Opinião: Marcos Leite | De volta às aulas
Por Jornal Fórum
Publicado em 24/09/2026 09:00
Opinião

Sempre que oiço alguém dizer a palavra ginásio, lembro-me logo do meu pai e das poucas histórias que ele contava. Naquele tempo, no Brasil, o ginásio era o período da escola que hoje corresponde ao segundo e terceiro ciclos do ensino básico. Mas o ginásio de que vou falar hoje não é o brasileiro, que lá tem outro significado, mas isso não posso contar agora.

De volta das férias de verão, depois de dias memoráveis junto à praia, o meu primeiro compromisso foi com a saúde. Tinha uma consulta médica de rotina, de onde saí taciturno. Era óbvio que os marcadores não me perdoariam. O resultado das análises até que não me surpreendeu negativamente, mas era preciso agir, dar uma resposta. Uma resposta que não viria da endocrinologista e das estatinas que terei de tomar doravante, para além da losartana e da levotiroxina. É incrível como o nosso vocabulário médico aumenta com o passar dos anos. Enfim, precisava de dar uma resposta a mim mesmo.

Foi então que tomei a primeira providência, depois dos remédios, é claro. Não sei dizer se foi efeito da medicação, mas acabei por parar num lugar que poderia ser chamado de céu, não fosse o calor vulgar e os sons que lá se ouvem. Uma mistura metálica de respiração, sudorese, música e movimentos repetitivos, quase autómatos. Lá dentro, muitos jovens com os seus corpos alinhados. No entanto, havia um ou outro barrigudo como eu, além da vizinha com excesso de peso que sempre vejo passear com o cão. Aliás, eu nem imaginava que caminhar com o cão engordava.

Naquele local sentia-me perdido, sem saber por onde andar e tampouco o que fazer. Não fosse a vizinha, eu seria um total estranho no ninho. Era a certeza de que não havia enlouquecido, o que me permitiu um lampejo de lucidez para afastar a ideia de que tinha morrido. O lugar era realmente estranho, não conversava comigo. Não era inóspito, mas tinha uma atmosfera que não parecia ser o tal de céu, pelo contrário, tinha até algumas coisas que me faziam imaginar ser o inferno, até porque no céu não deve haver tantos jovens. Não sei. Foi quando então me dei conta e recobrei a minha consciência. Eu estava num ginásio.

Depois desta experiência, convenci-me de que, no caso das pessoas privilegiadas, essas que têm a sorte de não ter doenças graves, a saúde depende exclusivamente do comportamento. Este raciocínio fez-me perceber que fiz muito mal ao meu corpo nessas duas últimas décadas. Churrascos, cervejas e sofá. Não necessariamente nesta ordem, mas algo sempre esteve ausente na minha rotina: o exercício físico. Boa vida e falta de atividade física é uma combinação mortal, eu sei. Infelizmente, eu não fazia nada além das minhas obrigações, apenas as distrações que a vida agitada oferece. Nessa rotina casa-trabalho-casa, quanto mais nos cansamos para conquistar ou manter os bens e os recursos, mais gastamos com coisas que tiram a nossa saúde. O problema é que esse comportamento se cristaliza. Fica então difícil estabelecer novas rotinas, ainda mais quando se vive em família, rodeado de gerações diferentes e que ainda esbanjam vitalidade. Por falar nela, sabemos que ela é finita. Chegar ao fim da vida com saúde garante uma morte corporal digna, além de não dar trabalho aos outros.

Demorei, mas entendi que não posso cuidar apenas do meu espírito. Por isso estou aqui, fazendo esta confissão. Com oitenta e dois quilos (e não anos) e uma barriguinha bem portuguesa, culpa da habilidade com que este povo transforma o trigo em pão e as uvas em vinho, começo, quiçá, um novo tempo. Nada de abstinências, jejuns, ou outras fantasias que já pratiquei. Agora é exercício físico. Sem desculpas, apenas uma leve mudança de hábito. A partir de agora, lá vou eu ao céu, que por muito tempo me parecia um inferno, tamanha minha resistência. Não gosto de ginásios, tenho preguiça. Não vejo graça em ficar a esculpir o corpo, por mais que na juventude o meu fosse muito adequado aos padrões atuais. O que eu preciso então? Saúde. A condição para levar o corpo e a mente adiante. Há tantas coisas que ainda quero realizar, tantos livros para ler. E o ginásio? Ah, é como os portugueses se referem ao que os brasileiros chamam de academia. Então, não vai ser uma academia ou ginásio que me vai derrubar. Nem ela, nem o colesterol. Viva! Estou de volta às aulas!

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