Opinião: Marcos Leite | O inferno de Manel
Por Jornal Fórum
Publicado em 22/01/2026 08:00
Opinião

Semana passada veio à minha livraria um cliente que há tempos não dava os ares. Andava sumido, só que não. Em verdade, o velhote teve uma experiência muito curiosa. Quase morreu. Isso mesmo, uma EQM – experiência de quase morte. Uma história tão interessante que resolvi contá-la aqui. Mas antes, é preciso contextualizar um pouco. Do contrário, o leitor não conseguirá imaginar os dramas existenciais pelos quais este sujeito tem passado.

Seu Manel - como faz questão de ser chamado - é um tipo emblemático, caricato, não passa despercebido. Como ele há de existir outros por aí. De certeza. Embora pareçam únicos, são cartesianos, retos, previsíveis, o que torna impossível não lembrá-los. É o que chamamos de «pessoa quadrada», uma espécie de cubo humano. O Manel é assim, metódico, maniático, dono das próprias verdades. Embora tenha o corpo pequeno, seu jeito lembra o personagem de Jack Nicholson no filme Melhor é Impossível. Quiçá, tem - ou teve - algum transtorno ou doença mental, o que certamente serviu de inspiração para o idealizador fazer aquele filme. Eis aí uma boa dica para assistir no final de semana. Antigo como o Seu Manel.

Na primeira vez em que esteve à livraria e pediu um café, reparei que não quis utilizar a pazinha de madeira (descartável) para dissolver o açúcar. Pediu-me uma colher de inox e que eu lavasse-a antes, na sua presença. Por aí já dá para sentir o feitio do sujeito. Conversador, mas seletivo, contou-me que sempre teve tudo muito organizado na vida. A roupa dele demonstrava isso. Parecia combinar tudo, ainda que de mau gosto. Não havia uma ruga qualquer na roupa que já foi elegante em décadas passadas, o que me fazia crer que o velhote era fã de um ferro de passar. Quando foi pagar a conta, vi que o dinheiro estava todo separado e, junto aos cinquenta cêntimos para pagar o café, havia uma anotação que dizia: “café, dia tal (não lembro), hora tal, alfarrabista. Tudo com uma caligrafia incrível. Um apontamento contabilístico do século passado, pensei. Fiquei impressionado e caí na asneira de perguntar – e não devia ter feito – por que razão ele tinha aquelas anotações. Por sorte, entrou um cliente que deixou-o desconfiado e acabei ficando sem a resposta.

Seu Manel costumava vir sempre no mesmo dia da semana e no mesmo horário, mas não todas as semanas. Era intercalado. Reparei isso porque curiosamente coincidia com um dia de pouco movimento na Covilhã, como se estudasse o calendário. Chegava quieto. Na partida falava pouco, ambientava-se e só depois puxava alguma conversa que girava sempre em torno dos mesmos assuntos, sobre uma portugalidade desconhecida por mim. Talvez me tivesse como português de nascença ou, quem sabe, pouco se importava comigo. Mas o tempo passou, o final de ano chegou e o tal Manel não mais apareceu. Tinha quase esquecido dele, até que na última semana ressurgiu, estranho, assustado. Parecia um pouco revoltado. Já não trajava mais a mesma roupa, estava desalinhado com o seu costume. Parecia ter sofrido algum trauma. Foi então que descobri que teve uma experiência de quase morte.

Manel aproximou-se do balcão e disse: “Esse final de ano foi brutal! Fiquei doente e morri! Calma lá! Morri mas estou vivo!” Mas como pode Seu Manel, perguntei assustado. “Pois é meu filho. Pode sim. Fiquei uns dias hospitalizado, em coma, e durante esse tempo fui parar num lugar que era como o céu. Foi o que me disseram lá, mas aquilo parecia muito mais o inferno”. Ele parecia confuso. Indaguei a razão, ao que o velhote me respondeu que “do lado de lá é tudo diferente. Não tem essa coisa de ficar organizando tudo, preparando tudo. O mundo de lá não é essa bagunça de cá. Não tem conta para pagar, mas o que eles querem mesmo é saber sobre a nossa vida. São uns intrometidos! Ninguém me perguntou da minha reforma, do meu dinheiro guardado e de todo o esforço que fiz na vida. Deve ser por isso que me mandaram de volta, mas eu não vou gastar um tostão a mais! E agora estou aqui, desse jeito!”, concluiu.

Seu Manel, se já não era doido, ficou louco de vez. Era fácil notar o desgosto implantado em seu olhar de vivo morto. Quiçá, o ar de arrependimento tinha como causa o facto de ter sido tão matemático durante a vida toda. Viúvo há uns trinta anos, sem filhos, disse não encontrar “a finada Matilde no céu”, mas acredita ter visto “gente conhecida”, “mas faço questão de esquecer, viu?”. Não me disse quem eram e tampouco tive coragem de perguntar. Seja como for, depois de ouvir essa história de maluco, que me pareceu verossímil, cheguei à conclusão de que muito do que se faz aqui na Terra não deve servir mesmo para nada. Ao coitado do Manel, tão organizado durante a vida toda, foi dada uma nova chance, mas sinceramente não sei se ele vai querer reaprender a viver nesse tempo que lhe resta. Entre mudar e ir para o céu, há muitos que ainda escolhem recriar o próprio inferno.

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