Escrevi um artigo para o jornal onde trabalho, lá no Brasil, a falar sobre os tempos em que o sol brilhava como rei. No texto, falei sobre como nos sentíamos quando íamos à praia, em especial, de uma mistura de aromas que envolvia o bronzeador e a esteira de palha, artefactos utilizados pelas mulheres para deixar o corpo com as cores do verão. Enviei o texto a umas amigas que, é claro, voltaram no tempo, no bom tempo que foram aqueles anos 80. Uma delas disse-me que é importante criarmos novas memórias ao longo do tempo e das fases que vivemos. Do contrário, é grande a possibilidade de vivermos em melancolia.
Eis que aquela imagem da esteira ficou na minha cabeça. Deve ser por conta das temperaturas, que andam a subir, convidando-nos a pensar na praia, de uma pausa à beira-mar. Aliás, a brisa do mar é algo genuinamente português. Inspirou grandes personalidades e está presente na poesia de Sophia de Mello Breyner. Não é preciso dizer mais nada sobre o poder do mar. Até aqui na Covilhã, de tanto se ouvir falar em praia, observamos a névoa densa do Zêzere e, não raro, chamamos-lhe Mar da Covilhã, tamanha a importância do verão – e do mar - nas nossas vidas.
Outra amiga, filósofa, disse-me estar a andar como o coelhinho de Alice no País das Maravilhas, sempre a correr. Por sinal, outro sintoma omnipresente na vida de toda a gente. Correr, correr, correr. Mesmo sedentários, vivemos sempre a correr. Não temos mais os pés presos ao chão e, se continuar assim, em breve o nosso planeta será renomeado, de Planeta Terra para Planeta Esteira. Não a esteira de palha, que usávamos para sentar na areia da praia. A esteira do ginásio, do tapete rolante do supermercado, aquela que está sempre a correr, que não para, que não dá volta atrás.
Quando me lembro dos primeiros dias de confinamento por conta da pandemia, vem-me à memória a sensação de que a Terra havia descansado. Como uma paragem de máquinas, para troca das engrenagens da tal esteira. De certo modo, abstraindo todo o medo que a comunicação social fez questão de espalhar pelos quatro cantos do planeta, foram dias muito bons. Não fossem as milhares de vidas perdidas inesperadamente, a pandemia teria marcado os nossos dias como nunca. E do apagão de 2025, quem se lembra? Foi uma espécie de paragem programada. Algumas horas, muitas incertezas, mas aquela sensação boa de que sim, podemos parar um pouco e deixar de viver a vida como se fôssemos o coelhinho da Alice.
Afinal, abril chegou ao fim. As andorinhas já andam a desenhar nos vidros, marcando a presença frenética do verão. Moléculas em agitação e até mesmo uma certa correria. Ou seria revoada? Não importa, a natureza ensina-nos que há tempo para tudo. O livro de Eclesiastes diz-nos que Deus tem um propósito para cada coisa debaixo do céu. Entre as diversas sentenças deste lindo texto, termino, como sempre, com a pergunta do versículo 9: “que proveito tira o trabalhador de todo o seu esforço?”
Bem-haja!