras de ensinar, de pensar e de ser que não tentem seguir um termo de comparação banal, mas um ideal, com mais ou menos relevo social, que crie um ser pensante e crítico. O contrário será a banalização da mente e a relativização da nossa condição de ser pensante.

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