"Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer." A frase é do poeta brasileiro Mário Quintana. Traz subtis provocações sobre o dormir e sobre os sonhos. São ações diferentes, eu sei, mas andam lado a lado, mesmo quando não nos conseguimos lembrar de nada ao acordarmos. Por vezes, muitas vezes, nem nos é permitido saber, como se a mente tivesse uma gerente celestial. Em outras ocasiões, é melhor nem saber, tudo em nome da saúde.
Há, portanto, um recôndito das nossas vidas onde a liberdade não tem limites. Não há controlo social, não há moralismo, regras ou algo que impeça o nosso livre pensar. Este lugar é o nosso dormir. Passamos um terço da vida assim e nem nos damos conta. Quem dorme pouco, ou perde a saúde, ou perde a razão, ou, até mesmo, encurta a própria vida. Porque dormir é a parte mais prazerosa do dia. Não se paga nada por isso. Ao dormir descansamos, viajamos, sonhamos. Nada de remorsos como dizia o poeta. Dormir é tão bom que às vezes pergunto-me por que será que não dormimos mais?
De certo modo, tenho de concordar com o vendedor de colchões. Aquele que bate à porta da nossa casa e oferece um equipamento que promete levar-nos aos céus ao preço de um carro usado. Alegam ser «a Ferrari» dos colchões. Pensando bem, há quem invista milhares de euros num automóvel que será utilizado pouco mais de duas horas por dia e, para poder pagar o carro, economiza no colchão, onde permanecemos bem mais tempo do que no automóvel. É como diz a sabedoria popular: não há nada melhor do que uma boa noite de sono.
No fundo, somos aquilo que pensamos. Uma espécie de psicosfera individual. A soma de todos os nossos pensamentos. Por mais que na vida acordada tenhamos de nos comportar conforme as regras do lugar, ao dormir, libertamos tudo o que se passa (ou passou) na nossa mente durante o dia. Aquele rabo que nos desvia o olhar, a relva do vizinho, o nosso lado mais sombrio, fofoqueiro e silencioso. Facetas que poderiam falar mais contra nós do que sobre quem somos. Esses pensamentos soltos do dia, aleatórios e despretensiosos, voltam todos à noite, e não vale dizer que não pensamos só porque não sonhamos com eles.
Ao dormir, cometemos tudo aquilo de que o poeta Quintana dizia arrepender-se. Coisas boas e outras nem tanto. Mas o ato de adormecer leva-nos para muito mais além. Ficamos livres para sonhar com quem amamos, com quem já está em outro plano. Fazemos isso sem qualquer controlo. Cada amanhecer, uma surpresa. Afinal, não é permitido escolher com o que se quer sonhar. Nos sonhos, podemos esbofetear um inimigo e até mesmo fazer as pazes, sem rancor. E por mais que os pensamentos se entrelacem, que as imagens fiquem todas distorcidas, não deixa de ser maravilhoso. Não raro, acordamos chocados, alegres ou a chorar. Ao dormir temos ideias, descobrimos o outro lado e até podemos resolver problemas. Há muita coisa que se pode fazer quando acedemos ao inconsciente.
Afinal, será que dormir não é a melhor parte dos nossos dias? Se for assim, será que o bom da vida não seria sonhar? Claro, não precisamos de passar a vida a dormir. Óbvio que não. São precisos esses dois terços acordados para termos matéria-prima para os sonhos. É o que vivemos acordados que processamos durante o sono. Até a nossa memória é registada enquanto dormimos. Mesmo que, de vez em quando, tenhamos lá uns pesadelos aterrorizantes, dormir faz bem, faz-nos encontrar a nossa verdadeira essência. Uma ligação ao céu. Ao sonhar, temos contacto com o que realmente se passa na nossa vida. Um bom momento para refletir, sem precisar da moral dos outros. Sem custar nada, sonhar é um exercício diário de autoconhecimento.