Na Tradição e no calendário litúrgico católico, todos os meses têm atribuída uma dedicação. Esta dedicação mensal baseia-se nos mistérios da fé, da virtude ou na santidade. O mês de setembro é dedicado a Nossa Senhora das Dores, título mariano, que sempre se associou a Maria, mas cuja devoção se intensificou no séc. XII na Ordem dos Servitas.
São associadas à imagem de Nossa Senhora das Dores, Sete Espadas que lhe perfuram o Imaculado Coração. Cada Espada representa um momento da vida de Maria em que o seu Coração foi abalado por dor imensa, dor imensurável, dor de mãe. Refletir nestas dores, verdadeiramente, é refletir na vida de Jesus — tal como o Rosário, chegar a Deus, através de Maria. Mas que isso, as dores de Maria representam uma atualidade constante. Não são estanques no tempo e no espaço, mas sim perpétuas e eternas, com lições a retirar sobre como lidamos com a nossa dor e com a dor dos nossos próximos. Vejamos brevemente, sem pretensão de exaustividade.
A primeira dor é a profecia de Simeão, ancião do templo, que previu as dores de Maria. A antecipação é hoje a causa de muitas dores. O medo do futuro, a ansiedade de bloqueio, o receio de que os nossos pensamentos nos consumam. A postura de Maria é a de serenidade na dor, de confiança plena no futuro, ainda que negativo. O medo e ansiedade são, então, construções mentais que podem ou não ocorrer na realidade objetiva. Mas mesmo que as piores hipóteses ocorram, a nossa fé e confiança será inabalável.
A segunda dor é a fuga para o Egipto, da sentença de Herodes. A proteção de um filho contra todo o mal é o moto de cada mãe. A sua defesa contra o mundo exterior, contra a maldade inerente. A proteção, o abraço materno, com o receio da vida futura, mas com a necessidade da sua ocorrência, é a maior sopesagem da maternidade.
A terceira dor é a perda do Menino Jesus, durante três dias. O desespero de uma mãe que não sabe o paradeiro do seu filho. A angústia de perder o maior tesouro, o bem mais precioso. Maria procura, dentro das suas possibilidades humanas, sempre com confiança e tranquilidade, sofrendo, na alma, pelo seu Filho.
A quarta dor é a presença no Calvário de Maria. Hoje, muitas mães sofrem com as doenças longas e penosas dos seus filhos, com os seus vícios e com as suas decisões. Maria ensina-nos a não tentar travar o curso dos acontecimentos. A estar só, ali, a olhar, a contemplar, a sofrer. Não num sofrimento vão e necessário, mas numa confiança plena, numa inabalável fé. A presença silenciosa, mas calorosa, é apreciada e valorizada, como extensão da compaixão e do amor.
A quinta dor é a morte de Jesus. A inversão da lei da vida. A morte de um filho. A maior dor imaginável. Quase inimaginável na verdade. Nenhuma mãe pensa que verá a partida do seu fruto. Até na morte do filho, com a espada a perfurar a sua ferida mais funda, Maria mantém-se ao lado, não abandonando e continuando a confiar.
A sexta dor é a descida do corpo de Jesus da Cruz. O toque no corpo falecido, sem vida de um filho. A realidade material a tocar o nosso maior medo. Maria observa, sofre e mantém-se junto do seu filho, mesmo quando a vida parece desaparecer dele para sempre.
A sétima dor é o rolar da pedra no sepulcro de Jesus. A solidão imensa. Que parece eterna e que a acompanharia até ao final dos seus dias. A ressurreição redime o mundo, mas a morte e o dia subsequente são a maior ligação que podemos ter com a dor de Maria. O pensamento que se tornara realidade. O desabamento do nosso mundo, do nosso Filho.
O que aprendemos com as Sete Espadas que perfuram o Coração de Maria é a fé, a reflexão constante, na dor da nossa vida e como lidamos com ela. Se nos deixamos consumir, arrastar e, por fim, cair; ou se, apesar dos maiores martírios, dos maiores sofrimentos, mantemos a fé e guardamos o combate. É Santa Teresinha do Menino Jesus que remata perfeitamente a reflexão sobre a dor na nossa vida, ao dizer que, podemos odiar, não aceitar, ficar revoltados, mas encontramos paz em saber que é a vontade de Deus, em quem tanto confiamos.