Com a recente criação das Universidades Politécnicas da Guarda e Castelo Branco fecha-se um ciclo e abrem-se oportunidades. Sim, fechou-se o ciclo que extinguiu o nome Covilhã no ensino superior da cidade em função da designação Beira Interior. Esta designação tinha virtudes que eventualmente se perderam e hoje já não fazem sentido. Mas é importante recordar a história desde o Instituto Politécnico da Covilhã, criado pelo Decreto-Lei n.º 402/73, de 11 de agosto.
Posteriormente, a Lei da Assembleia da República n.º 44/79, de 11 de setembro, criou o Instituto Universitário da Beira Interior, em substituição do Instituto Politécnico da Covilhã, que foi então extinto. Convém recordar que no ponto 3 do art.º 2.º da mesma Lei se instituía como obrigatória, para assegurar os vários interesses da região da Beira Interior, a inclusão na Comissão Instaladora de elementos representativos dos principais centros urbanos dos distritos da Guarda e de Castelo Branco, os quais seriam designados pelas respetivas assembleias distritais. Era primeiro-ministro, Maria de Lurdes Pintasilgo. Ou seja, criava-se o IUBI na Covilhã, mas este era tutelado politicamente pelas duas capitais de distrito.
Foi o preço que a Covilhã teve de pagar, e aceitou, para ter uma universidade, o de ver apagado o seu nome do ensino superior. Na altura não havia outra opção. Convém ainda notar que no ponto 2 do art.º 4.º é ainda imposta pelo Estado uma tarefa especial ao IUBI de então… “Correspondendo às necessidades que o desenvolvimento regional suscitar, o Instituto Universitário da Beira Interior deverá apoiar científica, tecnológica e pedagogicamente os estabelecimentos de ensino superior de curta duração que vierem a ser criados nos distritos da Guarda e de Castelo Branco.” Isto é, embora a Covilhã visse apagado o seu nome do IUBI, ela teria como missão tutorar e articular o desenvolvimento do ensino com os futuros politécnicos da Guarda e Castelo Branco, algo que nunca aconteceu seriamente.
Entretanto, pelo Decreto-Lei n.º 513-T/79, de 26 de dezembro, é criado o Instituto Politécnico de Castelo Branco, enquanto parte de um plano para criar um Politécnico em cada distrito, como diz o respetivo Decreto-Lei, e que agrupava então apenas as escolas superiores de educação e agrária. Posteriormente, pelo Decreto-Lei n.º 303/80, de 16 de agosto, é criado o Instituto Politécnico da Guarda com a inclusão da escola superior de educação.
Finalmente, o Decreto-Lei n.º 76-B/86, de 30 de abril, extingue o Instituto Universitário da Beira Interior e cria, em sua substituição, a Universidade da Beira Interior. Mas esta promoção mantinha os deveres do antigo IUBI, com a obrigatoriedade, no seu art.º 3.º… “A Universidade da Beira Interior continuará a apoiar ações previstas no n.º 2 do artigo 4.º da Lei n.º 44/79, de 11 de setembro, mediante acordos de cooperação a celebrar com os estabelecimentos de ensino a que se refere aquela disposição legal.” Isto é, continuar a apoiar os institutos politécnicos da Guarda e Castelo Branco. Não era uma opção, era uma obrigação legal. Era primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva. Posteriormente, em 1998, foi criado o curso de medicina na UBI, uma decisão de Conselho de Ministros, sob liderança do então primeiro-ministro António Guterres. Um fator estruturante para toda a região e o país.
Desta história fica claro que a Covilhã percebeu que tinha de aceitar algumas limitações, mormente fazer o sacrifício maior de eliminar o seu nome, para garantir o ensino universitário na região. Foi um sacrifício que os políticos de então entenderam, e bem, que mais importante do que o nome era conseguir garantir a produção de quadros superiores de qualidade, com óbvios benefícios para a Covilhã. Mas também não é menos verdade, em vista da cronologia de factos, que à UBI caberia apoiar os dois Institutos Politécnicos e, eventualmente, articular as tipologias de formação funcionando, não em competição, mas em complementaridade. Mas não foi isto o que aconteceu!
Não devemos lamuriar-nos pelo facto de os dois Institutos Politécnicos terem crescido, e hoje terem escolas que tentam fazer concorrência à Universidade da Beira Interior. Isso é positivo, pois a competição leva a que todos sejam mais dinâmicos e tentem dar o seu melhor em prol do desenvolvimento da região e do país. Os dois Institutos Politécnicos trabalharam para ganhar o estatuto de Universidades Politécnicas e conseguiram-no. É claro que ainda estão a muitos anos-luz de distância de atingirem a excelência da formação, a qualidade da investigação, e o reconhecimento internacional com que a UBI é certificada em todos os diferentes rankings internacionais. Mas é importante que as novas universidades politécnicas da Guarda e Castelo Branco continuem a esforçar-se para crescer e desenvolver-se. Portugal matou o Rei e entrou na República com uma única universidade, a de Coimbra, para todo um Império que ia do Minho a Timor. Em termos internacionais, as universidades de Lisboa e Porto são jovens, mas tanto elas como as outras entretanto criadas, como a UBI, muito contribuíram para o desenvolvimento do País. A concorrência é positiva, beneficia a sociedade.
Mas a concorrência tem de ser regulada e justa. E, hoje, já não é justo e correto que o ensino universitário da Covilhã tenha de apagar o nome da sua cidade. Os estudantes quando vêm para a UBI, desde os nacionais aos internacionais, vêm estudar para a cidade da Covilhã. E é publicidade enganosa, e até estranho, dizermos-lhes que vêm estudar para a região da Beira Interior. Um estudante quando escolhe a UBI não espera viver em Almeida, Oleiros, Castelo Branco ou Guarda, por mais simpáticas que sejam essas terras. O que também dá carisma à nossa universidade é o ambiente universitário que os estudantes encontram na cidade-campus da Covilhã.
As escolas foram uma criação dos mosteiros, como há muitos exemplos na Idade Média. Mas, a universidade, é uma criação das cidades. A Universidade mais antiga é Bolonha, da mesma cidade. E a Universidade de Paris tem assento nessa cidade e é outra das antigas. Assim acontece com muitas universidades. Mas há exceções lógicas, a Universidade do Minho, que está alicerçada há muitos anos, e bem dividida, entre Braga e Guimarães. Já o nome da Universidade de Aveiro relaciona-se com o distrito, pois tem sede na cidade de Aveiro, mas escolas superiores em Águeda e Oliveira de Azeméis. Aqui, na Beira Interior, não foi essa a evolução.
É por isso natural que o Concelho da Covilhã assuma como necessária a redenominação da sua universidade para Universidade da Covilhã e Beira Interior. Não é uma questão de nomes, é uma questão de fazer corresponder os nomes às coisas sem esquecer a sua matriz histórica. Esta denominação terá ainda efeitos positivos na capacidade de atrair estudantes, professores e investigadores. Ou seja, é uma evolução natural que potencia o crescimento e a valorização da nossa universidade. E para tal, segundo a legislação atual, basta um Decreto-Lei do Conselho de Ministros.