Opinião: António Lopes | Base das Lajes
Um ativo estratégico que Portugal não deve desperdiçar
Por Jornal Fórum
Publicado em 28/05/2026 09:00
Opinião

Num contexto internacional cada vez mais instável, a discussão em torno da Base das Lajes regressa com renovada atualidade. Localizada na Ilha Terceira, nos Açores, no coração do Atlântico, esta infraestrutura militar tem sido, ao longo de décadas, um ponto estratégico nas relações entre Portugal e os seus aliados, em particular com os Estados Unidos. Hoje, mais do que um legado do passado, a Base das Lajes volta a colocar uma questão central. Qual é o papel que Portugal quer desempenhar no novo cenário geopolítico?

A resposta não pode ser desconectada do contexto atual. A crescente instabilidade internacional, marcada por conflitos armados, tensões entre grandes potências e uma reconfiguração das alianças estratégicas, devolveu centralidade ao Atlântico. A posição geográfica dos Açores, entre a Europa e a América, ganha, assim, uma relevância renovada, não apenas militar, mas também logística e política.

É neste quadro que a Base das Lajes deve ser pensada, ou seja, como um ativo estratégico e não como um resquício de dependência externa. Durante anos, o debate em torno da base foi marcado por hesitações e por uma certa ambiguidade política. A redução da presença norte-americana levantou dúvidas sobre a sua utilidade e impacto económico local. No entanto, essa leitura ignora um ponto essencial que me parece ser basilar. As infraestruturas estratégicas não se avaliam apenas pelo presente imediato, mas pela sua capacidade de resposta a cenários futuros.

E é precisamente esse futuro que está a mudar. Num momento em que a NATO reforça a sua atenção ao flanco atlântico e em que os Estados Unidos reavaliam a sua presença global, Portugal tem uma oportunidade rara de se afirmar como parceiro relevante, contribuindo para a segurança coletiva e reforçando simultaneamente a sua posição internacional. A Base das Lajes pode ser um instrumento central nesse processo.

Mas essa escolha implica clareza política. Defender a utilização da base não significa abdicar de soberania, mas sim exercê-la de forma estratégica. Significa reconhecer que, num mundo interdependente, a cooperação em matéria de defesa é um elemento essencial da política externa. E significa também garantir que essa cooperação se traduz em benefícios concretos para o país. Seja pelo reforço da segurança até ao impacto económico e ao desenvolvimento regional dos Açores. Ignorar ou desvalorizar a Base das Lajes seria, por isso, um erro. As Lajes não podem, em circunstância alguma ser uma arma de arremesso político ou de tentativa de fragilização de um qualquer governo.

Num cenário internacional incerto, os países que melhor se posicionam são aqueles que sabem utilizar os seus ativos estratégicos com visão e pragmatismo. A Europa joga o seu papel internacional, numa altura marcada pelo seu adormecimento e papel secundário no cenário geopolítico. Portugal tem, por isso, nos Açores, uma vantagem geográfica que poucos podem reclamar. A questão não é se essa vantagem deve ser utilizada, mas como.

Mais do que um símbolo de alianças passadas, a Base das Lajes pode ser uma peça relevante no futuro estratégico de Portugal. Desperdiçá-la seria não apenas uma decisão política discutível, mas sim uma oportunidade perdida num momento em que o país precisa, mais do que nunca, de afirmar a sua relevância no mundo.

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