Opinião: Marcos Leite | Sinais do tempo
Por Jornal Fórum
Publicado em 22/10/2026 09:00
Opinião

Talvez eu não seja digno de falar sobre a cidade onde escolhi viver. Não é o facto de ser contribuinte, de dedicar parte dos meus dias a trabalhar pela cultura da cidade ou de semanalmente contribuir para o Jornal Fórum da Covilhã. Nada disso me habilitaria a tecer algum comentário em tom de elogio ou crítica. Mas fá-lo-ei. Por amor à Covilhã.

Vamos aos factos. O primeiro deles absolve-me. É provável que quem trabalhe na Câmara Municipal da Covilhã não leia jornais regionais. Quando digo que me absolve, é porque ficarei mais à vontade, sabendo que ninguém irá ler o que estou a dizer. Mesmo assim, se alguma alma viva, ao contrário do que penso, ler o que vou escrever, então que o leia com o meu mais sincero pedido de desculpas. Um pedido preventivo. Ponto. A generalização tende a isso, a fazer com que os bons paguem pelos maus.

(…)

Outro dia, quando catalogava alguns livros recém-chegados à minha livraria, deparei-me com uma publicação interessante. Chama-se «À descoberta da Estrela». Um livro que contém um roteiro de percursos pedonais no Parque Natural da Serra da Estrela. Até aí, tudo certo. Eu bem que ando interessado em explorar essas trilhas serranas. Mas curioso que sou, fui ver o ano da publicação: 1990. Junto desta informação, havia também, na página 65, um dado curioso: a Covilhã, nesta altura, tinha pouco mais de vinte e três mil habitantes. Presumo, portanto, que cá vivia um terço da população que vive hoje.

Que a Covilhã cresceu em população, não restam dúvidas. Basta observar a quantidade de novos empreendimentos imobiliários que surgiram, ou o preço exorbitante que estão a custar os imóveis desta cidade. No entanto, todo este crescimento arrasta, consequentemente, coisas boas e coisas más. Um destes «sinais do tempo», muitas vezes, tem três cores e está diante de nós quando paramos em algum semáforo.

Vivo na Covilhã há exatos quatro anos. Desde que cheguei, observo que aumentou muito o fluxo de veículos nas ruas. Quase não havia carros de aplicação, os chamados TVDE, e  hoje cruzamo-nos com inúmeros destes pelas ruas da cidade. E os semáforos? Ainda são os mesmos. Quiçá, mantém a mesma programação para abrir e fechar desde que foram instalados.  E o resultado disso? Transtornos na circulação. Basta perguntar a um motorista de TVDE.

Outro dia, ao ir buscar o meu filho à Escola Campos Mello, aproveitei a demora do sinal para pensar. Mesmo na hora de ponta, quando da escola saem professores, funcionários, estudantes e pais, é preciso parar por mais de noventa segundos no semáforo que dá acesso à Rua 25 de Abril. O sinal verde não dura mais do que o tempo necessário para passarem dois ou três carros.  Este é só um exemplo de como estamos parados no tempo. Com tanta tecnologia disponível, será que só eu me dou conta de que isso poderia mudar? Pelo menos por vinte ou trinta minutos, enquanto as pessoas vão a casa almoçar (privilégio de cidade do interior), mas não. Perde-se imenso tempo, parado.

Perder tempo no trânsito da Covilhã não pode ser sinal de desenvolvimento. Não se tece o futuro desta maneira. Não queremos ser como Lisboa ou Porto, ou queremos? Anda-se mais, gasta-se mais combustível, polui-se mais. Tudo mais, por conta de um conjunto de semáforos programados para uma cidade dos anos noventa, sem querer exagerar. É vergonhoso observar que pela Rua Rui Faleiro transite todo, absolutamente todo o trânsito que liga a Covilhã ao ponto mais alto de Portugal Continental. É inacreditável que não haja outras alternativas viáveis. Que turismo é esse que queremos atrair?

Uma cidade como a Covilhã não pode ficar assim, avançada em alguns aspetos e, em outros, parada no tempo. A mobilidade é fator fundamental para o desenvolvimento. Em frente à livraria, na Marquês de Ávila e Bolama, rua onde fica o motor de desenvolvimento da cidade – a Universidade da Beira Interior – o semáforo fica fechado por longos minutos. O resultado os covilhanenses já conhecem. Quando estiver verde, acelere, o quanto puder.

Já presenciei carros, motas e, inclusive, autocarros a passarem a mais de setenta, oitenta quilómetros por hora em frente à minha loja. Basta sentar-se uns minutinhos na livraria, pedir um café de cinquenta cêntimos e observar. É algo absurdamente incompatível com a via e com a segurança pública. Ao que estamos à espera, então? Da morte, infelizmente. Será que as providências serão tomadas somente quando alguém for terrivelmente atropelado na via, quando um corpo já sem vida for projetado para o telhado do antigo Colégio das Freiras? É disso que estamos à espera?

E já que falei sobre morte, ou de como não se deveria morrer, o mesmo aviso ao poder público serve para o caso das praxes. No dia da latada, uma enorme estrutura de socorro foi montada para que os ébrios pudessem ser atendidos. Tudo isso com recursos públicos! É este o sentido do evento? Bebedeira? Quando é que isso vai mudar? Quando algum jovem, recém-chegado à Covilhã, beber, cair e morrer? É uma pena que a vida valha tão pouco, que a nossa inteligência seja tão limitada e que em pleno 2026 ainda tenhamos de martirizar pessoas para que o poder público reflita acerca dos riscos que parece ignorar. Não é esse o desenvolvimento que queremos, ou é? Eu não quero.

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