Existem momentos curiosos no meio literário contemporâneo, que é sem sombra de dúvida, esse instante em que o anúncio vale mais do que a própria obra.
Eu acho mesmo, que antes da confirmação, antes da escolha final e antes mesmo do veredicto, já há quem celebre, quem insinue e quem se veja mesmo ao espelho, com uma coroa que ainda não lhe foi colocada.
Vivemos mesmo num tempo em que a expectativa, parece ter substituído o mérito.
Ser falado tornou-se quase tão importante, quanto ser lido e muitas vezes, parece que é mesmo mais importante o ser falado.
A literatura deve nascer da inquietação, do silêncio e da dúvida, mas hoje ela começa a resvalar para a ansiedade da visibilidade.
Não existe nenhum mal em desejar reconhecimento, o problema começa quando o desejo se transforma em presunção e como diz o ditado:
“Presunção e água benta, cada um toma a que quer”
E quando o escritor passa a comportar-se como eleito, muito antes de o ser, e sobretudo quando a não escolha é recebida, a desilusão é grande, mas torna-se maior ainda, quando se faz grande publicidade, criando grandes expectativas nos seus leitores e até no próprio escritor, que muitas vezes, têm um ego bem desmesurado e muito provinciano.
A boa literatura, sempre soube esperar, ela não se constrói no rumor das listas, nem na antecipação dos cartazes, constrói-se sim na persistência anónima, na revisão paciente, porque ela não nasce pronta nem perfeita, ela tem que ser trabalhada, reescrita, afinada e amadurecida ao longo do tempo e ainda no desconforto criativo essa inquietação, que faz sem dúvida crescer a obra e convenhamos, que o verdadeiro talento, raramente faz alarde de si próprio, ele prefere o trabalho à proclamação.
Exemplo disso é o grande poeta português Herberto Helder, que chegou a recusar prémios literários, nomeadamente o Prémio Pessoa e evitou sistematicamente uma exposição mediática, não dava entrevistas nem frequentava a ribalta cultural, cultivava sim uma espécie de invisibilidade deliberada e mesmo assim, foi considerada uma das maiores figuras da poesia portuguesa contemporânea e construiu uma obra intensa, exigente e profundamente singular, sem depender de cerimónias, distinções públicas ou mesmo presença social e este é sim, um verdadeiro contraste à literatura do ego.
No fim, a literatura não pertence aos que mais se anunciam, pertence sim aos que mais se entregam e talvez o maior sinal de maturidade artística, seja realmente este, que é o de escrever como se ninguém estivesse a ver e deixar ainda, que o reconhecimento se vier, que seja uma consequência e nunca uma ambição.
A literatura do ego faz barulho, já a escrita verdadeira faz silêncio e permanece, porque ela existe mesmo quando ninguém a anuncia.