Chegou o Mundial de Futebol. Com ele, todas as alegrias que o desporto é capaz de proporcionar. É assim a cada quatro anos. Ficamos com aquela sensação de estar de férias sem deixar de trabalhar. Quiçá esta seja uma mais-valia do futebol, essa capacidade de nos distrair numa janela de tempo.
Pouco antes de iniciarem os jogos, a comunicação social parece ganhar um tema que, digamos, agrada a todos, exceto aos que odeiam o desporto. Nesta janela do tempo – e da comunicação - nada de política, de escândalos, nada de violência. A impressão que temos é a de que o planeta passa a funcionar como gostaríamos. É pena que, por trás disso tudo, haja uma inconveniente tolerância.
O Mundial deste ano é uma inovação se comparado às edições anteriores. Além de ser realizado nos três países da América do Norte, contará com quarenta e oito seleções. Mais sedes, mais equipas. São tantas que é como se um quarto do planeta estivesse representado na competição. Nem é preciso dizer que a Terra há de parar para assistir aos jogos. Até mesmo os países que não irão competir, como é o caso da Itália, render-se-ão ao espetáculo do desporto mais popular do planeta. Fora isso, a vida continua, e sabemos bem de que forma.
A tolerância pode - e deve - ser uma grande virtude para a vida em sociedade. Sem ela seria impossível exercermos o perdão, um dos maiores ensinamentos da era cristã. Porém, até mesmo a tolerância exige limites. De certa forma, a realização do Mundial num país beligerante como os Estados Unidos não deixa de ser uma forma de tolerância. Imaginemos, por exemplo, quão lindo seria, se após o último apito, pudéssemos tirar algum proveito deste Mundial. Um proveito que fosse além da distração, um momento de união e paz mundial, como se o sinal sonoro do árbitro pusesse fim a todos esses conflitos por que passa o nosso pobre planeta. Um legado de paz.
Reconheço que trazer este assunto para os amantes do futebol é uma chatice. De qualquer jeito, é importante dizer que se o Mundial não trouxer luz ao que se passa no ambiente internacional, estaremos diante da repetição do que foram os Jogos Olímpicos de 1936, realizados em Berlim (Alemanha). Naquela oportunidade, Hitler utilizou o evento para camuflar o seu antissemitismo e a promoção da tal «superioridade da raça ariana». É óbvio que Trump não teve este nível de inteligência, mas se compararmos bem os dois momentos, a tolerância aos conflitos poderá levar quarenta e sete nações a consentir com a política intervencionista norte-americana. E os espectadores? Compactuarão com a guerra ou dirão que era só um jogo de futebol?
Em nome da liberdade, um dos maiores valores defendidos pelos Estados Unidos, seria muito interessante se, antes de cada disputa, as equipas pudessem aproveitar a enorme visibilidade do evento para se manifestar, num protesto em favor da paz. Seria ótimo, também, se pudéssemos ter uma partida entre os Estados Unidos e o Irão. A história dos Mundiais já deu exemplos parecidos. Desta vez, os «homens» terão a oportunidade de, sem precisar de dar um grito, sem disparar um só tiro (para além dos remates à baliza), mostrar ao mundo inteiro que a guerra não tem sentido algum diante da confraternização universal promovida pelo desporto. Sabemos que a omissão leva ao castigo. Será este Mundial uma festa alienante ou um sinal dos novos tempos?