A notícia recentemente divulgada pela RCC confirmou aquilo que muitos covilhanenses já receavam: para aquele terreno, em pleno centro nevrálgico da cidade, a solução em curso aponta para a criação de um parque de estacionamento com 21 lugares, assente numa intervenção que prevê a pavimentação em asfalto de cerca de 590 m², isto é, aproximadamente 70% da área do terreno (887,0 m²). A própria notícia regista ainda que esta opção já foi adjudicada pelo Município e que a preocupação dos cidadãos se centra, justamente, no agravamento térmico e na perda de uma oportunidade mais útil para o centro histórico.
Ora, é aqui que o Sr. Presidente da Câmara tem de se explicar com clareza. Porque não é possível, ao mesmo tempo, defender uma cidade com mobilidade sustentável, falar em retirar veículos do centro e em criar bolsas de estacionamento periféricas para evitar a entrada do automóvel na malha urbana consolidada, e depois optar por instalar mais estacionamento precisamente no coração da cidade. Isto não é estratégia. É contradição. E uma contradição tanto mais séria quanto ocorre junto ao Mercado Municipal, um equipamento com valor económico, social, identitário e com uma centralidade urbana para a Covilhã.
Mais do que discutir um parque, o que está em causa é a visão para aquele quarteirão e para o próprio centro histórico. O terreno em causa não é um vazio indiferente. É um ativo urbano com área, centralidade e capacidade edificatória (Abc=2.781,90 m²), situado ao lado do Mercado Municipal, separado deste por uma via com cerca de 8 metros, o que permite pensar, com racionalidade e ambição, numa solução articulada de ampliação funcional do mercado através de uma passagem superior fechada e transparente, integrando os dois corpos edificados numa lógica de continuidade urbana e económica.
Os próprios estudos e imagens anexas para a revitalização do Mercado Municipal apontam para uma ideia de agregação dos vários espaços, de maior fruição do conjunto, de melhores condições para a prática do comércio e para o contacto com os produtos regionais do mercado tradicional, com valências como floricultura, peixaria, padaria, talho, artesanato e último piso com uma praça interior arborizada como local de lazer passeio e descanso apoiado por uma zona de cafetaria e restauração. Essa é a matriz certa: qualificar, integrar, valorizar e dar escala económica ao mercado. Não amputá-lo da sua possibilidade natural de crescimento.
Se tomarmos como referência um valor do terreno na ordem dos 430 mil euros e lhe somarmos uma obra que dificilmente custará menos de 100 mil euros, estamos a falar de uma operação próxima dos 530 mil euros. Património adquirido pelos covilhanenses merece respeito. E respeitá-lo não é desperdiçá-lo numa solução cara, pobre e sem ambição.
Por isso, a alternativa séria não é entre asfalto ou vazio. A alternativa séria é entre uma visão redutora e uma visão transformadora. Em vez de gastar recursos públicos a criar mais uma plataforma de estacionamento à superfície, de retorno urbano pobre e de coerência estratégica duvidosa, a Câmara devia estudar uma ampliação do Mercado Municipal que servisse a economia local e, em particular, os nossos agricultores da Cova da Beira. Um novo edifício, implantado naquela parcela, poderia acolher áreas de venda de produtores, espaços de transformação e valorização de produtos endógenos, restauração e cafetaria, zonas de apoio logístico, instalações sanitárias e balneários, melhores acessibilidades, condições dignas para comerciantes e visitantes, e até estacionamento integrado em 2 caves, aproveitando o desnível natural da via, sem sacrificar à superfície um terreno com esta importância.
Essa seria uma opção mais útil economicamente, porque reforçaria a atratividade do mercado, aumentaria o tempo de permanência no centro, criaria novas razões para consumir localmente e abriria espaço a cadeias curtas de comercialização que aproximam produção e consumo. E seria mais útil socialmente, porque qualificaria o espaço urbano, reforçaria o papel do mercado como ponto de encontro entre cidade e ruralidade, e devolveria aos agricultores da Cova da Beira um lugar de maior visibilidade, de maior dignidade comercial e de maior valor acrescentado. A Covilhã não precisa apenas de gerir o centro histórico. Precisa de o ativar.
É por isso que esta discussão não pode ser tratada como um detalhe de obra ou uma mera questão de circulação automóvel. É uma escolha política sobre o modelo de cidade. O que se pergunta ao Sr. Presidente é simples: quer uma Covilhã que reforça o seu centro histórico com mais economia, mais produtores, mais comércio e mais vida, ou quer uma Covilhã que responde a um problema complexo com a solução mais pobre, mais curta e mais desarticulada? Porque naquele local, ao lado do Mercado Municipal, o que falta não é mais asfalto. O que falta é visão. E a cidade tem o direito de saber qual é, afinal, o caminho que o executivo quer seguir.
Covilhã, Abril 2026