Uma das qualidades mais valorizadas na política parece ser, demasiadas vezes, a capacidade de dizer uma coisa hoje, defender o contrário amanhã e agir como se nunca tivesse existido qualquer contradição.
Chamam-lhe habilidade política. Outros preferem falar em pragmatismo. Mas, em muitos casos, o nome mais adequado é mesmo cinismo. E quando o cinismo se apresenta acompanhado de discursos moralistas, promessas solenes e súbitas mudanças de posição, surge a sua companheira habitual: a hipocrisia.
Não se trata de exigir que um político nunca mude de opinião. Mudar de posição perante novos factos pode ser um sinal de inteligência e responsabilidade. O problema começa quando se muda por conveniência, sem explicação, sem assumir o erro e, sobretudo, procurando convencer os cidadãos de que a posição anterior nunca existiu.
É nessa altura que o pragmatismo deixa de ser uma ferramenta de governação e passa a ser um refúgio para a falta de princípios.
Maquiavel percebeu, há vários séculos, que a política não funciona exclusivamente segundo as regras da moral individual. Um governante tem de tomar decisões difíceis, negociar, estabelecer compromissos e, por vezes, escolher entre soluções imperfeitas. A política não é um exercício de pureza. Governar exige realismo.
Mas não podemos transformar o pensamento de Maquiavel numa autorização permanente para mentir, manipular ou abandonar todos os valores em nome da conservação do poder.
O problema não está na negociação. Está na ausência de convicções.
Não está no compromisso. Está na facilidade com que se sacrificam os compromissos assumidos com os cidadãos.
Não está em reconhecer que a realidade mudou. Está em reescrever o passado para proteger o presente.
A chamada Realpolitik baseia-se na consideração prática dos interesses e das relações de poder. Em determinados momentos históricos, permitiu evitar conflitos, construir alianças e encontrar soluções possíveis quando as soluções ideais não estavam disponíveis. O pragmatismo pode, portanto, ser legítimo e até necessário.
Porém, há uma linha que não pode ser apagada: a linha entre adaptar os meios para alcançar um objetivo legítimo e abandonar todos os princípios para preservar um lugar, um cargo ou uma maioria.
Quando alguém critica uma proposta apenas porque foi apresentada por um adversário e, algum tempo depois, apresenta a mesma ideia como se fosse sua, não estamos perante uma evolução política. Estamos perante oportunismo.
Quando se prometem soluções em campanha e, depois das eleições, se explica que afinal eram apenas intenções, não estamos perante prudência governativa. Estamos perante desresponsabilização.
Quando se invoca a transparência na oposição, mas se praticam o silêncio e a opacidade no poder, não estamos perante pragmatismo. Estamos perante hipocrisia.
Este comportamento tem consequências. A repetição destas práticas alimenta a ideia de que “os políticos são todos iguais”, de que as promessas não valem nada e de que a participação democrática é inútil.
É assim que o cinismo dos políticos acaba por produzir o cinismo dos cidadãos.
As pessoas afastam-se, deixam de acreditar, deixam de participar e passam a olhar para cada decisão pública como resultado de interesses escondidos. Mesmo quando uma medida é positiva, a desconfiança instala-se. E uma democracia sem confiança pode continuar a realizar eleições, mas perde progressivamente a sua legitimidade social.
As redes sociais agravaram este problema. A informação circula rapidamente, mas muitas vezes sem contexto. Uma frase retirada de uma intervenção pode substituir todo o pensamento de quem a proferiu. Um título indignado vale mais do que uma explicação fundamentada. Os algoritmos privilegiam o conflito porque o conflito gera comentários, partilhas e visualizações.
Neste ambiente, o cinismo tornou-se uma estratégia de comunicação.
Já não interessa apenas decidir bem. Interessa controlar a narrativa, escolher a fotografia, produzir o anúncio e garantir que a versão mais conveniente chega primeiro aos cidadãos. A política corre, assim, o risco de se transformar num espetáculo permanente em que o anúncio vale mais do que a execução e a aparência substitui o resultado.
O combate a esta realidade não pode depender apenas da boa vontade dos governantes. Precisa de instituições fortes, transparência, fiscalização e participação.
As decisões devem ser fundamentadas. Os compromissos devem ser avaliados. Os documentos públicos devem ser verdadeiramente acessíveis. Os órgãos políticos devem prestar contas. A oposição deve fiscalizar com rigor, mas também reconhecer as boas decisões. E quem governa deve ter a humildade de admitir erros, corrigir caminhos e dar mérito a quem apresentou primeiro uma proposta válida.
Nada disto enfraquece a política. Pelo contrário, dignifica-a.
Também os cidadãos têm uma responsabilidade. É necessário procurar informação, comparar declarações, distinguir factos de propaganda e resistir à tentação de partilhar tudo o que confirma as nossas simpatias ou antipatias. A literacia política e digital é hoje uma condição essencial para o funcionamento da democracia.
O pragmatismo pode ser uma virtude quando permite resolver problemas concretos sem abandonar os valores fundamentais. O cinismo, pelo contrário, começa quando o poder deixa de ser um meio para servir a comunidade e passa a ser um fim em si mesmo.
A política precisa de estratégia, inteligência e capacidade de negociação. Mas também precisa de memória, coerência e responsabilidade.
Porque uma sociedade pode aceitar que um político mude de opinião. Pode compreender que nem todas as promessas sejam imediatamente concretizadas. Pode até tolerar erros e recuos.
O que dificilmente continuará a aceitar é que a tratem como se não tivesse memória.
A questão que devemos colocar não é apenas se os políticos são cínicos ou hipócritas. A verdadeira questão é saber durante quanto tempo os cidadãos estarão dispostos a premiar eleitoralmente esse comportamento.
E essa resposta não depende apenas dos políticos. Depende de todos nós.