Opinião: Miguel M. Riscado | Mediocridade
Por Jornal Fórum
Publicado em 23/07/2026 09:00
Opinião

A saga a que temos assistido com os exames nacionais é apenas a ponta do iceberg em matéria de acesso ao ensino superior. Na fase de exames, todos os filhos pródigos se tornam Messis das Humanidades e Ronaldos das Ciências. Os pais vibram mais com os exames com filhos. Mas para quê? Para, passado um mês ou dois, celebrar o golo do ensino superior. Para que universidade? Para que curso? Não interessa…interessa é que a bola passou totalmente a linha de golo. Mas era isso que ele queria? Claro que sim, nunca se imaginou em qualquer outro sítio. Estava escrito nas estrelas. Até quando fomos à feira, uma vidente lhe disse a nota do último colocado e, festejando, fomos logo comer um churro.  

Vivemos verdadeiramente num país pequenino e ridículo. Não é possível que os próprios pais, muitos deles descontentes com a vida e o emprego que levam, queiram substituir-se aos filhos, nos seus momentos, nas suas emoções, na sua própria vida, pela valorização de uma conceção egoísta e fechada de família. O papel dos pais é presentear aos filhos as melhores ferramentas possíveis para, aquando de tomadas de decisão, o recém-adulto poder avançar e, avançando, poder errar e perceber que errar faz parte do percurso. Mas para estes pais não faz. Porque os Messis e Ronaldos, filhos-troféus, não são diferentes de uma cabeça de veado emoldurada na parede do salão. E esta atitude infantil propaga-se, lá está, para os próprios filhos, que se infantilizam onde não devem, ficando apenas adultos no que não interessa. 

Essa infantilização, continuando a propagação, atinge o ensino superior. Torna-se uma continuação do ensino secundário. O que seria o caldeirão investigativo, a troca de posições doutrinárias e a criação de um ser capaz de, dentro do seu campo de estudo, tomar posições, transforma-se num 13.º ano e por aí fora. A já difícil condensação de cinco anos pré-Bolonha em três, reduz-se a zero de investigação e a três mais dois de continuação da lógica aluno-professor, de choro nos exames e de aversão à exigência académica.  

Ninguém pode desmentir que o teatro dos exames foi ridículo; mas é ridículo todos os anos. O fanatismo dos professores vigilantes, o cansaço dos professores corretores, a ânsia dos pais vibrantes e o desespero dos alunos. E isso ocorre porquê? Porque todos se sentem completamente sem controlo da situação. O esforço e o estudo para um exame nacional é inegável, mas há uma verdade de aleatoriedade, de espetáculo, que nós tanto gostamos. E é apenas por isso é que se fala nos exames nacionais. Quando ouvimos que é a vida dos alunos…alguém morreu por não entrar na primeira opção e mudar na próxima fase? Por não entrar num ano, repetir os exames e entrar no ano seguinte? Transmite-se a um filho a ideia de imediato, de tudo ou nada. A vida, por acaso, é alguma coisa disso? E transmite-se essa ideia porque se o nosso filho, nesta lógica fechada, “falhar” — o que não é falhanço nenhum, é um obstáculo para ser ultrapassado —, somos nós que falhamos no que, na mesma lógica, não podíamos. 

Os alunos sabem o peso que os exames têm, mas a reação vibrante dos pais é uma muleta de proteção para um falhanço que não o é. A vitimização, o facilitismo e a mediocridade entram assim dos pais para os filhos e dos filhos para o ensino. Será que é mau um filho para um curso profissional? Ou começar a trabalhar, consciente e responsavelmente, sem ir para a universidade? A projeção da realidade que não vivemos nos homens do amanhã é o maior degredo social possível. 

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