Opinião: Teresa Inácio | Subscrição: Adulto Premium
Por Jornal Fórum
Publicado em 28/05/2026 09:00
Opinião

Já todos sobrevivemos àquele almoço de domingo, onde um tio qualquer, entre a segunda ou terceira taça de vinho, garante que no tempo dele a vida era uma epopeia. Caminhavam vários quilómetros a pé para a escola, para o trabalho até lutavam contra a neve.

A carteira? Essa, era um mito urbano e a fome? O “pão nosso de cada dia”.

Do outro lado da mesa, acenamos com a cabeça e esboçamos um pequeno sorriso, porque afinal somos privilegiados, carregando um fardo invisível de sermos a “geração mimada” e que pouco ou nada quer trabalhar, mas talvez se aplique a alguns, quiçá.

Somos, dizem eles, mais complexos, mais queixinhas, mas a verdade é que agora carregamos outros fardos que na altura nem sequer tinham nome.

Mas afinal, o que é ser um adulto no séc. XXI?

Que exigências esta época nos trouxe?

A título pessoal, confesso que pertenço a uma daquelas gerações híbridas, digamos assim.

Uma espécie rara e bastante privilegiada.

Somos a geração “ponte”. 

Crescemos sem telemóveis e a brincar na rua até as luzes dos candeeiros acenderem. Somos do tempo quase jurássico, dos gloriosos “quatro canais” e uma antena no telhado que falhava com o mau tempo (frequentemente revestida em papel de alumínio) para conseguirmos apanhar os “espanhóis”.

Se estiverem atentos ainda poderão observar alguns desses fósseis espalhados nos telhados.

A tecnologia entrou nas nossas vidas a conta-gotas. Primeiro, uma box a ganhar pó na sala. Depois, o Santo Graal, uma pen da TMN que nos dava a alucinante quantia de dois gigas de internet por mês. Dois gigas! Atualmente, isso não chega para carregar dois stories e um post da nossa influencer preferida.

Fomos capacitados para escrever em telemóveis de teclas, ficamos tão ágeis que parecíamos ninjas a escrever mensagens debaixo da mesa, na sala de aula, sem sequer olharmos para o ecrã. Somos do tempo em que uma mensagem tinha um custo de uma atual pastilha elástica.

E a bateria?

Deixem que vos conte esta maravilha, a bateria de um Nokia não se carregava, herdava-se!

O jogo da cobrinha era o nosso e-sport preferido, “sacar” músicas e filmes era para os mais habilidosos e com maior subscrição de internet.

E telemóveis com tampa? Eram o expoente máximo do glamour e estatuto nos intervalos.

Passávamos horas a derreter pestanas em frente a uma televisão bastante gordinha e, surpresa das surpresas sobrevivemos. Não era assim tão grave.

Fizemos a transição dos trabalhos de grupo, primeiramente cartolinas coloridas a 40 cêntimos, coladas com UHU e vários recortes de jornais e desenhos bonitos. Transitamos de enciclopédias nas bibliotecas para os primórdios do Google. Eram outros tempos, quando a internet falhava, algo frequente, o Google criava um joguinho retro.

As nossas fotografias a gatinhar estão em papel fotográfico dentro de álbuns e as da adolescência em discos externos, guardados em gavetas para quiçá, um dia se revisitarem.

E hoje?

Para aperfeiçoar esta geração que cresceu no analógico e desaguou no digital, confiamos a nossa vida a uma IA, que nos ajuda até na lista de compras.

E é precisamente a nós, sobreviventes da internet por cabo telefónico, que a sociedade exige agora a subscrição do pacote “Adulto Premium”.

Mas afinal o que é isso?

É uma criatura mítica que tem a lida da casa imaculada, passa a ferro e domina a Airfryer. Percebe de taxas Euribor e dá os seus toques nos ETFs. Faz as marmitas da semana ao domingo e começa a pensar na próxima geração. Tem uma vida resolvida antes dos 30. Resolvido com um total de zero créditos ao banco. Um T2 bem decorado, uma conta bancária bastante estável e, uma profissão para a vida.

No fundo, é uma ilusão gerada pelas redes sociais, a pressão constante de uma vida perfeita e uma leitura por semana. A aquisição do máximo de conhecimento, praticar desporto, ser matinais e dominar uma agenda preenchida, respirar?

Não faz parte dos planos.

Vemos o trabalho de outra forma, porque a vida pessoal ganhou outro impacto. Nem sempre é bem visto, por uns pagam os outros.

O “Adulto Premium” é uma obsessão que nos impõem sem darmos conta. E, para variar, fazemos isso a nós mesmos. É uma personalidade empacotada a vácuo, que não nos cabe no peito e que, na dura realidade, não tem espaço para existir. Alimenta-se de toxicidade alheia e, passa os seus dias a fazer scroll, a pensar em como devíamos ser e não em como efetivamente somos e está tudo bem.

Vivemos, por procuração, uma vida perfeita que não nos pertence, online.

Tudo isto, claro... na versão “Adulto Premium” grátis, com anúncios.

Gostou deste conteúdo?
Ver parcial
Sim
Não
Voltar

Comentários
Comentário enviado com sucesso!

Chat Online