Opinião: José Avelino Gonçalves | Estórias de um Arquivo Judicial: Rita, a formosa esbicadeira
Por Jornal Fórum
Publicado em 05/06/2026 09:00
Opinião

Um raio de sol, vindo das profundezas da raia, entra pela janela do escritório do ilustre causídico, mostra as lombadas da livralhada especializada no direito do trabalho e das corporações. A chávena da vista alegre, delicadamente transpirada, aninha-se no lado direito da mesa de trabalho, fumega fortemente. O aguça mostra aparas do lápis viarco. A garrafa de água de Monfortinho (Fonte Santa), maravilhosa para a cura da pele, fígado, estômago e intestinos, mostrava o ambiente aziado. O Dr. Alçada, batendo as pálpebras, mostrava os olhos tremendamente pesados da noitada, alanzoava. O cigarro ao canto da boca, o cabelo ligeiramente desgrenhado, indicava coisa complexa, delicada.

Embrulhada na papelada jurídica uma foto mostrava uma rapariga ainda nova, bem-apessoada. O advogado sente-se sufocado, ligeiramente perdido. Não atina com a argumentação jurídica. Precisa de convencer os senhores juízes desembargadores da Relação de Coimbra. Desaperta o nó da gravata, aforra as mangas da camisa, olha para a moça, para as suas formas e de olho esgazeado, murmura:

- Caramba! É bonita!

Os seus clientes são ricos. Esmiúçam o labor da industria dos lanifícios. Com fábrica posta ali para os lados da Carpinteira, têm uma ranchada de mulheres a trabalhar para eles. O problema é que tinham a mania de as palrar todas. Alardeavam que o dinheiro comprava tudo e que provavam passarinho novo todas as semanas.  A Rita, um pedaço farto de mulher, que mostrava indiferença aos gordos olhares dos patrões, era mais uma. Mas a coisa, desta vez, correra muito mal para os patrões.

A moça, uma virtuosa esbicadeira, que tinha olho para as malvadezas dos chefes e para cortar os nós do tecido, nascera na rua da Maria da Fonte, num berço de gente honesta e trabalhadora, gente tremendamente sindicalista. O pai fora preso na greve de seis de Novembro de 1941. Torturado e enviado para Caxias, desaparecera para parte incerta. A mãe morrera durante o parto. O tio Cunha, com uma lagrimazinha ao canto do olho, pega amorosamente naquela bebé fofa, admira-a muito. Leva-a para sua casa, cria-a como sua filha.

Por causa do caso o Dr. Alçada pegara-se furiosamente com o Dr. Fonseca e Cunha, o advogado mais castiço das Beiras, tomara birra ao procurador Ferreira da Costa e não se esquecera da queixosa. Flagelava-os com chalaças, esbugalhava a Justiça. Atreve-se a afirmar que a avó da pequena era uma candorça e o tio Cunha um farromba, que tentavam chincar os seus clientes! Claro está, tudo embrulhado no absoluto e sagrado direito da defesa!

O senhor procurador entrara a matar. A carestia do custo de vida obriga as pobres raparigas a irem trabalhar na industria mal desponta a puberdade. Se são airosas e bonitas o destino está-lhes traçado. A honra fina-se mal o chefe da oficina, o patrão ou o filho do patrão lhes colocam a vista em cima. Ninguém ousa queixar-se. Se o fazem, algumas notas de contos de reis resolvem. O dinheiro, as relações sociais e a influência local, tudo abafam!

O Dr. Alçada, para se compreender os factores psicológicos que e moveram em roda dos factos destes autos, atira aos da Justiça, um caso recente, muito notório e do conhecimento do tribunal “a quo”. Certo rapaz, das melhores famílias da Covilhã, perdera o pai ainda muito novo. Aos dezanove anos, chamado, solicitado, seduzido, sabe-se lá porque baixas formas, decide casar à face da lei com uma monstruosa mulher, recrutada num prostíbulo local, uma fêmea profissional. Para o causídico escrevinhador esta cena não se tinha consumado vivendo o pai. Faltou quem surpreendesse os primeiros passos do enleio. Se tal corte fosse prematuro talvez a fêmea, roída de vingança e de cobiça, viesse também à policia a queixar-se de que tinha sido desflorada por aquele de quem pretendeu, antes de tudo, os bens da terra para esteio de luxos.

O senhor advogado não termina por aí, devassa a vida da queixosa. A esbicadeira tem direito, também, ao seu naco alegatório. Uma mulheraça que se passeava com vestuário rico e sedutor pelas ruas da Covilhã, desafiando mais as carteiras dos homens casados do que os instintos dos solteiros. Uma mulher que sempre que foi chamada ao tribunal deu nas vistas pelas meias e vestidos de seda, pelos sapatos caros, pelas esmeradas ondulações dos cabelos. Provavelmente deu reparo às pessoas dos ex.mos magistrados, quando, antes de a conhecerem por dever de oficio, a lobrigavam no mercado municipal a comprar os seus tomates, suas cerejas, os seus morangos. Uma mulher que nunca esteve em condições de se recolher a estabelecimento de beneficência, pois não era indigente.

A esbicadeira Rita estava inscrita no Sindicato Nacional do Pessoal da Industria de lanifícios e ganhava 11$50 das oito às cinco da tarde. Juntando-lhe o trabalho à tarefa que leva para casa, a preparar cortes de fazendas, leva mais um salário no final do mês. Bons proventos para quem alardeia ser muito pobre.

- O que pensarão destes proventos tantos diplomados em direito e em medicina que ocupam funções de conservadores e médicos de partido e de Casas do Povo? – rumina no seu escrito o Dr. Alçada. O Dr. Alçada atreve-se. Tenta encostar a Justiça da Covilhã à parede:

 - Como se pode dizer que a esbicadeira é miserável, uma mulher cujo vestuário luxuoso está patente nas fotografias juntas?!

A Justiça, na sua cegueira, segundo o desmando jurídico do Dr. Alçada, manda – lhe riscar certas expressões muito babancas, muito lorpas. Os magistrados do tribunal da Covilhã pronunciam os patrões ricos. Atiram-lhes com os crimes de sedução, estupro e tráfico de branca. 

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