Opinião: Miguel M. Riscado | Portugal ama os betos
Por Jornal Fórum
Publicado em 22/01/2026 08:00
Opinião

Tive recentemente a oportunidade de assistir à série da RTP “A Duas Voltas”, documentário sobre as eleições presidenciais de 1986, que acompanha os bastidores e as jogadas políticas ensaiadas e improvisadas dos sujeitos políticos envolvidos. Esta crónica não é exatamente sobre isso. É apenas sobre um aspeto delicioso da mesma, que continua a caracterizar a nossa sociedade.

            A certa altura, a jornalista Maria Elisa Domingues, membro do bureau político do saudoso Prof. Freitas do Amaral, refere o surgimento naquela campanha de uma estirpe social nacional, que, por não estar na linha do pós-25 de abril, estava um pouco apagada. Referia-se aos betos. A figura de Freitas do Amaral voltava a trazer aos olhos de toda a população nacional este grupo coeso. Há uma grande confusão sobre os betos: não é verdade que tenham falta de carisma ou que sejam enojados ou elitistas — esses são os que, não sendo, tentam ser betos; os verdadeiros betos são, ainda que conectados por tradições e costumes comuns ou vários apelidos sem fim, integradores e descomplexados. É precisamente esse fascínio sobre estas figuras que, não exclusivamente (é evidente), despertou interesse na inovadora campanha “Pra Frente Portugal”. Freitas do Amaral era muito mais que isso, mas, revendo os momentos de 85 e 86, há uma aura de pessoas que o circunda que, genuinamente e sem dificuldade, sabe o que fazer em todos os momentos, não de um ponto de vista ensaiado, mas por perceber e ter a noção, em todo o momento, da sua posição no panorama geral.

            Avançando 40 anos, o fascínio nacional pelos betos continua. Mas surge agora de maneira diferente. Durante esses 40 anos parecia que apenas quem fosse estudar para certas faculdades de Lisboa podia lidar diretamente com eles; salvo as aparências televisivas é claro. A globalização do ensino superior e o aumento da qualidade de vida, também do ponto de vista económico-financeiro, criam nos jovens adultos uma necessidade de encontrarem — não há outra palavra possível —, uma elite. Assim, hoje, é possível que um indivíduo que nunca tenha saído do seu reduto, por ter estudado ou lucrado com o seu trabalho nesse mesmo sítio, consiga integrar a classe média-alta. Mas isso ocorre apenas do ponto de vista dos rendimentos — falta a estrutura tradicional que caracteriza os betos. Essa estrutura surge agora por aproximação. E ninguém usou esse fenómeno de aproximação como Cotrim de Figueiredo.

            Despindo Cotrim das amarras ideológicas, encontramos o carisma e certeza que esses jovens adultos, alegadamente deslocados, procuram. Portugal adora os betos. De certo modo, inveja-os. São o exemplo de mais fácil apreensão da escada ou escalada social. Escada social essa que não se baseia nos rendimentos, mas sim numa integração pessoal e social num grupo com pertenças, ainda que com heterogeneidade.

            Além da sua apresentação sui generis, desinteresse na opinião externa e coesão constante, o oásis dos betos parece ficar a um boletim de distância. Além da política, o humor, a arte e a música beta aparecem como outros mecanismos de ligação com o restante território nacional.

            Para muitos jovens trabalhadores, o contacto com a “personalidade beta” acontece apenas de forma mediada, televisiva ou caricatural. O que Cotrim oferece é uma sensação rara para os jovens adultos: a de alguém que parece saber exatamente quem é e onde está, sem pedir licença. A falta de referências e de arcaboiço cultural demonstra-se, assim, latente.

Continua a faltar qualquer coisa a esta crónica. Devíamos fazer uma mega festa no Guincho.

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