Opinião: Pires Manso | A guerra no Irão e a anatomia de um choque económico: uma leitura crítica feita por economistas internacionais
Por Jornal Fórum
Publicado em 30/04/2026 09:00
Opinião

A eclosão do conflito envolvendo o Irão reacendeu um debate que muitos governos preferiam evitar: até que ponto a economia global continua estruturalmente vulnerável a choques energéticos? A resposta, à luz das reações dos mercados e das revisões de previsões económicas, é desconfortavelmente clara. Apesar de décadas de investimento em renováveis, diversificação de fornecedores e avanços tecnológicos, o sistema económico mundial permanece dependente de um estreito com apenas algumas dezenas de quilómetros — Ormuz — e de um conjunto de rotas energéticas cuja fragilidade é bem conhecida.

Os primeiros sinais foram imediatos. O petróleo subiu, em poucos dias, mais de 10%, o gás natural europeu e asiático disparou mais de 50%, e os mercados financeiros oscilaram com a volatilidade típica de períodos de incerteza geopolítica. Estes movimentos não são apenas reações emocionais dos investidores; são indicadores de um sistema económico que continua a reagir de forma quase automática a qualquer ameaça ao fluxo energético global.

Do ponto de vista técnico, o Estreito de Ormuz é um single point of failure da economia mundial. Como recorda a S&P Ratings, cerca de 20% do petróleo global e uma parcela equivalente do GNL passam por esta rota. O fecho prolongado do estreito — mesmo que improvável — seria um choque de oferta comparável aos grandes episódios das décadas de 1970 e 1980. A diferença é que, hoje, a economia global é muito mais integrada, mais rápida e mais sensível a perturbações súbitas.

As revisões das previsões energéticas ilustram bem esta vulnerabilidade. O Goldman Sachs aumentou significativamente as projeções para o gás natural e o petróleo, antecipando perdas de produção no Médio Oriente e um prémio de risco geopolítico persistente. A análise é tecnicamente sólida: inventários em queda, capacidade de armazenamento limitada e incerteza prolongada criam um ambiente propício a preços elevados. Contudo, a dependência de cenários de curto prazo revela a dificuldade estrutural de modelar choques geopolíticos num sistema económico que privilegia previsões estáveis.

No plano macroeconómico, o J P Morgan estima que preços elevados até meados de 2026 reduziriam o crescimento global em 0,6 p.p. e aumentariam a inflação em mais de 1 ponto. Embora os seus analistas classifiquem este impacto como “modesto”, a avaliação merece uma leitura crítica. A economia global pode não entrar em recessão, mas a combinação de inflação persistente, custos energéticos elevados e políticas monetárias restritivas cria um ambiente de risco que não deve ser subestimado.

A Europa surge como o caso mais emblemático desta fragilidade. Altamente dependente de energia importada, enfrenta uma redução do crescimento e uma pressão inflacionista que limita a margem de manobra do BCE. A Goldman Sachs estima perdas de 0,1 a 0,2 p.p. no crescimento da zona euro, Reino Unido, Suécia e Suíça. A Noruega, exportadora de energia, é a exceção que confirma a regra: num continente vulnerável, apenas quem controla recursos energéticos beneficia.

Na Ásia, o impacto é ainda mais direto. A China, que absorve cerca de 80% das exportações de petróleo iraniano, terá de procurar alternativas num mercado já pressionado. Economias como Tailândia, Coreia e Filipinas enfrentam deterioração dos termos de troca, moedas sob pressão e custos energéticos que podem comprometer a competitividade industrial. A análise dos economistas asiáticos é clara: mesmo um choque aparentemente pequeno — como um aumento de 10% no preço do crude — pode representar custos equivalentes a 0,2% do PIB nalgumas economias emergentes.

No Médio Oriente, o impacto económico vai além da energia. A suspensão de voos, a retração do consumo e o aumento da perceção de risco afetam setores como turismo, imobiliário e serviços. Países como Bahrein, Kuwait, Qatar e Iraque, dependentes de Ormuz, enfrentam riscos que podem comprometer estratégias de diversificação económica que vinham sendo promovidas há anos.

No mercado cambial, o dólar americano (USD) reforça a sua posição como moeda-refúgio. A resiliência do dólar não é apenas um reflexo da economia americana, mas da ausência de alternativas credíveis num contexto de volatilidade energética. O euro, por sua vez, enfrenta riscos adicionais devido à dependência europeia do gás natural, com o TTF a desempenhar um papel central na deterioração dos termos de troca.

O que este episódio revela, em última análise, é a contradição estrutural da economia global contemporânea. Por um lado, apresenta-se como um sistema sofisticado, tecnologicamente avançado e resiliente. Por outro, continua dependente de infraestruturas vulneráveis, de rotas marítimas congestionadas e de equilíbrios geopolíticos frágeis. A guerra no Irão pode ou não prolongar-se, mas já expôs uma realidade incontornável: enquanto o mundo não resolver a sua dependência energética estrutural, continuará a viver à mercê de choques que, embora previsíveis, parecem apanhar, sempre, os mercados de surpresa.

Portugal, a energia, e a crise do Estreito de Ormuz

Como referido no artigo anterior, apesar de Portugal não importar nem gás nem petróleo daqueles países que transportam ou escoam esses produtos por aquele Estreito, a verdade é que pela forma globalizada como os preços dos produtos energéticos são formados, Portugal será afectado por estes eventos perturbadores do normal funcionamento dos mercados. E vai acontecer quer nos preços dos produtos energéticos – isso logo se comprovou na primeira semana a seguir aos ataques israelo-americanos ao Irão – quer nos preços em geral. Isto porque aqueles produtos são utilizados por todos os sectores de actividade económica. De facto, todos eles precisam de energia para produzir e também para transportar os produtos para os mercados consumidores/clientes. E essa influência vai sentir-se quer nos grandes centros quer nos lugares mais recônditos da província interior. A sua intensidade vai depender, sobretudo, da duração desta perturbação.

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